Entre Muros
Redação DM
Publicado em 7 de outubro de 2015 às 00:15 | Atualizado há 11 anosNo dia 9 de novembro de 1989 cai o Muro de Berlim. O mundo acompanha pelo noticiário cada uma das marretadas que o derrubam com a sensação de que o “Muro da Vergonha” ao ser derrubado era a última fronteira que nos separava de um futuro sem nódoas.
Em um estado de delírio coletivo nos encontrávamos, e parecia que nada poderia nos atrapalhar de viver o nosso destino, de ser humanidade enfim, foi previsto até mesmo o “Fim da História”, a partir daí todas as pessoas passariam a comungar dos mesmos princípios e ideais de democracia e liberdade. Agora era verdade: “Fraternite, Igualite e Liberte” !
O que resta daquele 09 de novembro, agora em 2015?
Difícil pergunta, pois há muitas respostas e nenhuma possibilidade de sentir o espírito de 1989 quase 30 anos depois.
Em 1989 quando caiu o Muro de Berlim havia no mundo 17 muros separando os seres humanos, hoje esse número mais que triplicou, são 65, e as razões são as mesmas de então, acrescidas de tantas outras, que não é razoável sequer procurar entender o que está acontecendo nesse 2015 repleto de acontecimentos.
E nós, o que temos haver com tudo isso?
Devemos mesmo pensar nesses mundos tão distantes do nosso, lembrar que o Planeta Terra é a nossa casa, e se as fronteiras não mais existem para os mercados que são globalizados. Porque os muros para as pessoas? Porque os muros para crianças que chegam sozinhas em países estranhos, incapazes de entender o que está acontecendo?
Hoje temos o Muro de Gaza e o Muro da Cisjordânia que separam israelenses de palestinos, em extensão 7 vezes maior, e o Muro do México que separa americanos do norte – ricos, de latino americanos pobres, 30 vezes maior que o Muro de Berlim. O Muro Índia / Bangladesh todo em arame farpado, que deixou cem mil em terra de ninguém. O Muro Arábia Saudita / Iraque tentando se proteger do Estado Islâmico. O Muro mais recente que vai separar a Hungria da Sérvia, para impedir a entrada de refugiados africanos, sírios e de onde mais houver pobreza, guerra e fome, não importa a cor, não importa o credo.
Aqui no Brasil, os muros dos nossos Condomínios fechados que aprisiona quem está dentro e discrimina quem está fora, perpassam o nosso cotidiano como uma irrelevância, não são vistos, não são notados, não são sentidos, apenas existem reforçando o nosso apartheid social de maneira discreta e inequívoca.
De que lado do muro você está? Com quem você se identifica? Onde está a nossa empatia? Para onde se direciona a nossa simpatia, a nossa solidariedade. Será que ela existe? É possível notar a diferença entre alguém que precisa de você e de um marginal que te acossa e pode até te matar?
Mas a mim são perguntas que carecem de respostas óbvias, não há nitidez, há uma realidade com cores baças que mal conseguimos perceber, a não ser que de repente ela nos assalte com a força de uma ventania que tira as coisas do lugar comum, do nosso dia a dia tão asséptico, que ao ver muros sendo erguidos por todos os lados, o que nos resta é erguer também um muro dentro de nós para que nada nos emocione, nada nos tire do prumo, nada nos seja cobrado.
Afinal “Esses muros não me dizem respeito, pertencem a outro bairro, outra cidade, outro país”. Somente não podemos esquecer que num de repente podemos estar do “outro lado” de algum muro intransponível.
A nossa capacidade de erguer muros é algo que fascina, ainda que de maneira torpe, pois que é explicável, mas é inaceitável que ainda persista essa maneira de entender as coisas, que cria abismos, que dilacera os horizontes das pessoas e por onde os atalhos e desvios podem levar ao nada.
Porém não é a dimensão dos Muros que lhes dá o significado, é o simples fato de sua existência, sendo um desafio a qualquer visão humanística ou humanitária do mundo. O Muro representa a morte, o desamparo, a falta de respostas, é a prova cabal de que a “Marcha da Insensatez” está em pleno curso, e que a história vai continuar, ainda que o final possa não ser o esperado.
Leticia Aires é médica graduada pela Universidade Federal de Goiás (UFG), especialista em Infectologia e Pediatria e mestre em Ciências da Saúde pela UFG)