Brasil

Escola, uma utopia possível

Redação DM

Publicado em 26 de janeiro de 2016 às 23:47 | Atualizado há 10 anos

“A finalidade de nossa escola é ensinar a repensar o pensamento, a ‘dessaber’ o sabido e a duvidar de sua própria dúvida; esta é a única maneira de começar a acreditar em alguma coisa.”

(Juan de Mairena)

 

Durante muito tempo, a escola foi o lugar privilegiado para o aprendizado, sobretudo para as classes populares. Esse pensamento cristalizou-se na sociedade e a instituição escolar, deteve esse posto por anos. Mas a escola hoje deve se comportar como há 100 anos? Hoje temos uma Escola do século XIX, um Professor do século XX e um Aluno do século XXI.

Nos dias atuais o que um professor tem a ensinar que um aluno não poderia aprender na internet, por meio de um tablet ou mesmo um smartphone? Transmitir informações é a única função da escola? E o conteúdo clássico: equações de matemática, regras de gramática, isso é tudo que um aluno deve aprender? A escola deve formar para o convívio social? Para o mercado de trabalho? Ou deve-se ocupar da formação intelectual do educando?

O professor Rui Canário, da Universidade de Lisboa, evidencia que mesmo que aja um desenvolvimento tecnológico e científico, nunca antes visto na história da humanidade, tudo isso é proporcional a nossa falta de maturidade política e social. Para o docente português há uma imaturidade política e social para grande parte das pessoas. Nada de novo. Afinal, as redes sociais é a síntese desse processo, pois, mesmo diante de uma plataforma digital como o facebook, por exemplo, há uma imensidade de imaturos políticos e sociais, e mais imbecis. As redes sociais vêm se transformando num monumento à imbecilidade. É impossível a qualquer ser humano por mais racional que este seja, ter uma posição, uma opinião numa rede social. Quem tem opinião em rede social hoje, logo é taxado de extremista ou radical, em sentido pejorativo, pois, radical é a aquele que vai a raiz da questão, ao seu âmago.

As redes sociais não ensinam a dialogar porque é muito fácil evitar a controvérsia. Estamos usando-as não para unir, não para ampliar horizontes, mas ao contrário, para fecharmo-nos em zonas de conforto, onde o único som que escutamos é o eco de nossas próprias vozes, onde o único que vemos é o reflexo de nossa própria face…

Mas afinal por que somos assim imaturos políticos e sociais?

Para o professor Rui Canário a culpa é do nosso modelo escolar, que produziu e vêm produzindo sujeitos imaturos políticos e sociais. Contudo nem sempre foi assim. Há três fatores que caracterizam a nossa escola. Falo especificamente da nossa escola pública. Durante um tempo tivemos uma escola pública de qualidade, na década de 1950 tínhamos uma escola de altíssima qualidade. Era uma escola voltada para a reflexão e para o pensamento. Era uma formação aberta, ampla, questionadora e reflexiva. Contudo era uma escola para poucos. Voltada para formação de lideranças.

Com a industrialização no país, em meados do século passado, há um êxodo rural e milhões de pessoas migraram do campo para a cidade, nasce assim a escola de massas, para todos. De uma hora para outra se construía muitas escolas. E qual foi o modelo dessa escola? A escola como fábrica. De pessoas para o mercado, no caso a indústria, e que produz numa velocidade sem reflexão. Escola segmentada, que produz numa rapidez como um linha de montagem. Essa é a escola que temos, uma escola seriada: 1ª série, 2ª série, 3ª série.

Nossas escolas têm sinais sonoros, para dizer que o turno começou. Sinal sonoro é coisa de fábrica! Nossas aulas têm 50 minutos, como se o conhecimento de artes, matemática, língua portuguesa, por exemplo, coubesse nesse tempo.

Uma escola com o conhecimento fragmentado, nosso modelo de ensino, privilegia a separação em detrimento da ligação, e a análise em detrimento da síntese. Grande erro. Há três séculos, Blaise Pascal, nos evidenciava um imperativo cognitivo: Considero impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, tanto quanto conhecer o todo sem conhecer, particularmente as partes.

Outra característica desse modelo de ensino é a escola como reformatório ou prisão, na perspectiva panótica, conceituada por Michael Foucault, essa escola é herança do regime militar. A escola como prisão traz o currículo organizado numa “grade” curricular. Atrás da “grade” curricular há disciplinas. A palavra “disciplina”, originalmente designava um pequeno chicote utilizado no autoflagelamento e permitia, portanto, a autocritica; em seu sentido degradado, a disciplina torna-se um meio de flagelar aquele que se aventura no domínio das ideias que o especialista considera de sua propriedade.

Retomando Foucault, o sujeito é sempre resultado de uma prática, ou seja, o sujeito é sempre fabricado. Qual a intenção ou o desejo dessa escola militar? Que não foge do modelo executado nos colégios da polícia militar de Goiás. Produzir seres passivos, disciplinados para o capital, não pode haver questionamentos nem mesmo críticas, repetição e não criação.

Nossas escolas são quartéis, modelo panóptico, são apertadas e isoladas, com grades para todos os lados. Pátios vigiados, escolas sem espaços amplos, sem locais de convivência social. Certa vez, numa sala de aula, vi escrito na porta da sala: Pavilhão 9. Nada mais verdadeiro.

A última característica do nosso modelo de ensino é a influência do idealismo socrático-platônico. Quanto mais meu conhecimento é abstrato, mais distante da vida, dos processos, maior ele é. As pessoas preferem o quadro, o desenho à manifestação pura do conhecimento, já aprofundei essa tese no artigo: A arte é a mentira que nos ajuda a conhecer a verdade.

O que a escola deveria aprender antes de ensinar?

Já que somos habitantes de um mundo em constante formação, qual o futuro da escola? Edgar Morin, filósofo francês trata a educação como formação do novo cidadão, trata educação como política. Como atuação na sociedade. Segundo o autor, temos que aprender a aprender. Mais do que aprender, Morin evidencia que temos que  inverter uma lógica: O que faz a escola?A escola ensina e o aluno aprende. Para ele a escola tem que aprender e dessa forma, não pode mais ensinar. Sobretudo, por que o professor não deve ensinar mais, ele deve estimular a aprendizagem. Até porque ninguém ensina ninguém. Porque ninguém ensina o que o outro de algum modo, não perceba, intua, seja estimulado. Porque o aluno pode decorar, mas aprender, a gente só aprende o que nos toca: afetivamente, humanamente.

O professor não pode mais ser o centro da atenção. Aluno, do Latim “alunus”, o sem luz, isso não deve existir mais. Mas qual o papel do professor? Estimular o aprendizado. O professor não tem obrigação de saber tudo. Até por que todo saber é provisório. A internet deu fim ao gueto do conhecimento. Se não acabou, pode acabar. Na internet há informação e conteúdo, por isso nossas escolas não devem excluir essa ferramenta do processo de ensino e aprendizagem.

A escola conteudista tem que acabar, pois, é melhor uma cabeça bem feita do que uma cabeça bem cheia. Quem tem cabeça cheia, não aprende, só aprende aquele que não sabe. Como alguém pode aprender se esse está cheio? O aprendizado se dá no vazio.

Toda escola devia antes de tudo ter um ônibus para tirar os alunos de dentro da escola. Como podemos querer formar um indivíduo, isolando-o entre quatro paredes como num presídio? Nossa escola não frequenta os parques, os museus, a cidade. Cidadania exige que as pessoas vivam nas cidades.

Por fim, a escola pública vem sofrendo ataques de todos os lados, desde a militarização do ensino à privatização da escola pública. E há um silêncio da sociedade diante de desmandos dos políticos que agem como se a escola fosse deles e não nossa. Não podemos ficar alienados a isso. A escola não é problema da escola, a escola é problema da cidade, ou criamos uma cidade educativa, ou não teremos nem escola, nem cidade e muito menos sociedade.

 

(Edergênio Vieira, poeta e educador na Rede Municipal de Ensino de Anápolis – @edergenio)

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