Brasil

Estradas, caminhos, trieiros nas lonjuras imemoriais do sertão de Goyaz

Redação DM

Publicado em 10 de agosto de 2016 às 02:40 | Atualizado há 1 ano

A inexistência de caminhos e estradas não impediu a conquista dos sertões do Brasil. Houve apenas um hiato histórico, um atraso no tempo, já que os homens, no afã da conquista, produziram mecanismos próprios para que as viagens ao desconhecido sertão pudessem ser empreendidas.

Nos caminhos geográficos abertos ao processo de adentramento em terras goianas ainda no século XVIII foi o importante elo que ligou todo esse grande sertão do oeste ao restante do Brasil. Pelos trieiros e picadas a história de Goiás, pela Geografia das incertezas dos caminhos nascidos a esmo, foi sendo escrita na paciência e pacatez dos animais de custeio.

No bojo do espaço geográfico este se processa por um conjunto indissociável de múltiplos sistemas. Dentre esses, está o de ações, com os quais se procura revelar, em minúcias, as práticas sociais dos diferentes grupos que nele produzem, lutam, sonham.

Nesse aspecto, a Geografia histórica cumpre o seu fundamental papel de não apenas estabelecer exatidão de uma linha de tempo, mas, sobretudo, compreender essas transformações no escopo do espaço. Assim ocorreu com os caminhos que trariam a Goiás os aventureiros.

A sociedade sertaneja é, portanto, aquela que consolidou Goiás como um lugar, uma pátria para se morar; não apenas um lugar para se retirar ouro e seguir adiante. Era preciso sobreviver em meio às dificuldades da época, como o isolamento, a falta de recursos e a natureza indomável. Para essa empreitada de se fazer Goiás, os caminhos foram portas abertas à amplidão.

Nesse aspecto, mesmo no espaço geográfico perceptível, a delimitação ou recorte se faz difícil em razão das minúcias e rugosidades do objeto, em razão da dinâmica da atividade com os elementos de permanência, mesmo velada, numa esteira de tempo já bissecular. A complexidade está em perceber e explicar os motivos da permanência diferenciada e como a mesma se estende no círculo social com atores completamente díspares economicamente.

Diferentemente do espaço absoluto e cartesiano, o que se percebe acentuadamente é que o espaço será visto de forma relacional com sentidos múltiplos e valores profundos, enraizados no tempo e fortalecidos se confrontados a outros espaços e a outros objetos.

E esses íngremes e misteriosos caminhos se abriam para o grande sertão, descrito por Guimarães Rosa: “O sertão me produziu, depois me engoliu, depois me cuspiu do quente da boca.” O sertão era, antes de tudo, um ideário que povoava o pensamento dos que se aventuravam ao desconhecido.

Era um sertão forte, viril, paisagem completamente perceptível, uma unidade visível do arranjo espacial, com certeza. Pela égide da emoção e do sentimento mais ainda se avaliada pela poética e telurismo dos caminhos no transcorrer da história. É, de fato, o espaço não apenas estudado, mas vivido, experimentado; local de experiências existenciais simbólico-afetivas.

O sertão está na gênese afetiva da maioria das pessoas. Uma Geografia do sentimento, mesmo velado.

Era o ápice da “idade do couro”. Constituía-se no tempo que, na sucessão dos meios geográficos no Brasil, a princípio se utilizou do corpo do homem, com sua força dividida com os animais, buscando, mesmo de maneira oscilante, alternativas de sobrevivência, nesses caminhos de ninguém.

Mas os caminhos eram as principais dificuldades existentes, com seus perigos e seus mistérios. Eram atoleiros roladores de serras, balsas a serem transpostas, tratamento dos animais, pousos, as moléstias pelos caminhos, a preocupação com a carga, os assaltos nos caminhos.

Saint-Hilaire destaca sobre a diminuição da população insuflada pela decadência da mineração, a miséria geral e os caminhos em péssimo estado. As fazendas eram feudos em que tudo se concentrava. Tornaram-se auto-suficientes, em todos os sentidos. A vida urbana era uma temeridade.

Assim, no transcorrer dos anos, a Coroa Portuguesa, sob pena de morte, proibiu os caminhos que levariam às minas, com o receio do escoamento das possíveis riquezas auríferas. A fiscalização era ineficiente e muito roubo acontecia pela corrupção maciça. Descumprindo a lei de que a atividade única deveria ser a mineração, muito gado começava a adentrar a distante Província, burlando o comando do Império.

A crescente leva de aventureiros no rumo de Goiás passava primeiramente por Minas Gerais, varando-se o sertão no caminho do futuro, a partir do povoado de Paracatu do Príncipe, no “Sertão da Farinha Podre”.

Era assim aberta a concepção lenta de um lugar, como porção do espaço no qual as pessoas constroem seus laços afetivos e subjetivos. Nele, a dimensão da vida e dos sentimentos de pertencimento, de identidade, de raiz. Goiás passa a ser o lugar da vida plena, não mais a passagem rápida e fugaz da riqueza aurífera. Era preciso se fazer desse lugar, um lugar, porção de recuperação e reinício de uma vida.

Em 1721 determinava-se, porém, uma nova rota que Luís Pedroso de Campos, paulista que se envolvera em rusgas e que estava foragido, acabou por criar o chamado “Caminho geral dos Goyazes” para ter como indulto de suas culpas com a Coroa Portuguesa.

Nos lombos dos animais é que se penetrou pela primeira vez nos desconhecidos sertões de Goiás. E no ir e vir, além de carrear riquezas ainda se levava e trazia doenças. Foram os tropeiros e carreiros que trouxeram ao sertão a varíola e a gripe espanhola.

No caminho para Goiás, os tipos chamados de naturais eram os rios, no caso específico o Tietê, o Rio Grande, O Rio Preto e o Rio Tocantins. Seguiram-se caminhos terrestres como o das Monções e dos Goiases. Estes seguiam os motivos da descoberta do ouro em Mato Grosso e nos sertões de Goiás e a chegada dos equídeos e muares de São Paulo.

Esses animais chegaram a São Paulo, oriundos do sul do Brasil onde eram criados desde o século XVI, segundo Goulart (1961). Na descoberta das minas de Goiás e de Mato Grosso foram sendo espalhados no sertão do Centro Oeste do Brasil, onde muitos se transformavam em “brabeza” e eram pouco a pouco amansados, ao se criar uma profissão hoje praticamente desaparecida, a de “amansador de animais”.

O primeiro grande eixo do destino do gado de corte em Goiás, segundo Henrique Silva em sua Revista Informação Goyana era o matadouro de Santa Cruz de Goyaz, no sul do Estado, ainda no século XVIII. Era o local onde se pagava também a entrada, que era o imposto de circulação das mercadorias por peso.

Com a decadência da mineração, foi a participação das tropas e das boiadas que fomentou outra atividade econômica. Os animais propiciavam o surgimento de cidades ao que se chamou “trilheira viária de Goiás”.

No escrito do Padre Manuel Aires de Casal intitulado Corographia Bazília, publicado em 1817, há destaque para a descrição da questão da condução do gado, conforme narra na ortografia da época: “Oiro e gado sam os únicos objectos d’exportação, que introduzem no paiz o que o luxo e as necessidades da vida requerem de fóra. Se um pouco de algodão em lan, ou tecido com alguma courama se conduz aos protos orientaes, He unicamente por não levar de voluto os animaes, que vam buscar indispensáveis fazendas sêcos, molhados, sal, e ferro; aliás não pagariam metade das dispezas da condução.”

As pontes eram propiciatórias de novas fronteiras e abriam caminhos para o desconhecido, este, a partir dos animais. Roger. Bastide (1973) destaca com muita ênfase sobre a participação do cavalo no desenvolvimento da sociedade brasileira. Segundo este autor, foram os índios Guaicurus, das fronteiras do sul do país, a primeiro utilizarem este animal, outrora selvagem, para as suas atividades diárias, repassando este costume ao colono, principalmente na amplidão dos pampas gaúchos.

Eram criados assim os territórios e os domínios, na delimitação natural das posses, o domínio econômico e sobretudos político que alongaria certos domínios por gerações.

Também, muitas estradas e pontes eram construídas com créditos do então Ministério da Agricultura, no sentido da criação de núcleos urbanos mais afastados, conforme o tempo e suas contradições. Era uma preocupação premente com a ocupação do imenso território goiano, na busca de propiciar entradas a lugares desconhecidos de uma maneira geral. Era a tentativa de penetração e de se criar um lugar específico ao jeito de ser do homem que aqui se configuraria o cafuçu.

No cenário político o tema compreende desde a análise sobre a centralização e descentralização política e administrativa do Império até a interiorização da metrópole pelo vasto território e a consolidação dos poderes regionais e locais. Vivia-se numa país de uma capital distante que voltava às costas para o grande sertão e que tinha os olhos direcionados para a Europa.

No livro Anais da Província de Goiás, de José Maria Pereira de Alencastre, no que se refere ao ano de 1863 informa que por meio de duas provisões do Conselho Ultramarino, datadas de 22 de junho de 1743 e de 2 de agosto de 1748, respectivamente, foram assinalados os limites entre as capitanias de Goiás e Minas Gerais.

Nesse caso, Capitania de Goiás, então, passou a ser detentora de toda aquela grande faixa de terra. No entanto, com a criação da comarca de Paracatu do Príncipe em Minas Gerais, no ano de 1815, uma Ordem Régia mandou desanexar da Capitania de Goiás os julgados de São Domingos do Araxá e do Desemboque, ficando a Capitania de Minas com a posse da vasta extensão territorial compreendida entre os rios Grande e Paranaíba.

Com o ápice da “idade do couro”, o homem se fixou no campo e criou uma sociedade peculiar, com identidade específica, com a luta pela ocupação e fixação no espaço, dadas as dificuldades, mas que fomentou o jeito de ser goiano, com as raízes autenticamente rurais.

Tais fatos legitimam o espaço como objeto e como temática da História, rompendo com o antigo preceito de que só os fatos políticos e administrativos eram considerados importantes para o escopo da análise do tempo e do meio.

Assim, Goiás foi resultado desse caminho e dessa busca do ouro e mais tarde da pecuária. Foram várias as etapas de construção desse espaço econômico, social, político e cultural, o que configurou panoramas físicos e demográficos diversos na esteira do tempo e que criou fronteiras formais que se modificaram ao longo dos séculos.

Os velhos caminhos que cruzaram Goiás em tempos diferentes eram estradas carreiras e tropeiras que seguiam ainda as marchas dos bandeirantes que, outrora, haviam atravessado o grande sertão do oeste na busca de infindas riquezas e de prestígio junto à Coroa de Portugal.

Mas, esta também era incisiva quanto à circulação de bens, em 03 de janeiro de 1735, a Carta Régia desta data, proibia a circulação de moeda, permitindo somente a de ouro, ordenava ainda a expulsão dos ourives, demolição de engenhos e fechamento de estrada. Eram medidas que restringiam em muito as atividades econômicas.

Também em 29 de janeiro de 1734, Dom Antônio de Távora, conde de Sarzedas, escreveu a Antônio de Souza Bastos sub-intendente de Meia Ponte sobre os caminhos do ouro e pediu a lista dos moradores das minas. Era a Coroa fazendo a inspeção dos moradores das proximidades das minas.

Em nossa região, marcada pela história da agricultura e da pecuária, há registros antigos de caminhos e rotas que marcaram a busca de gado e de lugares ideais para a agricultura, evidenciando a riqueza do chão, nas imediações de Bonfim de Goiás, então enorme julgado que compreendia toda essa região.

Nesse tempo, Goiás se ruralizou em razão da decadência das minas de ouro. O viajante John Emanuel Pohl destacou: “É costume passarem os habitantes das povoações a maior parte do tempo em suas fazendas ou engenhos. Vêm à cidadezinha somente no tempo das grandes festas religiosas, para mostrarem-se com toda pompa do que ainda é capaz o seu empobrecimento.”

As primeiras estradas foram também delineadas por viajantes que seguiam rotas antigas que foram marcando limites entres as vilas e povoados perdidos no alto sertão. Esses viajantes e pesquisadores foram também importantes porque delinearam nossa fauna e flora e muitas outras curiosidades que são hoje peças fundamentais aos pesquisadores de nossas origens e de nossos autênticos costumes.

Em 4 de janeiro de 1872, o então presidente da Província, dr. Antero Cícero de Assis, mandou um engenheiro informar sobre a proposta da construção da ponte sobre o rio das Pedras, no arraial de Curralinho e aprovou o contrato celebrado com José Pereira de Melo para zelador e conservador das pontes das estradas do sul, na serra Dourada, caminho para o Julgado de Santa Cruz e mandou limpar, na largura de 20 palmos, o leito da estrada nova entre o presídio de Santa Leopoldina e Rio Vermelho.

Nessas estradas havia, ainda, os registros em que se pagava imposto por circulação de mercadorias.

Alguns empresários particulares empreitavam serviços de picadas e aberturas de estradas, mas nem sempre o serviço saía a contento. Em 21 de Fevereiro de 1855, o major Torquato José de Barros Cachapuz e Chaves, construtor da picada de Canastra a São Patrício, completou 13.110 braças de serviços sem encontrar obstáculos insuportáveis, mas o serviço seguia lento, sem prazo para término em razão da pouca mão de obra encontrada.

Primeiros caminhos de Campininha das Flores levavam à capital, Cidade de Goiás, passando por Goiabeiras, Catingueiro Grande e Curralinho, abrindo braços para Mossâmedes que iria desaguar no então florescente povoado de Anicuns, um dos últimos do ouro. A aprovação para construção de estradas vinha diretamente do Rio de Janeiro, conforme aparece no documento abaixo, datado de 1868.

Por outro ângulo, abria-se para o caminho de São Sebastião do Alemão e Santa Luzia de Mario Mello, caminho de Mato Grosso.  Abrindo-se para Campininha das Flores, passava-se por Bananeiras, Vila Bela de Nossa Senhora do Carmo de Morrinhos, Caldas Novas de Santa Cruz e Santa Rita do Paranaíba, nomes hoje modificados para outras grandes e florescentes cidades que englobam o universo dessa grande terra goiana.

No registro de Guias e Passaportes de 1827 aparece, também, o despacho do então Presidente Caetano Maria Lopes Gama autorizando trânsito livre ao negociante José Victorino da Rocha Pinto que conduzia o dinheiro pertencente à Marinha, levando em sua companhia o camarada Antonio Gonçalves e os escravos Antonio Cabinda, Mathias Banguella, Calixto Congo, José Cabra e Raimundo Criolo. Era muito perigoso o transporte de dinheiro vivo, com alguns crimes nas encruzilhadas e nos pousos no alto sertão. As estradas eram mínimas, proibidas as expansões pela Coroa; assim, segundo os cronistas da época, as dificuldades de locomoção se avolumavam e deixavam estagnados os moradores da Província de Goiás.

Era preocupação dos governantes as estradas importantes da Província. Em 21 de janeiro de 1858, o presidente da Província mandou pagar a construção da ponte no ribeirão Gravata, na estrada nova para Jaraguá. Achava-se em construção o calçamento do beco do pimenta, na capital e ainda havia sido reparados os estragos da estrada de Ouro Fino, na ladeira que descia para o córrego das areias. Nesta época Ouro Fino tinha grande importância para a região e hoje existem do mesmo apenas as ruínas.

O serviço de construção e manutenção de estradas era empreitado a terceiros. Em 17 de janeiro de 1874, o então presidente da Província, dr. Antero Cícero de Assis, mandou ouvir o capitão Braz Marcelino de Camargo sobre o andamento da construção das pontes de rio das Almas, e da Ponte Alta, na estrada de Mato Grosso, dos quais o mesmo era encarregado. Era necessária uma prestação de contas em relação aos serviços executados.

Também, durante a Guerra do Paraguai, em 6 de abril de 1867, o presidente da Província, dr. Augusto Ferreira França, mandou pagar ao arrieiro Gabriel dos Anjos Rodrigues e ao camarada Antônio Correa o que se lhes devia, pela viagem feita a Cuiabá, sobre as notícias do confronto.

Caminhos do passado, estradas salineiras, estradas tropeiras, estradas carreiras, estradas de paus de arara. Tempo de ontem na saga de homens e mulheres que lutaram com dificuldades e venceram os limites do próprio tempo.

Lonjura. Fim de mundo. Biboca. Calcanhar do Judas. As fazendas goianas, rústicas e simples, foram o testemunho da durabilidade, da rigidez, da solidez tanto dos objetos, quanto dos valores e costumes.

O sertanejo, seja qual for à região do Brasil, tem um cotidiano estafante. Bem escreveu Euclides da Cunha que o sertanejo “é o homem permanentemente fatigado (…). Entretanto, toda esta aparência de cansaço, ilude”.

Havia, também, pesados impostos que incidiam sobre os fazendeiros e os roceiros goianos, o que mais dificultava ainda a sobrevivência dos mesmos diante das agruras dessas lonjuras sertanejas.

Também, o caipira foi chamado de boçal, capiau, bronco, mocorongo, caipira, jeca, cafuçu, babaquara, camponês, roceiro, tapiocano, muxuango, matuto, tabaréu, ranca toco, que Lázaro Faleiro define em sua obra Quebra cangalha: “Noite passada, ressaca danada, sanfona azarada, barulheira da pagodeira e da passarada, sons passados e presentes enchem a mente do cafuçu.”

Na verdade tudo isso era uma visão um tanto quanto preconceituosa. O homem do campo sempre foi um forte, homem de raça e ético!

O caipira em 1920, na concepção de Valdomiro da Silveira em Os caboclos era o habitante do interior, canhestro e tímido, sonso e desajeitado.

Saint-Hilaire (1937, p. 113) descreve o sertanejo: “Desde Vila Boa de Goyaz até Rio das Pedras, tinha eu tido, quiçá, cem exemplo da indolência dos matutos. Esses homens, embrutecidos pela ignorância, pela preguiça, pela falta de convivência com seus semelhantes, e, talvez, por excessos venéreos, prematuros não pensam: vegetam como as árvores, como as ervas do campo.”

As fazendas goianas eram verdadeiros feudos em que, na faina diária de homens, mulheres, crianças e os animais; a vida seguia na força do trabalho e na luta e labuta sem tréguas. Tempo de suores e fadigas, mas tempo de construção. Fortalecia-se, assim, naquele Goiás provinciano do século XIX a economia rural.

No que concerne ao uso do transporte, na locomoção de pessoas dentro do território goiano alhures, havia, além das diferenciações sociais excludentes, ainda a questão do gênero. Era mais difícil, no âmbito do transporte com animais, a locomoção da mulher até por questões físicas. Moça direita, honesta, “de família” não abria as pernas sobre cavalos, em posições tidas por obscenas.

Os silhões em que moças usavam, assentadas de lado e com as pernas fechadas, era um adereço muito caro, somente para as mais ricas. Havia até tamboretes próprios para a subida e descida das damas, chicotes com cabos encastoados de prata. No romance Elos da mesma corrente, de Rosarita Fleury, há diversas passagens que explanam sobre o uso dos silhões e dos tamboretes para a descida das damas dos seus cavalos ou montarias. Mulher pobre andava mesmo era a pé, se possível ainda carregando filhos nas cadeiras, conforme mostram vários poemas de Cora Coralina.

Na realidade, naquele Goyaz provinciano, mulher honesta era aquela que ficava quieta e presa no recinto do lar. Viagem e passeio não era coisa para o “sexo frágil”. “Mulher passeadeira, saideira só poderia dar em bandalheira”, era o ditado corrente.

Na Geografia goiana, a mulher não tinha espaço próprio na abertura dos caminhos ao longo do tempo. A mesma ficava restrita ao lar e aos afazeres domésticos.

Assim, sob a égide da Geografia histórica esses sertões perdidos vêm à tona. Esta divisão da Geografia não está aliada ao conservadorismo ou tradicionalismo obsoleto e gosto pelo ultrapassado, ao contrário, constitui-se visão ao que foi extinto, com debate ao presente, pois não se pode fazer uma ruptura epistemológica da Geografia com a temporalidade.

A recente e conturbada historiografia brasileira tem dado cada vez mais atenção aos temas ligados à construção da nação durante o século XIX. Reafirma-se, nesse período, a verdadeira identidade de nosso País. Tanto a história política como a história social têm se preocupado em analisar esta temática, mas isto não quer dizer que exista consenso. É uma história costurada e descosturada com muitos pontos a serem ainda inseridos na discussão.

E na costura e descostura, somos remetidos à questão da localização material e relacional dos animais na Geografia de Goiás. Há uma unidade de ação que se centra justamente no fator econômico. Foram eles que carrearam, com sua força calada, os primórdios de nossa economia e que fizeram funcionar, ainda que lentamente, o mecanismo de nossa estrutura econômica. Nessa hierarquização é possível destacar que eles vieram primeiro.

O caminhar incessante do homem sobre o mundo vai inserindo as marcas de sua passagem, ou como asseverou Gusdorf: “A sombra do homem desenha sua silhueta na superfície do solo, por sua vez prolongamento e ponto de apoio, inserção e encarnação num espaço mais vasto do que a simples realidade orgânica.”

O complexo tema da construção da nação envolve um universo de outros assuntos e seus desdobramentos são inúmeros. Funda-se no ideário de que seja uma nação e de que maneira ela foi construída ou desconstruída. No individual, se inscreve também o coletivo, já que o homem nesse caminhar instaura seu jeito peculiar de viver em comunidade.

E a própria estrutura urbana das primeiras cidades de Goiás demonstra a preocupação da peculiaridade. Cidade toda encolhida em si mesma, com vielas e becos para passagem das tropas e dos cidadãos, casas encostadas umas às outras, como se buscando aconchego.

Hoje, o contrário, o distanciamento, o isolamento dos setores periféricos, exclusão e uma solidão dolorida em meio à multidão.

Há um paradoxo: O mundo está tão cheio e há tanta solidão!

Mas, naquele tempo imemorial, da gente simples, dos compadres e comadres, perdidos nas lonjuras, havia aconchego e gratidão. Havia partilha. Era o ser (tão) goiano latejando nas veias.

Era um homem como simbiose da terra. Um coração de terra!

 

(Bento Alves Araújo Jayme Fleury Curado, graduado em Literatura e Linguística pela UFG, pós-graduado em Literatura Comparada pela UFG, mestre em Literatura e Linguística pela UFG, mestre em Geografia pela UFG, doutor em Geografia pela UFG. [email protected])

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