Brasil

Eu ainda assisto

Redação DM

Publicado em 22 de junho de 2016 às 03:23 | Atualizado há 1 ano

Eu assisto ainda… Diversos becos com muitas crateras. Valas e bueiros e fartas ruelas. Muitos incontáveis pesadelos. Tantas enfermas crianças desassistidas. Com suas feridas e sequelas.

Eu assisto ainda… A manchada saúde adoecer. Gente que não mais suporta sofrer. Criadores de paliativos e engodos. Diversas vilas e filas e famílias inteiras. Governantes macabros e que se fazem enriquecer.

Eu assisto ainda… Grotescas cenas de violência. Balas desencontradas e vítimas sem clemência. Muitas operações com combates armados. Medos marcados nas faces. Centenas de alvos da inocência.

Eu assisto ainda… Pobres escolas sem emoção. Livros, alunos com pouca dedicação. Sem caneta para ter o que escrever. Ideias novas poderão surgir. Que venham da alma e coração.

Eu assisto ainda… A desumanidade de cada casa demolida. Pais e mães e muita ferida. Nefasto sistema político. Sangrando na carne cada parede caindo. Cada pedaço de cada vida.

Eu assisto ainda… Gente faminta de olhos pedintes. Marquises e corpos de dias seguintes. Suas identidades roubadas e sem simples sobrenome. Pouco trato e sem finos requintes.

Eu assisto ainda… Históricos símbolos da impunidade. Linfático e marcas e saudade. Memórias “morrentes”. Rumo ao desconhecido destino. Onde não existe perdão sem piedade.

Eu assisto ainda… Uma juventude na sociedade urbana. Sexo e droga e mente insana. Perdida no planeta dos coronéis. Fazendo diversos caminhos tortuosos. Fartos delírios de diversão sacana.

Eu assisto ainda… Nada extraordinário possamos fazer. Tudo simples possamos dizer. Algo novo que se possa oferecer. Dedicar tais palavras para quem ainda queiramos nos compreender.

(João Silvino, via e-mail)

 


 

De pai pra filho. Pra sempre?

André P. Duarte

A solidão parece abismal, a dor, abissal, mas o que sobra é a educação, aperto de mãos, ou quem sabe um abraço frio.

E frio, porque vazio. E vazio porque há buraco, desamparo, desespero.

Para onde foram as lágrimas? São com elas que você molha as plantas todas as manhãs?

E que vontade é essa de repente de se tornar um velho? É preciso ocupar o lugar? Qual será o próximo lugar a ser preciso ocupar? A terra?

Por trás dos sorrisos e embriaguez, o excesso, o passado, a morte.

A culpa é o pano de fundo do sofrimento maldito que dói no rabo da alma: é preciso te impedir de se sentar porque sentar é quase assentar, que é quase consertar, que é quase esquecer.

Mas, veja bem: esquecer é apontar o desejo de ter paz, que é assentar pra sempre.

É fácil de confundir com se sentar para sempre: cuidado. Cuidado com o que desejas em segredo.

Desejo pesa, e derruba se não for bendito, porque aí é fácil de ser confundido, e a confusão é uma confusão, e as palavras se trocadas adoecem.

É preciso bem dizer, ou é se sentar, se silenciar, se amaldiçoar.

É preciso discernir o que é mal-dito e o que é maldito nessa história.

Porque um já se calou pra sempre, e o outro, pode te matar.

(André P. Duarte, via e-mail)

 


 

Tragédia mais trágica

Kátia Brenner Queiroz

As tragédias no Primeiro Mundo são infinitamente mais trágicas que no Brasil! Um maluco com comportamento homofóbico (ele era “gay”) assassina 49 pessoas dentro de uma boate de homossexuais em Orlando, nos Estados Unidos, e a nossa mídia se detém exaustiva e diuturnamente em esmiuçar o fato. Conta a biografia das vítimas suas atitudes e palavras  prévias ao fato. Massacra o telespectador, o ouvinte de rádio e o leitor.

No Brasil, 644 pessoas foram mortas no biênio 2014/2015, simplesmente por sua orientação sexual.

É uma prepotência, uma arrogância sem limites, alguém julgar que o outro deva morrer para satisfazer seu “pré-conceito” sobre sua intimidade sexual. É igualmente impressionante que a população brasileira engula informações tão detalhadas sobre essa realidade primeiro mundista em detrimento da que está sob o seu nariz!

(Kátia Brenner Queiroz, via e-mail)

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