Exame para Alzheimer custa até R$ 5 mil no Brasil
Fernando Henrique - Estágio DM
Publicado em 5 de setembro de 2026 às 10:44 | Atualizado há 33 minutos
Exames de sangue podem identificar biomarcadores associados ao Alzheimer e complementar a avaliação clínica da doença | Foto: Reprodução
Exames de sangue capazes de identificar alterações biológicas associadas à doença de Alzheimer já estão disponíveis no Brasil, mas o acesso ainda é restrito à rede particular. Os testes custam entre R$ 1.800 e R$ 5.000, segundo valores consultados pela reportagem.
Os exames não são oferecidos pelo SUS (Sistema Único de Saúde), nem têm cobertura dos planos de saúde. São indicados para pessoas que já passaram por avaliação médica e apresentam sinais de comprometimento cognitivo ou suspeita da doença, não para o rastreamento em pessoas sem sintomas.
O resultado pode ajudar o médico a confirmar se os sintomas cognitivos do paciente têm relação com o Alzheimer, para complementar a avaliação clínica.
A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) afirma ter produtos regularizados para detectar diferentes biomarcadores associados ao Alzheimer. A relação de 30 testes fornecida pela agência inclui tanto aqueles que utilizam amostras de sangue ou plasma quanto produtos destinados à análise do líquor (líquido que envolve o cérebro).
No caso dos exames de sangue, o neurologista Fábio Henrique Porto, presidente da Abraz (Associação Brasileira de Alzheimer) em São Paulo, estima que custem, em geral, entre R$ 2.000 e R$ 5.000, embora o valor dependa da metodologia e do laboratório.
Antes da disponibilidade dos testes sanguíneos, a investigação de biomarcadores dependia principalmente da coleta de líquor ou de exames de imagem, como o PET amiloide (exame de imagem que detecta o acúmulo de placas beta-amiloides no cérebro, principal marcador biológico do Alzheimer). Os dois não estão no SUS nem são cobertos pelos planos de saúde.
Porto diz que o exame de líquor custa de R$ 2.000 a R$ 3.000, enquanto o PET amiloide pode chegar a R$ 10 mil e R$ 12 mil. O líquor é mais barato, mas exige uma punção lombar, método invasivo. O PET é mais caro e depende de infraestrutura especializada.
Segundo Leonardo Oliva, geriatra e presidente da SBGG (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia), os principais biomarcadores associados ao Alzheimer são a beta-amiloide e formas da proteína tau, como a p-tau217.
Essas alterações estão relacionadas ao acúmulo de placas de beta-amiloide e de proteínas tau anormais no cérebro, dois dos principais processos associados à doença.
Os testes são feitos com kits de alto custo e, em alguns casos, dependem de análise fora do país. Um dos disponíveis é o Precivity AD2, oferecido pelo laboratório Fleury, que combina marcadores de beta-amiloide e proteína tau.
De acordo com o Fleury, a coleta da amostra de sangue é feita no Brasil e a análise, nos Estados Unidos. O exame custa cerca de R$ 4.400, segundo valor informado pelo laboratório.
Também há testes que medem apenas a p-tau217. No Richet, laboratório da Rede D’Or, o exame custa R$ 1.800. Na Rede Dasa há diferentes tipos de testes, cujos valores variam de R$ 841 a R$ 4.500.
Oliva afirma que a p-tau217 é atualmente o marcador sanguíneo mais preciso para confirmar o Alzheimer em pacientes que apresentam sintomas da doença.
Para Porto, o exame de sangue também favorece o diagnóstico em fase mais inicial da doença, o que permite iniciar o tratamento mais precocemente, não só com medicamentos, mas com mudanças do estilo de vida que podem garantir autonomia por mais tempo ao paciente.
Um estudo publicado em julho na revista médica Jama (Journal of the American Medical Association) mostrou o potencial do exame de sangue que mede a proteína p-tau217 para estimar, com anos de antecedência, o risco de uma pessoa evoluir para comprometimento cognitivo -estágio que costuma anteceder a doença de Alzheimer.
A pesquisa reuniu dados de 2.684 idosos que não apresentavam sinais de perda de memória no início do acompanhamento. Ao longo de um período mediano de 5,4 anos, 478 deles progrediram para algum grau de comprometimento cognitivo –e quanto maior o nível da proteína no sangue, maior o risco. Entre os participantes com níveis altos, o risco em cinco anos foi de 24%; entre os de níveis muito altos, chegou a 38%.
Os pesquisadores ressaltam que os dados vêm de coortes selecionadas de pesquisa, e não da população geral. Antes de o exame orientar decisões clínicas individuais em pessoas sem sintomas, dizem, será preciso validar os achados em grupos mais representativos.
Porto ressalta que até o momento o teste de sangue se destina a pessoas acima de 55 anos com declínio cognitivo já perceptível, e não ao rastreio de pessoas sem sintomas.
Como é feito o diagnóstico de Alzheimer
Oliva reforça que o diagnóstico do Alzheimer continua sendo clínico, feito a partir da consulta, da história do paciente e de testes cognitivos. O exame de sangue entra depois, como ferramenta complementar, para confirmar se as alterações identificadas têm relação com a doença.
“Pacientes assintomáticos não devem fazer esse exame”, diz. Ele afirma que pessoas com histórico familiar, mas sem sintomas, procuram o teste por conta própria, o que não tem indicação. “A gente não deve fazer exame antes da consulta. O primeiro diagnóstico vem na consulta.”
Para o neurocientista Eduardo Zimmer, professor adjunto do Departamento de Farmacologia da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), a avaliação clínica isolada identifica corretamente a doença em cerca de 70% a 75% dos casos. Com a combinação de biomarcadores, esse índice pode chegar a 91%.
“O exame de sangue vai democratizar o acesso a um biomarcador que tem uma acurácia muito grande e vai fazer com que os médicos fiquem muito mais confiantes na hora de fechar o diagnóstico de doença de Alzheimer”, afirma.
Porto também destaca o potencial de ampliar o acesso ao diagnóstico correto fora dos grandes centros. Ele trabalha em São Paulo e em Londrina e afirma que a diferença de infraestrutura entre as cidades evidencia a vantagem do exame sanguíneo quando comparado com os exames de imagem ou com a coleta do líquor.
“Para uma cidade do interior é muito mais fácil eu fazer o exame de sangue. É mais barato, é menos invasivo e precisa de menos estrutura”, diz.
NOVOS TRATAMENTOS PARA ALZHEIMER
Para Oliva, uma das principais mudanças trazidas pelos testes é a possibilidade de ampliar o acesso aos tratamentos mais recentes contra o Alzheimer, indicados para fases iniciais da doença e destinados a remover placas de beta-amiloide do cérebro.
Os dois medicamentos dessa classe aprovados pela Anvisa para o tratamento da doença são o lecanemabe (Leqembi) e o donanemabe (Kisunla), ambos indicados para pessoas com comprometimento cognitivo leve ou demência leve. Não estão disponíveis no SUS nem são cobertos pelos planos de saúde. (Laiz Menezes/FOLHAPRESS)