Exposição do absurdo
Redação DM
Publicado em 15 de junho de 2016 às 02:40 | Atualizado há 10 anosSemana que passou vivemos, os goianienses, uma situação inusitada em termos de arte e cultura, seja pela ótica da produção, do acesso e, principalmente, de sua gestão municipal.
Fomos brindados com nada menos que a abertura de uma exposição artística individual do hoje secretário de cultura que a cidade tem. Algo assim como se fosse este um presente dos deuses da criação, seja, a capital do estado, que é um dos mais promissores do Brasil, ter um tal gestor de cultura tão completo, que cruza e cabeceia ele mesmo para fazer o gol: trabalhador, competente e, ademais, sensível e talentoso. Mas é muito pelo contrário.
Tal exposição de “obras artísticas” (no Espaço Cultural Octo Marques, Rua 4, Centro) traz apenas o avesso do que anuncia. Nenhuma outra relevância haveria para se falar dela se, antes, a cidade para qual o pintor barnabé trabalha, fosse bem abastecida e bem administrada em termos das referidas artes e culturas.
Acontece que a cidade está carente e mal assistida e, portanto, tal evento artístico e cultural protagonizado justamente por quem dela cuida artística e culturalmente se revela uma verdadeira piada de mau gosto.
A mídia local, de forma geral (e, como de hábito, fazendo seu papel de agente econômico presente na folha municipal, ou seja, em sua ingenuidade interesseira) anunciou a exposição do secretário pintor como uma “Celebração às Artes”, grande evento que contou em sua abertura com apresentações teatrais e outras mais, além da presença de compadres, variados companheiros e, sem dúvida, um bom punhado de inocentes.
Longe de ser um ato falho, configura-se aí um absurdo. Isso porque no seu dia a dia o secretário pintor (não por culpa de seus atributos de artista, mas pela total falta de atributos de gestão) acaba de promover o fechamento de duas bibliotecas municipais (Marieta Telles Machado e Cora Coralina), o fechamento de um centro cultural (Goiânia Ouro) e de uma galeria de artes (Palácio da Cultura).
Isso sem falar na extrema falta de cuidados com que ele, o secretário pintor, trata os monumentos municipais de arte pública que seguem caindo aos pedaços (vejamos as esculturas da praça Honestino Guimarães, dita Univesitária), o descaso com a retomada de obras prometidas, festejadas e sequer iniciadas (Casa de Vidro), as obras inauguradas e ainda em obras (Praça Cívica), os avanços anunciados que se tornaram patentes retrocessos (Grande Hotel), os fechamentos temporários que se tornaram permanentes (Centro Cultural Goiânia Ouro), a precariedade aviltante do Arquivo Histórico Municipal, que segue abandonado assim como o respeito pela memória da cidade, as finadas bibliotecas, a galeria e um sem número de expectativas frustradas em uma con-gestão infeliz para o coletivo, porém feliz para si mesmo e que, felizmente, tem mais alguns poucos tristes meses pela frente.
Se o que o secretário pintor queria era provocar a opinião pública com sua “celebração artística individual”, acertou em cheio. Por outro lado, seria-lhe preciso muita ingenuidade (mais do que imaginamos para qualquer ser humano) para pensar que uma tal exposicão possa ser crível do ponto de vista artístico (e olha que suas telas agregam ao ralo imaginário popular pictórico goiano exatamente por serem o que são). É, de fato, a exposição do absurdo municipal a que chegamos, onde as ações carecem de validade ética e moral. E competência.
O que mais poderia ser, no entanto, esta festejada exposição individual de alguém que deve cuidar de um coletivo que nada tem para celebrar? No mínimo, mais uma “Mensagem a Garcia”, dessas que, como nos mostra a literatura mundial, jamais chega a seu destino.
(Px Silveira. Instituto ArteCidadania)