Brasil

Facetas da liberdade

Redação DM

Publicado em 16 de maio de 2017 às 02:41 | Atualizado há 9 anos

São duas as facetas da liberdade: a liberdade-direito, por um lado, e a liberdade-dever, por outro. Uma não existe sem a outra. É algo até fácil de aceitar, mas… só na aparência. Na hora agá, o que mais se ouve é: “Eu não abro mão de meus direitos!”

Vejamos alguns casos ilustrativos.

Numa apresentação de música erudita no salão do conservatório, uma dupla jovem incomodava a todos com sua conversa e seus risos. Abordados por alguém, invocam a liberdade e ainda se mostram ofendidos. “Estamos ou não estamos num país democrático?!”, querem saber, afinal.

Em uma turma do curso pré-vestibular, um amigo meu se assentou à frente de duas moças que mais pareciam chaminés: era um cigarro atrás do outro. Ele lhes pediu consideração, mas elas reagiram em nome da liberdade. Ele foi ao diretor, que lamentou muito, mas… ele lhe relembrou a nobre questão da liberdade. No dia seguinte, esse meu amigo acendeu um charuto dos mais fedidos na sala e foi um deus-nos-acuda. Desde os cabelos das donzelas até o gabinete do diretor, tudo ficou impregnado daquela emanação nauseabunda. Era o cheiro da liberdade…

Conceição, jovem tesoureira do clube, faltou mais uma vez à reunião da diretoria. Cobrada pelo presidente, explicou com frescor primaveril: “Quando chegou a hora, não tive um pingo de vontade de ir, o senhor acredita? É que eu não abro mão de minha liberdade por nada, o senhor sabia?”

E que falar dos irmãos Guigui e Coromar? A dupla enlouquece os vizinhos com o volume de seu aparelho de som, infernizando os dias, as noites e as madrugadas da pobre gente. E dizem: “Somos livres e acabou!”

Jovens assim esquecem que viver em sociedade é firmar parcerias. E parcerias também implicam deveres. Quem invoca a liberdade-direito em seu favor, tem de cumprir com a liberdade-dever em favor dos demais.

Existe, pois, a liberdade-dever de respeitar a liberdade-direito de nossos semelhantes quando eles fazem silêncio numa audição de música erudita, quando querem manter sua saúde respirando um ar puro, quando esperam da tesoureira do clube o cumprimento de suas sabidas obrigações, quando querem desfrutar de um ambiente menos barulhento na intimidade de seus lares.

Refletindo sobre tal realidade, moços e moças podem bem descobrir, na vida diária, a enorme diferença que existe entre rebeldia e liberdade.

Para a ciência denominada Logosofia, trata-se de “um fato comprovado que o instinto suscita prematuramente no ser humano o problema de sua liberdade, ao confundir este, desde tenra idade, obediência com submissão e reagir em consequência disso”. Noutro trecho, assinala que a liberdade forma o vértice de um triângulo cuja base repousa no direito e no dever.

 

(Dalmy Gama, escritor e educador)


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