Fala de Caiado na CPI do MST marca arrancada ao Planalto
Redação DM
Publicado em 9 de junho de 2023 às 15:01 | Atualizado há 3 anos
Em relação ao depoimento do governador Ronaldo Caiado (UB), na Comissão Parlamentar de Inquérito, que investiga o Movimento dos Trabalhadores sem Terra (CPI do MST), na Câmara Federal, não havia motivos para achar que o tom seria muito diferente do que foi. O histórico de pouca cordialidade entre os dois lados não autorizava a pensar que o debate, agora, pudesse ser menos belicoso. Muito pelo contrário, o clima de tensão entre eles ainda persiste. Mas nada demais nesta relação, ainda que em alguns momentos a temperatura tenha se elevado um pouco.
Surgidas em meados da década de 80, a União Democrática Ruralista (UDR), entidade presidida pelo médico Ronaldo Caiado, na época, e o MST sempre foram antagônicos na essência: a 1ª mobilizou apoio político na defesa dos grandes proprietários de terra na Constituinte de 1987, como o direito de propriedade e contra a reforma agrária, bandeira apoiada pela esquerda, com forte atuação dos movimentos dos trabalhadores sem terra, a exemplo do MST, que promovia invasões de terras, sob o argumento de pressionar pela implantação da reforma agrária.
Piscada
Embora o depoimento do governador tenha sido alvo de certo lamento por parte de alguns segmentos da esquerda, nos segmentos de direita, a sua abordagem na CPI do MST foi recebida como que uma piscada para os seguidores do ex-presidente Jair Bolsonaro. Convencidos de que a situação jurídica do capitão não é confortável, podendo ser sentenciado a ficar inelegível por oito anos, em algum dos processos que responde na Justiça, os bolsonaristas deverão buscar no espectro de candidatos em 2026 alguém com perfil que mais se aproxime do ex-presidente.
Provável candidato à sucessão do atual presidente Lula (PT), nas próximas eleições, o governador Ronaldo Caiado acertou em cheio na estratégia de adotar um tom mais duro na CPI do MST. Afinal de contas, segundo estimativas de analistas e dados de pesquisas, Bolsonaro ainda conta com a preferência de um percentual alto de seguidores, que não pode ser desprezado. O discurso de Caiado na CPI do MST semana passada tem sido bastante elogiado pelos bolsonaristas no segmento do Agro, de forma geral.
Há grandes diferenças de pontos de vista entre Caiado e Bolsonaro, mas há também coincidências em alguns, como a defesa da livre iniciativa, com destaque para a proximidade com o agronegócio. Dentre os pontos divergentes, destacam-se a visão em relação à democracia e o respeito à liberdade de imprensa.
Enquanto Bolsonaro é investigado como suspeito de incentivar os atos golpistas de 8 de janeiro, em Brasília, e sua difícil relação com a imprensa, como as brigas constantes com jornalistas, sobretudo com as profissionais do sexo feminino, o governador Ronaldo Caiado sempre defendeu a democracia e não há registros de que tenha perseguido jornalistas durante os seus mais de 35 anos de militância política em Goiás e no País.
Com a provável opção do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), por disputar a reeleição em 2026, as chances de Caiado vir a ser apoiado pelos eleitores do capitão, para presidente não podem ser desconsideradas. O sucesso alcançado pelo governador no depoimento à CPI foi tão grande que passou a ser considerado com o ato inaugural de sua candidatura a presidente.
Boa gestão
Some-se a favor da candidatura de Caiado à sucessão presidencial a montanha de dinheiro que ele tem guardado no caixa do Tesouro – mais de R$ 20 bi – para investir durante os próximos três anos, as evidências apontam para que ele realize “o melhor governo na vida dos goianos”, como o próprio Caiado tem afirmado, fator que certamente impulsionará o seu projeto nacional.
Referência nacional em segurança pública, o estado de Goiás não possui nenhuma invasão de terra. O êxito nas políticas de combate à criminalidade no campo foi um dos principais motivos que levou o deputado federal Gustavo Gayer (PL) a apresentar o requerimento para que a CPI ouvisse o governador. O parlamentar agradeceu a contribuição, após o encerramento da sessão. “Caiado deu uma aula”, elogiou.
O governador explicou aos membros da Comissão que o Governo de Goiás criou um sistema de georreferenciamento de todas as propriedades rurais do estado. Com a tecnologia aliada à qualificação da Patrulha Rural da Polícia Militar de Goiás, todas as invasões no estado foram desmobilizadas em menos de 48 horas. “Hoje, o produtor rural, o assentado, o pequeno produtor, ele pode dormir, morar na propriedade dele. Antigamente ele era obrigado a ir pra cidade mais próxima porque não tinha coragem de ficar lá. Hoje temos tranquilidade em Goiás”, concluiu.
Levantamento da Secretaria de Segurança Pública mostra que Goiás registrou, entre janeiro de 2022 e maio deste ano, 51 invasões de propriedade particular, sendo 10 propriedades rurais em 2022 e outras 10 neste ano. De forma pacífica, mais de 400 pessoas foram retiradas dos locais invadidos e não há ocupações em curso.
O relator Ricardo Salles agradeceu a contribuição do governador para a evolução das investigações da CPI. “Ficamos grato, o senhor deslocar dos seus afazeres para trazer não só sua experiência como produtor rural, médico, fundador da UDR, um grande governador do Estado, deputado federal, senador, enfim, com uma história ligada à produção agropecuária no Brasil, à defesa da democracia, da propriedade privada e da produção”, concluiu o relator.