Brasil

Falando nos Azevedo, os fidalgos de Conceição

Redação DM

Publicado em 13 de janeiro de 2016 às 23:53 | Atualizado há 10 anos

Creio que Biluca não é dos mais velhos da irmandade dos Azevedo, todos eles, desde as raízes, tocantinenses; o grosso da família morava em Conceição do Tocantins.

Gente importante, os Azevedo: o ancestral coronel Francisco Ferreira dos Santos Azevedo ocupou importantíssimos cargos na Província de Goiás antes da era dos Caiado, chegando por três vezes a governar a Província, como vice-presidente que foi. Um outro ilustre Azevedo foi D. Francisco Ferreira de Azevedo, o Bispo Cego de Goiás.

Por motivos com que não chego a atinar, vieram para Conceição, onde conheci Joaquim, Totó, Dô, Pompeu e Biluca, já falecidos, por quem sempre tivera muita amizade. Todos carregavam ares de fidalgos, vindos por herança do manancial da família; todos, à exceção de Pompeu, encaminharam os filhos para centros mais avançados em busca de estudos, formando-os dentro das possibilidades de cada um. Joaquim Azevedo, morando em Taipas, era o entendido de remédio e dizem que até de benzeção e reza forte; Totó, os filhos puxaram pro Duro e depois para Goiânia, onde veio a falecer; Dô Azevedo foi para Arraias, onde tocava farmácia e morreu descansando das cachaçadas de Tatá, o filho que vivia em pés-de-briga no sertão; Pompeu, que se chamava era Francisco (Pompeu era apelido), era o lavrador da família, vivia da roça e do gadinho que lhe coube por sorte em umas vaqueirices; e Biluca, o velho amigo Biluquinha, foi um eterno delegado de polícia de Conceição do Tocantins.

Lá no ano de 78, tarde modorrenta, um grupo fazia chacota no armazém de Custódio Cardoso, lá no Duro. Daí a pouco, chega Totó: porte esquelético, rosto comprido e cara de doente por causa dos cabelos agrisalhados e a barba por fazer.

No balcão, sentado de pernas cruzadas, pitando um cigarro de palha, um homem de chapéu de couro e alpercatas salga-bunda assunta o movimento, quando Totó, num gesto largo dos braços magros, saúda-o:

– Como vai o senhor?

O homem respondeu mecanicamente:

– Bem…

E Totó ficou ali, encostado no balcão, espiando a conversa dos outros, quando o homem, dando uma risadinha miúda, pegou-o pelo ombro, virando-o de frente:

– Uai, Totó, tá me conhecendo, não?

Totó semicerrou os olhos, espiou bem e titubeou:

– Não… mas já vi o senhor nalgum lugar…

– Ce tá é bestando, Totó!

Totó ficou indeciso diante da firmeza do homem:

– Tá broco, Totó?  Parece que tá é caducando!  Sou Pompeu, seu irmão!

– Será?… – depois de conferir, teve certeza – De vera! Bem qu’eu tava desconfiando!…

Biluca era ump político camaleônico: uma vez apoiava o PSD, outras a UDN, sempre cercado de excelente roda de amigos. Baixinho, conversa boa e a matreirice de todo político escolado na vida, Biluca não se apertava no desempenho da função de delegado, apesar de não ter um só policial a seu serviço. Mas a pacatez do lugar ajudava. Que me lembre, só houve um homicídio no meu tempo, quando Felisbino de Tio Dirico foi assassinado.

Mas um dia, Biluquinha viu-se apertado: uma ordem judicial cá de cima determinava que ele prendesse uma certa pessoa. Não sei se o aperto era por força de alguma amizade com o camarada ou se devido à valentia deste.  O certo é que Biluca não queria, de jeito maneira, melindrar o sujeito: mas também não era de faltar ao dever, principalmente porque, sendo raríssimas as prisões, ficava feio roer a corda justamente na única oportunidade que aparecera.

Engenhoso, imbuiu-se de uma boa doce de maquiavelismo e decidiu que ia resolver o caso politicamente, granjeando a simpatia do tal moço:

– Fulano, vamos dar uma chegadinha ali, que tou precisando que você me tire de um aperto.

Passou a mão no ombro do sujeito, e desceram a rua no rumo da cadeia, batendo papo, contando casos e rindo, até que a chave rangeu na fechadura e entraram ambos. Botando a mão em pala sobre os olhos, Biluca falou que precisava tirar uma goteira, mas não alcançava. O camarada, sentindo um precioso achado naquela súbita precisão do delegado, logo arranjou uma escada e subiu para atender prontamente.  Fazer favor ao delegado poderia significar um favor de lá pra cá.  Muito justo!

Quando o homem estava lá em cima entretido com a tiração da goteira, Biluca temperou a garganta e disse, fechando a porta e girando a chave:

– Cê me desculpe, meu amigo, mas cê tá preso!

Sem querer melindrar os outros, Dô Azevedo era o mais coerente na política. Dono de um rebanho de fiéis eleitores, era sempre assediado pelos grandes aqui do alto, desde a época em que foi líder da UDN em Conceição do Norte. Nas eleições de 1979, Dô Azevedo era vice-presidente diretório do PDS em Arraias, quando chegou o Tonico Almeida propondo-lhe deixar o apoio a Resende Monteiro para federal e coronel Pereira para estadual. O advogado, por sinal casado com uma sobrinha de Dô, quis comprar-lhe o apoio por 30 mil cruzeiros (hoje, pouco mais de 15 mil reais), tentando desviá-lo de seu compromisso para votar em Jamel Cecílio para federal e Liberato de Almeida para estadual.

Dô coçou o queixo, fuzilou Tonico com um olhar crítico e, para não ser mal-educado, respondeu:

– Meus cabelos já estão grisalhos e não tenho natureza para esse tipo de negócio.

Tonico e Liberato Almeida viraram os calcanhares, retornando a Taguatinga, onde moravam, sem levarem no embornal os votos de Dô, que nunca “virou a casaca”, como é a regra de hoje.

 

(Liberato Póvoa, desembargador aposentado do TJ-TO, membro-fundador da Academia Tocantinense de Letras e da Academia Dianopolina de Letras, escritor, jurista, historiador e advogado, [email protected])

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