Falar e não fazer
Redação DM
Publicado em 31 de janeiro de 2016 às 22:34 | Atualizado há 10 anos
José Alcides Lucena tinha vasto conhecimento cristão, mas se descuidava muito da caridade, pelo fato de ser dono de conhecida sovinice.
Nas sessões que dirigia no Centro Tia Amélia, falava com fluência e convicção. Apreciava abordar o tema relativo ao amor e a caridade, supondo que simplesmente estar ali, explanando a encarnados e desencarnados, era já uma grande obra caritativa, quando devia interpretar a ocasião como mais um provimento de responsabilidade a cumprir.
Certa noite falara muito sobre o Amor.
Terminada a preleção, uma senhora idosa, que servia na casa como médium vidente, chamou-o à parte e disse-lhe:
— Irmão Lucena, enquanto você falava — e por sinal muito bem — sobre o Amor e a Caridade, aparecia no ar, na mesa, em todos os lugares, escrita com letras de toda forma e tamanho, uma única frase…
— Qual, minha irmã? Indagou José Alcides, visivelmente interessado.
— Em toda forma e tamanho a frase: “… Falar e não fazer”, “falar e não fazer”, “falar”…
Ele se afastou daquele médium e, preocupado, coçando a nuca um tanto calva, procurou outro sensitivo, o de sua especial confiança:
— Irmã Adélia, pergunte ao nosso “guia” o que pretendiam dizer com aquela frase…
Ao que Dona Adélia, já incorporada pelo “Guia espiritual” responsável pelos trabalhos, respondeu-lhe:
— Preocupa não, fio: são os irmãozinhos inferiores querendo perturbar ocê… Liga não, viu?
No entanto, o Instrutor Espiritual, através de Dona Amélia, arrematou:
— Mas não esqueça filho, que você não é cigarra…
— Como assim? Cigarra?
— Sim, aquela da fábula: passa o verão cantando e, quando chega o inverno, o frio, o vento, a seca, terá que depender da formiguinha que muito trabalhou e, por isso, tinha provisão no celeiro.
E concluiu:
— “Falar e não fazer é mesmo que não reservar méritos para os momentos de escassez que podem chegar. Por isso é meritório se prevenir… falando e servindo”.
Falar por falar todos falam. Os pregadores que muito falam têm que mostrar que acreditam no que dizem, porque o que é verdadeiro deve ser vivido, exemplificado para dar testemunho de que é tão real quanto válido.
O vento sibila, mas oferece vida e bem estar;
Os pássaros trinam e, no seu canto, nos encantam;
Os cães ladram e, assim, nos advertem;
O homem que fala e não dá bom exemplo, o que faz de especial?
Falam muito de Deus e suas obras, mas se não são úteis, não valem mais do que uma cigarra que apenas canta nada ensina, nem produz.
Seja o melhor da criação divina. Para isto, o homem foi a melhor das criações de quem não fala, mas não para de criar, ajudar, amar e servir.
É isto.
(Iron Junqueira, escritor)