Fazer o que é certo podendo usar o anel de giges
Redação DM
Publicado em 16 de abril de 2016 às 02:17 | Atualizado há 10 anosVivemos um momento especial em nosso país, a sociedade julga as ações dos políticos e muitas vezes as condenam por achar que estão erradas. Entretanto, se agirmos corretamente, conforme as regras de conduta estabelecidas, por medo de sanções legais, não será por virtude, pois, poderíamos cometer os mesmos erros se não estivéssemos ao alcance de punições. Tal qual no mito de Giges, onde um homem considerado bom e justo, ao adquirir os poderes de um anel que lhe permitia fazer o que quisesse sem ser descoberto, passou a utilizá-lo para fazer tudo aquilo que tinha a consciência de não estar certo, porque sabia que não seria descoberto. Por essa razão é possível afirmar: “Fazer o que é certo, de acordo com nossa consciência, podendo usar o anel de Giges, é questão de princípios.” Somente desta forma a ética afloraria como fundamento das justificativas para nossas ações. A ideia do bem, a busca da felicidade ou do bem-estar, a razão, por exemplo, são alguns conceitos capazes de fornecer critérios para ordenar a conduta humana, sendo assim um pressuposto fundamental de toda ética, contudo, as ações humanas carecem de regras que as norteiam.
Ainda bem que temos normas limitadoras de nossas ações, caso contrário, o ser humano ficaria entregue aos seus próprios instintos naturais, e provavelmente a tendência ao egoísmo, à desmedida e à destruição se afirmariam como os critérios da ação. Poderíamos encontrar algumas disposições naturais para a moralidade, mas isso aconteceria de modo difuso se não houvesse um princípio seguro para determinar suficientemente a vontade. Por isso existe o esforço em aproximar a natureza humana da característica fundamental que é a racionalidade, o que significa controlar e harmonizar tais instintos. Os impulsos naturais, as paixões e os sentimentos tendem ao excesso ou à falta e, por isso, a razão vem impor a justa medida. Vinculando a ética às ideias da felicidade e do soberano bem, é possível alcançar o bem viver ao alcance de todo homem racional, a moral moderna, como ciência da conduta que nasce da cisão entre o que se “é” e o que se “deve ser”, encontrando nas noções de dever, obrigação e obediência sua característica principal. Cultivar a si mesmo como caminho para alcançar a “excelência moral” é substituído pela obediência às leis da razão à custa de nossa natureza sensível. Nossas capacidades para o “agir moral”, nos leva a supor que o exercício da virtude, enquanto o comportamento adequado à visibilidade seria mais conveniente para o “aparentar-ser” na ética do que para o “dever-ser” nela. Apesar das capacidades e das disposições para a bondade, isso não ocorre necessariamente, pois, sem um controle externo e visível das ações, permanece incerta a realização espontânea das determinações morais. Esta é a razão pela qual as sociedades precisam se organizar a partir de um conjunto de leis que consiste na positivação de valores para os quais até temos inclinações, mas que não são suficientes para determinar sua plena execução. A frágil propensão humana à virtude é de tal maneira que não pode dispensar leis, raciocínios e exemplos. Sua efetiva realização depende de recursos que tornem a ação visível, pois na invisibilidade a vontade tende a renunciar aos princípios do bem agir. O desejo de transparência nos processos políticos de uma sociedade, por exemplo, repousa na convicção de que, sem a devida visibilidade as ações podem se assemelhar às de Giges. Desse modo, a virtude poderia não passar de uma simples convenção que, se não adotada como comportamento público, poderia causar reprovação da parte dos outros. De fato, ser virtuoso vai além da aparência do agir virtuosamente.
Observando a perspectiva dos fundamentos naturais para a ética, também poderíamos ser conduzidos a conceber a virtude como meio de sobrevivência mais do que como exercício do cultivo de si. Desse modo, a dissimulação de determinados valores significaria a garantia dos interesses que convergem para a preservação do próprio ser. Não agimos com retidão, por exemplo, quando dirigimos desenvolvendo velocidade superior a permitida para o local e só reduzimos quando percebemos a eminência de sermos captados por um radar ou um outro agente de fiscalização, ou quando agimos em outra situação qualquer no intuito de levar vantagem, pior ainda quando pensamos apenas no que pode ser favorável para nós, sem levar em conta a situação do próximo. Considerando a ética apenas com um acordo ou contrato, ela seria simplesmente uma convenção social com o fim de manter uma ordem na qual a possibilidade da morte violenta poderia estar afastada. Se não possuímos de pronto uma natureza inclinada para a vida ética, é possível pensar o ser humano como um ser aberto a uma nova natureza que o predisponha para o bem de modo genuíno, e não apenas por força das convenções. Se a invisibilidade, muitas vezes, desfaz a aparência do ser humano virtuoso, em outras ocasiões ela prova o contrário, a saber, que mesmo longe do controle da lei externa, quando se poderia abrir uma exceção para si mesmo, muitas pessoas seguem princípios morais e justos, o que demonstra que estes já se encontram devidamente internalizados como uma nova natureza e despertaram uma nova consciência. Independentemente de onde possamos situar o fundamento da moralidade, permanece o fato de que a ação humana precisa ser pautada por modelos que forneçam princípios gerais para a conduta. O conhecimento somente se torna virtude através da ação, quando aquilo que conhecemos como bom é efetivamente posto em prática, tornando as ações coerentes com tal consciência.
(Natal Alves França Pereira, servidor público, graduado em Ciências Contábeis, filiado à Associação Goiana de Imprensa)