Brasil

Feliz Ano-Novo

Redação DM

Publicado em 2 de janeiro de 2016 às 20:54 | Atualizado há 10 anos

Feliz Ano-Novo a quem, neste ano que finda, se alimentou de amarguras, fartou-se de desavenças e se embriagou do fel da descompaixão. E aos que são reféns da inadimplência de afetos e semeiam joios nos jardins da desafeição.

Feliz Ano-Novo aos viciados em utopias, teimosos peregrinos das vias tortuosas da desesperança. E às bordadeiras de enigmas, aos decifradores de esfinges e aos arautos do acaso, para que encontrem a senda das revelações mistéricas.

Feliz Ano-Novo aos que buscam no réveillon a esbórnia da alma e mendigam as pequeninas moedas dos prazeres furtivos. E também aos que não caem em ciladas sedutoras nem arrastam os pés da soleira intransponível da ética.

Feliz Ano-Novo aos navegantes de sonhos profundos, pescadores de pérolas silenciosas e artesãos de corações compassivos. E aos que peregrinam pela Via Láctea e saem pela noite convencidos de que acendem estrelas e cavam buracos negros.

Feliz Ano-Novo a quem aprende a linguagem dos pássaros e, todas as manhãs, entoa o hino que desperta o sol. E aos que trazem em mãos o longo rosário das infinitudes e se enfileiram devotos na romaria dos que evocam deuses exilados da ortodoxia da fé.

Feliz Ano-Novo a quem se desdiz nos pequenos gestos do cotidiano, alça voo inflado pelo próprio ego e jamais se curva para ver seus pés trafegarem sobre tantas dores. E também a quem costura cicatrizes do afeto, limpa o pó dos ressentimentos acumulados e se abraça aos desafios como borboleta ao deixar o casulo.

Feliz Ano-Novo a quem formiga confidências nas trilhas da vida e indica aos semelhantes os doces caminhos da afabilidade. E a todos que, em plena escuridão, deitam olhos na direção do horizonte guiados pela bússola da despretensão.

Feliz Ano-Novo àqueles que, todas as manhãs, varrem da alma as ambições desmedidas e entoam hinos de gratidão pelos pequenos milagres que tecem a beleza da existência. E a todos que ainda estão por descobrir que integram o corpo de baile regido por uma sinfonia da qual, por enquanto, nossos ouvidos captam apenas tímidos acordes.

Feliz Ano-Novo aos que bradam contra a desfaçatez alheia e, ao se queixar das mazelas do mundo, acreditam que armas têm o poder de eliminar guerras. E a quem cultua flores sobre tumbas, extrai água do solo árido e colhe frutas em terrenos pantanosos.

Feliz Ano-Novo aos que já se demitiram da crença no humano e se refugiam em Deus como quem, do alto do prédio em chamas, estende as mãos à corda salvadora do helicóptero dos bombeiros. E a todos que transfiguram incêndios em harmoniosas luminárias na acidentada via dos invernos que nos resfriam.

Feliz Ano-Novo a todos que nunca se deram conta de que nossas células, moléculas e átomos são feitas de partículas elementares movidas por um único impulso: o da agregação em complexidade crescente. E a quem faz a travessia levado por Cronos e guiado por Deus, deixando no ano velho as pesadas bagagens que nos curvam os ombros e dificultam nossos passos rumo ao futuro.

Feliz Ano-Novo aos que subvertem em suas relações amorosas os preconceitos sociais e cultivam no íntimo a fé de que Deus não tem concorrente. E a quem não se mira no espelho da vaidade e tem olhos para aqueles que são excluídos pela cegueira da indiferença.

Feliz Ano-Novo aos que bordam girassóis na acolhência de seus afagos e enchem de balões coloridos seus sorrisos perdulários. E a quem guarda no peito lembranças mofadas de tempos tão longínquos que corre o risco de jamais se dar conta de que ingressou em pleno ano novo.

Frei Betto, escritor, autor de “Oito vias para ser feliz” (Planeta), entre outros livros)

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