Brasil

“Fica” cheirando a mofo

Redação DM

Publicado em 24 de agosto de 2016 às 02:49 | Atualizado há 10 anos

Mais um. São 18 anos passados desde sua 1a edição. Cansou. O Festival Internacional de Cinema e Meio Ambiente (Fica) começou como algo sem igual no Brasil. Fruto de um tripé pioneiro alinhando a expressão cinematográfica à questão ambiental e à ação governamental.

O que começou desbravando passou a seguir por estradas conhecidas. E desde então as tetas lhe têm sido fartas. As mesmas mentalidades por edições sucessivas permanecem no seu comando. Elas têm como principal aliado uma política que segue capengando, e assim a querem: inibida e sem mais as ousadias de sua gênese. Enfim, terminou mais uma edição de um festival que não sabe se renovar.

O Fica no correr dos anos perdeu em interesse nacional e internacionalmente. Seu número de inscrições já chegou a quase o triplo do que foi constatado nesta sua última edição. O orçamento, idem. De público participante, então, nem se fala. O único que permanece é o público dos shows musicais.

O que antes atraia visitantes locais de todas as esferas e muita gente de fora, cabeças pensantes e questionantes, agora vai se tornando um evento cópia de si mesmo. Paralelamente, seus realizadores governamentais estão à beira de serem transformados em seguidores de uma seita, tal o círculo fechado que os envolve.

Quem odeia tanto o cinema assim? Ou seria ódio à questão ambiental e aos incômodos que ela suscita? Me parece que os culpados de o Fica ficar assim não são os realizadores cinematográficos e nem o público. Estes estão sempre abertos aos chamados e querendo mais.

Neste tripé, a parte governamental é que tem mancado, comprometendo todo o corpo. O gestor de plantão, a seu bem entender, faz o festival encolher ou espichar, como se não lhe permitisse um perfil. E não há. Para eles o Fica assim fica melhor, já que não são capazes de lhe oferecer um rumo compatibilizador entre o local e o global.

O medo é o de se despreenderem das rédeas. Perguntas ficam sem respostas. Por que não se criou até hoje uma estrutura independente? Se de fato se busca o verdadeiro fomento, que é sinônimo de empoderamento, passou da hora. Por isso o mofo.

Ao invés de uma estrutura sadia e transparente, todo ano, depois do ritual cumprido por edital de chamamento, a sua realização é “dada” de presente ao grupo da mesma vez.

E mais uma vez temos a Oscip vencedora que não precisa fazer nada. Tudo está pronto e enlatado. Só lhe resta ser o agente repassador, claro, com o estabelecimento de um pedágio que fica detentor do percentual pagante.

No caminho de vacas gordas em terras magras se optou pelo comodismo. Em qualquer lugar do mundo do bom senso a Oscip vencedora dos editais de produção de um festival anual teria que correr atrás, fazer captação para engrossar o orçamento, fazer parcerias para engrandecer o evento, estabelecer diretrizes e metas que não apenas as da secretaria governamental, mas as suas próprias, para que lhe houvesse um mínimo de respeito funcional e sentido realizador.

Pudera o mofo imperar. Não há demonstração e nem qualquer sinal de interesse por uma boa gestão calcada na inspiração e na renovação, mas apenas pelo cumprimento do calendário e, claro, pela contemplação dos interesses monetários que sempre foram alheios ao festival.

Do jeito que está o Fica, abatido, pisam para não o deixar morrer, mas dominar e sugar-lhe o sangue no limite. Permanecendo vivo, ele é uma galinha que novamente no ano vindouro vai botar seus ovos.

Mofo com o mofo se paga. A maior prova é que, até hoje, beirando duas décadas de realização, a cota de tela goiana ainda é uma necessidade. Não caímos para o campo aberto do mérito global. Temos que protejer os “coitados” dos realizadores locais, que sem uma prática profissionalizante permanecem sendo o lado mais fraco dessa história.

Não é falta de vontade e talento. Tal estado de coisas é unicamente devido à falta de uma política eficiente para o desenvolvimento do setor. O que se conseguiria com investimentos alocados adequadamente. Prêmios vão e vem. O que dá frutos é a troca de saberes e a repetição em aspiral ampliando exponencialmente o círculo inicial.

A Associação Brasileira de Documentaristas (ABD-GO) tem demonstrado ao longo do tempo ser mais eficiente e sensível à renovação que o saco de gatos da burocracia estadual. Enquanto o Fica foi ficando pelo caminho, a mostra da ABD cresceu e neste ano foi graças a ela que uma única ação refrescante foi implementada, o projeto Se Liga no Fica, de ação inter-escolar. Isso fez com que o velho bafo fosse melhor percebido.

Mais quantas palavras serão necessárias para fazer deste evento anual calendarizado, portanto com orçamento garantido, uma mais valia cultural? O Fica, que outrora trouxe doce embalo para a cultura goiana de forma geral, e que agora mostra esse seu ranço que o faz um evento datado, acontece anualmente sem qualquer expectativa de que algo genial possa lhe ocorrer.

Inevitavelmente, a falta de rumo reflete também em seu conteúdo. Com suas raras exceções, os filmes selecionados e premiados parecem sempre os mesmos. O premiado deste 18º ano não distoa. O grande prêmio do Fica foi para uma produção sobre Chernobyl, quanta novidade?

Enquanto a degradação ambiental se renova nos conflitos com os imediatismos de interesses excusos que saem sempre levando a melhor, enquanto mil flancos novos de ataque ao meio ambiente vão se processando a galope vertiginoso diante de nossa apatia, eis que o foco do portentoso mofo recai sobre uma tragédia radioativa tão antiga quanto a do césio (aquela é de 1986, esta de 13/09/1987). O césio, aliás, é outro tema recorrente, tipicamente ficaniano, que já rendeu a seus geniais realizadores vários e vários prêmios em diferentes edições. Quem sabe vem aí mais um?

Tudo muito previsível. E batido. As exceções têm que se esforçar para se desprender.  O mofo não larga, entranha em tudo que toca. E então, Fica assim. E até o próximo festival, com tudo do mesmo, de novo.

 

(Px Silveira, Instituto ArteCidadania)

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