Brasil

Filosofando à brasileira (I)

Redação DM

Publicado em 25 de janeiro de 2016 às 23:06 | Atualizado há 10 anos

Este é o primeiro de uma série de 12 pequenos artigos que pretendemos publicar neste espaço. Virão mês a mês, intercalados com publicações sobre outros temas. Neles será abordado um assunto pouco conhecido e estudado em nossos espaços acadêmicos, qual seja: a filosofia desenvolvida no Brasil ao longo dos últimos quinhentos anos, seus desafios e suas perspectivas. Em linhas gerais, trata-se de um debate sobre a disputa entre autonomia e autenticidade.

Para esta introdução tomamos como ponto de partida a intuição elaborada por Jean-Luc Marion em seu texto A filosofia cristã: hermenêutica ou heurística?, transpondo-a para o âmbito da história do pensamento filosófico desenvolvido em terras tupiniquins. Fugindo da discussão sobre a autenticidade ou inautenticidade de uma filosofia brasileira – o que nos conduziria, a exemplo do que fez Heidegger, a questionar o que a própria filosofia é – teremos em vista toda a produção teórico-reflexiva desenvolvida no Brasil com a pretensão de se inscrever na alcunha “filosofia”. Em se tratando desta produção, que, em linhas gerais, nos remete de Silvestre Pinheiro, vindo ao Brasil com a família real, passando por Antônio Vieira, o paiaçú, Pereira Barreto e seus correligionários no ecletismo de Recife, pelo existencialista Vicente Ferreira da Silva e os demais pensadores brasileiros no século XIX, até o que em nossos dias é objeto de discussão filosófica no ambiente da academia, devemos falar em termos de uma continuidade ou de uma ruptura? Há no Brasil a tentativa de constituição de uma reflexão não apenas autêntica, mas autônoma, que dê cabo dos problemas suscitados pela época atual?

Segundo Mondolfo: “A filosofia desenvolve-se sempre com caráter de continuidade, porque ainda quando um sistema anterior é demolido pela crítica de outros filósofos sucessivos, não desaparece a consciência dos problemas que aquele havia apresentado e tratado de solucionar. Pelo contrário, a destruição de um sistema anterior depende em geral do aprofundamento da consciência dos problemas, ao demonstrar-se que aquele sistema não soluciona de maneira satisfatória os problemas que coloca e descuida de outros essenciais; assim, a continuidade histórica pode ser especialmente reconhecida no desenvolvimento progressivo dos problemas e no aprofundamento de sua consciência.”

Ao que parece, as filosofias nacionais se distinguiram umas das outras pela preferência que atribuíram a determinados problemas. Assim, na medida em que aprofundamos o nosso conhecimento da meditação brasileira, mais clara se torna a forma pela qual a construção desse caminho adquiriu aqui uma validade universal. Nesse sentido, devemos tomar como estéreis as polêmicas que ocuparam os primeiros historiadores da filosofia no Brasil, muito preocupados com a originalidade e vendo no que aqui era realizado apenas o processo de importação e cópia de ideias (Ex.: a proposta de resolução do dilema entre sujeito e objeto, propondo conciliação entre ambos, pela filosofia de Silvestre Pinheiro).

Entretanto, lembra Ubiratan Macedo, não podemos desprezar o dado de que vivemos, todos nós, o clima da cultura ocidental. Essa cultura é nossa morada e a validade de uma ideia sempre dependerá de sua capacidade de resolver o problema que se tenha pela frente, perdendo o interesse de quem o tenha apresentado por primeiro.

Nesse sentido, apesar de a história da filosofia no Brasil ter sido, em geral, uma história da penetração do pensamento alheio nos recessos de nossa vida especulativa; a narrativa do grau de compreensão da nossa capacidade de assimilação nas diferentes épocas e do nosso quociente de sensibilidade espiritual, parece haver um ponto de equilíbrio entre o que pretendemos pelo aspecto hermenêutico – que não significa, de modo algum, mera reprodução – e a capacidade de criação. Em resumidas contas, isso significa que a filosofia no Brasil não se restringiu a unicamente repetir o pensamento europeu em nosso país. Até certo ponto, notadamente, tal influência foi exercida, já que vivemos – e conosco toda a América –, como observou Herbert Schneider, na “franja da cultura europeia”. O ponto de distinção, contudo, sempre esteve no rumo dado a estes entrelaçamentos. Se entre a imitação do “modelo” e a compreensão do “exemplo” é verdade que optamos pelo mais cômodo, através da deformação do modelo – que é inseparável de toda imitação – encontramos aí a nossa “originalidade” – não naquele seu sentido negativo, apoiado na hipótese de que a filosofia acha-se pronta e conclusa, cabendo-nos apenas assimilá-la – mas no que podemos chamar de o aspecto positivo da originalidade: este do movimento de sempre pensar o não pensado do já pensado. Isso porque é fora de dúvida que o pensamento sofre as influências da vida; sendo impossível à planta negar o húmus que lhe dá vida – sob pena de perecer – também é impossível a qualquer pensamento fugir à influência do nacional (ver VITA, Luís, A filosofia no Brasil, p. 1).

Cumprindo tal itinerário, a pesquisa sistemática do caminho trilhado pela meditação brasileira sugere que o tema catalisador, apto a facultar seu melhor entendimento, consiste no problema do homem (desenvolvido, sobretudo, no debate sobre as questões política e científica). No curso do desenvolvimento dessa diretriz, chega a estratificar-se uma determinada acepção de pessoa humana, logo incorporada ao patrimônio cultural comum. Mais das vezes, de semelhante desfecho resulta o aparecimento de uma filosofia política nem sempre disposta a explicitar plenamente seus compromissos com a acepção de pessoa humana presente em seu momento histórico. Finalmente, o quadro se complica pelo vigor que chega a assumir, em certas circunstâncias, a questão da ciência e de suas relações com a filosofia. Assim, pode-se afirmar que o tema da pessoa humana, a busca de uma filosofia política e as relações entre filosofia e ciência são as questões essenciais com que se defrontou o pensamento filosófico brasileiro (ver PAIM, Antônio, História das Ideias filosóficas no Brasil, 1984, p. 18 – 3ª ed.).

Em linhas gerais, defenderemos um posicionamento segundo o qual não há dilema entre criação e interpretação, de tal sorte que, em se tratando do Brasil, a hermenêutica parece ter sido a via encontrada para se chegar à heurística.

 

(José Reinaldo F. Martins Filho, mestre em Filosofia (2014) e mestrando em Música, ambos pela UFG, doutorando em Ciências da Religião pela PUC-Goiás)

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