Frio do inverno muda hábitos e rotas de animais pelo Brasil
Fernando Henrique - Estágio DM
Publicado em 11 de agosto de 2026 às 09:52 | Atualizado há 1 hora
Bem-te-vi-rajado migra para regiões mais quentes durante o período de temperaturas mais baixas no Brasil | Foto: Wilmer Quiceno
Todos os anos, no outono, quando as temperaturas começam a cair, um passarinho começa também uma longa jornada. Medindo cerca de 20 centímetros de comprimento, o bem-te-vi-rajado (Myiodynastes maculatus) foge do frio das regiões Sul e Sudeste do país e voa milhares de quilômetros em direção à floresta amazônica, aproveitando o calor tropical.
A migração do bem-te-vi é uma das mudanças de hábitos que o inverno provoca nos animais brasileiros. Mesmo sem as paisagens cobertas de neve típicas do clima temperado, a estação derruba termômetros em boa parte do país, além de alterar padrões de chuva.
“Em regiões tropicais e subtropicais, as alterações ocorrem no movimento e na dieta. Os animais modificam o consumo de alimentos dependendo da disponibilidade sazonal”, explica o pesquisador Roberto Fusco, membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza.
Migração das aves
No caso das aves, apenas cerca de 10% das espécies brasileiras migram pouco na comparação com outras regiões do planeta, segundo o ornitólogo Marco Aurélio Pizo, professor na Unesp de Rio Claro, em São Paulo. Algumas vêm do sul do continente americano em direção ao Sudeste do Brasil, mas a maior parte tem uma movimentação semelhante à do bem-te-vi-rajado.
“Várias espécies saem do Sudeste em direção ao Norte e só retornam no final de agosto”, conta ele. “Entre elas, podemos citar também o suiriri, o gavião-sovi e a tesourinha. No caso da tesourinha, ela vai para o norte da América do Sul, passando o inverno em Roraima e na Venezuela, e retorna a partir de agosto, ocupando o Sudeste e o Sul do Brasil até chegar ao Uruguai e à Argentina.”
O frio também faz com que parte da fauna mude de comportamento. No caso das aves, não cantam com tanta frequência, influenciando a época reprodutiva, que em geral não acontece no inverno.
Mamíferos mudam horários de atividade
Já os mamíferos tendem a concentrar suas atividades em horários de temperaturas mais altas. Na mata atlântica, por exemplo, animais de hábito diurno, como a cutia (Dasyprocta azarae), a irara (Eira barbara) e o gato-mourisco (Herpailurus yagouaroundi), aproveitam as tardes para buscar alimento. Aqueles com hábitos noturnos, como a jaguatirica (Leopardus pardalis), passam a caçar no início da noite.
Além disso, diferentes padrões de precipitação influenciam o comportamento animal. Em biomas como o pantanal e a amazônia, as estações se dividem entre seca e chuva, alterando também a disponibilidade de alimentos.
“Um estudo recente sobre a onça-pintada na amazônia mostrou que, na época de cheia, o bicho fica quatro meses nas copas das árvores alimentando-se de animais arborícolas e peixes. Na estação seca, volta para o solo”, conta Fusco, que coordena o Programa Grandes Mamíferos da Serra do Mar.
“Já no pantanal, na estação seca os animais se concentram em locais onde ainda há água; com as presas concentradas ali, a onça-pintada vai diretamente nesses locais para se alimentar”, afirma o pesquisador, acrescentando que elas também aumentam sua área de caça.

Escassez de alimentos impulsiona migrações
Mas esse banquete disponível para as onças pantaneiras é muito diferente do quadro para outras espécies. A maior escassez de alimentos no inverno, seja pelo frio ou pela seca, é um dos principais motores das migrações, que não acontecem somente em grandes distâncias. No caso da migração altitudinal, o deslocamento acontece na vertical: de áreas mais altas para as mais baixas, e vice-versa.
“A anta, por exemplo, tem uma sazonalidade clara de distribuição ao longo do ano: em momentos mais quentes ela está na região alta e montanhosa, e em momentos mais frios ela desce para se alimentar numa região de altitude menor”, diz Marion Silva, gerente de conservação da biodiversidade da Fundação Grupo Boticário. O mesmo acontece com algumas aves, como beija-flores.
Falta de pesquisas dificulta conservação
Os especialistas apontam, no entanto, que para conhecer a fundo os gatilhos de alterações de comportamento e a trajetória de migrações sazonais da fauna brasileira, é preciso investimento em pesquisa científica.
“São poucas as espécies que foram de fato estudadas a fundo sobre as motivações para migração. Muitas delas a gente não conhece a rota migratória porque isso demanda um trabalho bastante intenso”, avalia Pizo.
Essa lacuna de conhecimento pode ter impacto na preservação das espécies, já que a definição de áreas protegidas e corredores ecológicos (regiões de vegetação nativa que conectam fragmentos de florestas e outros ecossistemas), por exemplo, depende de informações sobre a área usada por diferentes espécies.
Mudanças climáticas alteram padrões
Soma-se a isso a crise do clima provocada pelas emissões de gases-estufa, que altera padrões históricos de temperatura e a intensidade de fenômenos meteorológicos. “Estudos feitos em outros países já mostram que as aves têm saído para migração e chegado aos seus locais de destino cada vez mais cedo ao longo dos anos”, exemplifica o ornitólogo.
“Quanto mais natureza conservada nós temos, mais elástico será esse ambiente para as espécies se adaptarem às mudanças climáticas. E quanto menos ambientes naturais, mais conflitos, extinções e escassez de recursos”, resume Silva. (Jéssica Maes/FOLHAPRESS)