Futebol, alienação e política
Redação DM
Publicado em 13 de janeiro de 2016 às 00:19 | Atualizado há 10 anosIsso mesmo… Temos que ter um bom time! Um que seja competitivo, bem articulado e que traga alegrias para a brava gente de Itumbiara. Dessa vez, acho que vai dar certo… Com boa defesa, um meio de campo ágil, ligeiro e bem situado os adversários não terão chances.
Agora… Sinceramente, é preciso um bom ataque! Talvez dois ou três bons atacantes e que saibam fazer bons lançamentos e boas conclusões. Com essa combinação o “gigante da fronteira” vai levar todas, afinal, é isso o que nos “importa”.
Olha… Na boa… Gosto muito de futebol! Sou corintiano assumido e fiquei muito feliz com o campeonato conquistado pelo “Timão” neste atribulado 2015 mas, de verdade, é preciso identificar e diferenciar a paixão desportiva da pretensa vinculação político-eleitoral e que uns e outros insistem em fazer; é necessário separar o amor pela equipe “do coração” do estratagema político tipicamente populista que vincula, por meio de bem fiado mecanismo psicológico, a paixão pelo futebol com esta ou aquela figura política.
Novidade nenhuma em mais esta matreirice política, afinal, a história é cheia de exemplos a respeito. É clássico o episódio do apossamento do símbolo do tricampeonato mundial de 1970 onde o ditador Garrastazu Médici, “o açougueiro do regime”, tentando levar a falsa ideia do “Brasil Potência” se congratulava entre risos e encantos com a seleção canarinho no exato momento e instante em que a tortura atingia seus níveis mais elevados e sanguinários. O objetivo do teatro? Popularidade! Isso apenas!
A Copa de 1978, na Argentina teve do mesmo!
Naquele momento, o país portenho era governado por uma ditadura tão severamente cruel que consumiu mais de vinte mil pessoas. A quartelada que governava a Argentina fez e aconteceu para que sua seleção levasse o torneio e que ainda hoje, a credibilidade dessa disputa é posta em cheque. De novo o foco era por alguma popularidade para os generais.
Detalhe importante sobre a Copa da Argentina é que a seleção francesa tentou boicota-la de todas as formas, sobretudo, em função do assassinato das freiras francesas Alice Domon e Leonie Duquet.
Outro curioso episódio a respeito do futebol como propaganda política se deu com a extinta União Soviética. A sua seleção [em russo: sbornaya] filiada a FIFA em 1946 não veio participar da copa do mundo no Brasil (1950), sobretudo, em função das graves tensões havidas naquele começo de guerra fria com o Ocidente. O selecionado soviético levou algum tempo para voltar a participar de competições internacionais retornado às disputas internacionais somente em 1952 nos jogos olímpicos de Helsinque.
Já no começo desta competição, o selecionado russo levou a pior contra a Iugoslávia perdendo por 3 x 1. As reações por parte do Kremlin foram tremendas e Stalin, como sempre, não deixou por menos. A Iugoslávia, dirigida por Josip Broz Tito, era republica dissidente do socialismo russo posto que não se submetia às determinações de Stalin.
Em Moscou, a imprensa fora proibida de noticiar qualquer coisa sobre a derrota para aquele país “inimigo do socialismo universal”. O treinador da seleção soviética à época, Bóris Konstantin foi demitido e acusado de “incompetência política” e o principal nome da seleção, o jogador Konstantin Beskov (Dínamo) fora punido e suspenso com um ano distante dos gramados e denunciado por “jogo irresponsável e atitude covarde na partida”.
A questão é que poderia citar diversos e diversos outros casos e episódios onde o esporte, sobretudo, o futebol é utilizado como propagando política de regimes e sistemas políticos.
De outro modo a relação da política e dos políticos com o futebol não é e jamais foi inocente e casual. A ideia é, como já dito e citado, o desencadeamento puro e simples de propaganda a favor de uma lógica política dada e vigente.
O que estamos vendo em Itumbiara com a “prioridade” dada ao Itumbiara Esporte Clube é tão somente, mais uma estratégia política do esperto Zé Gomes e de sua respectiva camarilha. Nada que ver com a promoção do desporto na cidade; com a inclusão social das pessoas por meio de praticas esportivas ou; com o fomento do esporte nos meios sociais e populares da cidade.
Isso é política no gramado, na arquibancada, na mídia, no cotidiano posto que o futebol é elemento do cotidiano dos brasileiros. Essa pratica diz respeito aos mecanismos de torpeza ideológica desenvolvido pelo grupo político local dominante e que de outra maneira, opera em diversas frentes a fim de, tão somente, manter-se no poder local.
Agora… Vamos combinar em uma cidade onde a miséria social campeia todos os bairros da cidade; onde a saúde é a pior catástrofe social de todo o sul goiano; a educação é um empreendimento sumamente mal realizado e; a transparência pública por meio da participação social simplesmente não existe, o futebol, sobretudo, este futebol pretensamente profissional sequer deveria ser cogitado.
De longe, nossos dramas locais são outros. Espero que o eleitorado local assim perceba.
(Ângelo Cavalcante – economista, cientista político, doutorando em Geografia Humana (USP) e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), campus Itumbiara)