Brasil

Galileu versus Shakespeare

Redação DM

Publicado em 28 de abril de 2016 às 01:48 | Atualizado há 1 ano

Tem momentos em minha visa que me forçam a fazer certas comparações entre algumas épocas. Por exemplo no referente à criação humana “lato sensu”. Imaginemos as artes humanas antes da impressa de Johann Gutemberg (1398-1468). Tudo, sob o ponto de vista material e técnico, era muito mais penoso e difícil. Vejam nesse quesito da produção de um texto, um livro, como era precário e laborioso.

Ainda dentro dessa mostra de se produzir toda forma de registro, de um artigo, de um relatório, uma obra literária. Já em tempos mais modernos. Como era árduo, lento e custoso o trabalho da escrita antes da informática e da internet. O trabalho das gráficas e editoras exigia muita paciência e dedicação.

No campo das ciências. Tomemos como exemplos as descobertas de um Galileu (1564-1642), com a demonstração do heliocentrismo. De um Johann Kepler (1571-1638), criador do sistema cosmológico idêntico ao heliocêntrico de Galileu.

O que é admirável ao fazer essas comparações não são as tantas descobertas e demonstrações deixadas por esses geniais artistas científicos, mas como eles conseguiram tamanha façanha ante tanta precariedade material e tecnológica. Para quem tem fé, como é o caso desse modesto articulista, esses gênios da humanidade tinham parceria com Deus, tamanha a engenhosidade de cada criação e a contribuição feita à humanidade.

Quando comparamos alguns desses gênios humanos do passado torna-se forçoso fazer um paralelo entre eles. Tomemos os casos de Willian Shakespeare (1564-1616) e de Miguel de Cervantes (1547-1616). Dezessete anos separavam os dois gênios da Literatura mundial em idade, e eles morreram no mesmo ano. Coincidências ou pacto do destino? Com esse por que sonha minha modesta, mas não vã filosofia, parodiando o próprio bardo de todos os tempos.

Não sobrepaira e não restará nenhuma dúvida sobre a capacidade criadora, o estro, a genialidade desses eternos escritores. Todavia quando avaliamos a exigência, naqueles tempos (século XVI), da criação de um físico e um escritor, fica convincente que o feito de um Galileu era muito mais complexo, intrincado e desafiador do que de um Shakespeare. O que parece consensual era a mente igualmente brilhante e divinal do escritor e do cientista. A diferença entre o autor de Dom Quixote e o descobridor do heliocentrismo, por exemplo, foi apenas questão da vocação. Mas, temos que lembrar que o cientista além das hipóteses iniciais e muita intuição  precisava de instrumentos para provar a sua tese.

E assim veio caminhando a humanidade. Poder-se-iam ser citados vários outros casos; e  pontuar diversos exemplos da aptidão e potencial criativo da mente, do intelecto e da inteligência do gênero humano.

João Joaquim 1

Um dos sonhos do homem (gênero) sempre foi compreender a natureza, o cosmo, o universo, os fenômenos naturais, as transformações químicas, as leis da Física  que nos governam.

Uma outra preocupação da humanidade foram as grandes invenções, as tecnologias que facilitassem o transporte, a produção industrial, o trabalho e as comunicações. E por mencionar comunicações, é pertinente repisar esses avanços tecnológicos de nossos tempos! Como em tão pouco tempo, quando se pensa em história, chegou-se a um nível de excelência e qualidade em tecnologias da comunicação. O que se tem hoje de facilidade em transmitir informações era impensável nos idos de 1960 e 1970. Máquina de datilografar era luxo de poucos.

Torno-me à ideia inicial, comparação entre diferentes épocas, a arte, a capacidade de pensar, a aptidão criadora da mente das pessoas.

Nunca, em toda a história humana, atingimos tão alto grau de progresso tecnocientífico e recursos de comunicação como os verificados nos últimos 50 anos. A quantidade de informações que temos sobre qualquer coisa, feitos e fatos vem se tornando incalculável. A grande questão é: o que devo saber sobre o quê? Sem dúvida que o quantitativo é gigantesco em relação ao qualitativo. Resta-nos então a opção de selecionar o que há de relevante, o que seja útil e construtivo para a cultura, para as exigências na vida profissional e cotidiana de cada um.

E então finalizo com uma questão não menos digna de registro. Refiro-me à criatividade, ao engenho criador das gerações de jovens em tempos de tanta tecnologia. Ficam-me a sensação  e a convicção de que as gerações da internet, das mídias digitais, das tão massificadas e públicas redes sociais se tornaram embotadas e bestializadas intelectualmente. Todos (as) estão idiotizados, embriagados com as mídias. Ninguém mais pensa, escreve, raciocina, calcula ou cria. Tudo de informação e cultura tem se tornado descartável, fútil e sem valor.

Conta-se, de forma emblemática da criação da juventude, que um jovem administrador, recém-formado recebeu um pedido, um  relatório de uma empresa interessado em contratá-lo. Para tal ele tinha que escrever, dissertar sobre os seus objetivos ao cargo pretendido. Ele não sabia como fazer a tal redação. Foi que então buscou a ajuda de alguém da área, uma cola, digamos assim. O profissional procurado (sem que o candidato soubesse) era consultor da tal empresa. Não precisa nem dizer se ele foi aprovado ou não na tão renomada empresa.  Que triste. Abril/2016.

 

(João Joaquim de Oliveira, médico cronista. www.drjoaojoaquim.com [email protected]) 

 

Tags

Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia