Ginecologistas apontam que 8 em cada 10 mulheres atendidas são vítimas de violência
Léo Carvalho
Publicado em 10 de março de 2026 às 11:38 | Atualizado há 4 meses
8 a cada 10 ginecologistas dizem ser os primeiros a atender vítimas de violência, aponta pesquisa | Foto: Reprodução
Uma pesquisa nacional da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) indica que, para 8 em cada 10 ginecologistas e obstetras brasileiros, o consultório é o primeiro lugar onde uma mulher vítima de violência encontra um profissional de saúde.
Divulgado nesta terça-feira (10), o levantamento ouviu 290 especialistas entre fevereiro e março de 2026, por meio de questionário estruturado com amostragem por conveniência. O estudo mapeia como esses profissionais lidam com casos de violência na prática clínica.
Os dados mostram que a maioria reconhece o papel da especialidade no enfrentamento da violência contra a mulher, mas aponta obstáculos estruturais, jurídicos e de formação para atuar nesses casos.
Violência psicológica é a mais identificada
Mais da metade dos profissionais ouvidos (57%) afirmou atender casos de violência ao menos ocasionalmente.
Entre os tipos mais relatados, a violência psicológica e emocional aparece com maior frequência, citada por 83% dos médicos. Em seguida estão a violência sexual, mencionada por 50%, e a violência física, apontada por 34%.
O levantamento também avaliou o nível de preparo dos profissionais para lidar com essas situações. Apenas 25% disseram se sentir bem ou muito preparados. Outros 23% afirmaram sentir-se pouco ou nada preparados, enquanto 51% classificaram o preparo como intermediário.
Segundo a pesquisa, o resultado indica uma lacuna na formação dentro da especialidade.
Abordagem ocorre principalmente após sinais
O estudo aponta que a abordagem da violência nos consultórios costuma ocorrer de forma reativa.
Quase metade dos médicos (47%) afirmou tratar do assunto apenas quando há sinais evidentes de violência. Outros 27% disseram abordar o tema somente quando a própria paciente menciona a situação.
Entre os entrevistados, 14% afirmaram incluir perguntas sobre violência como parte da rotina de atendimento.
Falta de rede de apoio e insegurança jurídica
Os principais obstáculos relatados pelos profissionais são estruturais.
Cerca de 60% citaram a ausência de uma rede de encaminhamento para vítimas. Outros 45% apontaram insegurança jurídica relacionada à notificação e ao sigilo profissional.
Para 70% dos participantes da pesquisa, o fortalecimento da rede de encaminhamento é a prioridade mais urgente para melhorar o atendimento às vítimas.
Crescimento dos registros no país
Os resultados da pesquisa dialogam com dados recentes sobre violência no Brasil.
Em 2024, foram registrados 87.545 casos de estupro e estupro de vulnerável, o maior número da série histórica do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. No mesmo ano, 1.492 mulheres foram assassinadas por serem mulheres, também o maior número desde a tipificação do feminicídio, em 2015.
Campanha busca ampliar suporte aos profissionais
O levantamento integra a segunda fase da campanha #EuVejoVocê, lançada pela Febrasgo em 2025. Segundo a entidade, a iniciativa busca avançar da conscientização para o suporte prático aos profissionais, com protocolos, capacitação e orientação jurídica.
De acordo com Lia Cruz Vaz da Costa Damásio, diretora de Defesa e Valorização Profissional da Febrasgo e responsável pela pesquisa, a consulta ginecológica ocorre em um ambiente de privacidade que pode favorecer a identificação de sinais de violência.
Ela afirma que, durante o atendimento, o médico pode observar evidências físicas e também sinais emocionais relacionados a experiências traumáticas.
Damásio ressalta que, embora o médico não exerça função policial ou judicial, existem situações em que a notificação é obrigatória e o profissional deve saber orientar a paciente e reconhecer seu papel social.
Necessidade de protocolos e orientação
A presidente da Febrasgo, Maria Celeste Wender, afirma que a iniciativa busca aumentar a segurança dos profissionais para lidar com situações de violência.
Segundo ela, muitas vezes o médico suspeita que a paciente esteja sendo vítima, mas não sabe como agir diante da informação.
Nas respostas abertas da pesquisa, 172 profissionais indicaram mudanças consideradas necessárias para melhorar esse cenário.
Entre as sugestões mais recorrentes estão a criação de protocolos claros de atendimento, orientação jurídica acessível e maior integração com assistência social e serviços de proteção.
Médicos também apontaram a necessidade de ampliar a informação para as próprias mulheres. Segundo relatos dos profissionais, formas de violência psicológica, patrimonial e sexual, como o estupro marital, ainda não são reconhecidas por parte das vítimas como violência. (GIULIA PERUZZO/Folhapress)