Brasil

Goyaz, o universo literário da velha cidade nos albores do século XX

Redação DM

Publicado em 22 de fevereiro de 2017 às 02:31 | Atualizado há 1 ano

Goyaz, 1901. O Estado do centro do Brasil adentrava no século XX com graves problemas de isolamento dos centros mais adiantados do país, com dificuldades na área de transportes, saúde, educação e segurança, com uma capital perdida entre as cordilheiras, mas com uma vida cultural refinada e nada a dever aos centros mais adiantados; ao criar uma forma peculiar de vivência artística e interpretação sensível da difícil e conturbada realidade de então.

Era a alma goiana que se desnudava ante tanta riqueza no cenário natural das matas, os grandes rios, das serras altaneiras, dos buritizais sussurrantes, dos animais perdidos entre os cerradões, das cachoeiras cantantes e do encanto da vida simples, livre da cobiça desenfreada dos dias de agora.

No campo cultural, Goyaz já havia sido cantada em prosa e verso por meio das produções magistrais de Félix de Bulhões, Bartolomeu Antonio Cordovil, Luiz Maria da Silva Pinto, João Teixeira Álvares, Manoel Lopes de Carvalho Ramos, Roque Alves de Azevedo, Edmundo Xavier de Barros, Higino Rodrigues, Genuíno Corrêa ou mesmo nos estudos históricos de Luiz Antonio da Silva e Souza, Joaquim Antonio Segurado, Raimundo José da Cunha Matos e José Maria Pereira de Alencastre, que venceram as dificuldades dos séculos anteriores.

Em 1901, houve passagem de três Presidentes no Estado de Goiás: era fim do mandato de Dr. Urbano Coelho de Gouveia, em 10 de junho. Nessa data assumiu o coronel Bernardo Antonio de Faria Albernaz até 12 de agosto e, a partir daí, iniciou-se o governo do Dr. José Xavier de Almeida, que perduraria até 14 de julho de 1905. Era a instabilidade política que se verificara até 1909, quando teria início o chamado Caiadismo.

Nesse período, Antonio Ramos Caiado assumia a Secretaria do Interior no governo de Xavier de Almeida, seguindo-se para o governo de Miguel da Rocha Lima, na Secretaria de Finanças. Em 1908, por discordar com a situação política vigente, rompeu com o partido situacionista.

Na oposição, então, encontrou por companheiros Gonzaga Jayme, Leopoldo de Bulhões, Sebastião Fleury Curado e Eugênio Jardim. Com esse último chefiou a célebre Revolução da Quinta ou Revolução Branca, ocorrida em maio de 1909, que derrubou o governo de Rocha Lima. Tem início a fase até 1930 com a sua liderança austera, principalmente a partir de 1912, com a fundação do “Partido Democrata”, mais tarde, a partir de 1927, duramente combatido pelos mudancistas do governo;  por intermédio do Jornal “Voz do Povo”.

O período do que se alcunhou de Sincrético ou Pré-Modernismo foi, portanto, de forte pressão política insuflada pela República Velha; fato que ocorreu em todo o Brasil, na figura sempre austera dos combativos coronéis.

Em 1901, o escritor Henrique Silva, nascido em Bonfim do Goyaz em 1865, publicou o seu segundo livro, Poetas Goianos, em que estudou, sob um enfoque estruturalista, a produção literária goiana anterior, na tentativa em investigar as origens de nosso passado cultural.

Ficou presente, nesse âmbito, a tentativa dos Pré-Modernistas de propiciar ao Brasil uma configuração nacionalista, partindo para análise sistematizada de sua realidade. Era o que já vinha fazendo Euclides da Cunha, Lima Barreto e Monteiro Lobato, e que seria confirmado com Os Sertões, Urupês e Triste fim de Policarpo Quaresma, que apareciam anos mais tarde.

Henrique Silva, seguindo a carreira das armas, foi, sobretudo, um apaixonado por Goiás. Nativista, estudioso de nossas riquezas. Propagandista de Goiás na capital Federal, então Rio de Janeiro, publicou, dirigiu e manteve por 18 anos a importante revista “Informação Goiana”, que era dedicada exclusivamente aos interesses do Estado de Goiás nos anos 1920 e 1930. Aliando a tudo isso, coube a ele a glória de iniciar o nosso Pré-Modernismo na virada do século XX, ao mostrar nova estrutura em relação ao oficio de escrever e do papel social do escritor.

Esse importante autor teve estudos biográficos de Humberto Crispim Borges e Regina Lacerda, na busca em conhecer e destacar a sua profunda inteligência e erudição.

Nosso Pré-Modernismo ou “Período Sincrético”, como afirmaram Augusto Goyano e Álvaro Catelan, vai de 1901, com publicação de Poetas Goianos, até 1928, com a publicação de Ontem, livro de poemas de Leo Lynce, que iniciou o nosso autêntico Modernismo.

O precursor de nosso Pré-Modernismo, Henrique Silva, escreveu ainda outros livros relacionados com as nossas riquezas, flora, cultura e história e com tudo que tivesse relação com Goiás. Faleceu no Rio de Janeiro em 21 de maio de 1935.

No ano seguinte, o poeta Joaquim Bonifácio Gomes de Siqueira publicou Alvoradas, livro de versos carregados de sentimentalismo e de amor pela Cidade de Goiás. Além de escritor foi, também, inspetor de fiscalização de coletorias, viajando por todo o Estado, conhecendo nossa realidade.

Por esse motivo, participou na impressa da época com artigos históricos e análises sociais de acontecimentos que presenciou. Em 1913 publicou outro livreto, Alguns Versos, em que aparecem os belos poemas Luares e Noites Goianas, mais tarde musicados com sucesso. Joaquim Bonifácio Gomes de Siqueira nasceu em 1883 e faleceu em 1923, aos 40 anos de idade.

 

Luares Goianos

 

Luares brancos, albentes,

Luares alvinitentes,

De indesvendáveis arcanos!

Vossa pureza arrebata,

Luares brancos, de pratas,

De plenilúnios goianos!

 

Morenas fadas, catitas,

As goianinhas bonitas

Adoram-vos o dulçor…

Quantos encantos encerra

O luar da minha terra

Falando coisas de amor!…

 

Formosas graças se prendem

Nos raios que se desprendem

Da lua branca e tranqüila…

 

Vendo-a tão longe, e tão calma,

Nascem no fundo d’ama

Desejos de possuí-la…

 

São desejos inocentes,

De cousas surpreendentes

Por ninguém jamais gozadas:

Desejos que só palpitam,

Que crescem, bramem, crepitam

Nas almas enamoradas…

 

Também, no ano de 1902, Eurydice Natal e Silva publicou Notas de uma viagem ao Araguaia, quando mostrou o valor intelectual de uma mulher goiana. Dois anos depois, 1904, Eurydice viria ser presidente da primeira Academia de Letras de Goyaz, fato inédito no mundo, relatado no “Almanaque Garnier”, do Rio de Janeiro. Nascida em 1883 e falecida em 1970, Eurydice Natal e Silva foi, sobretudo, uma pioneira arrojada. Escreveu o livro Ecide, publicado em 1939; fez traduções de obras estrangeiras e cooperou para o empreendimento de seu notável filho, o conhecido escritor Colemar Natal e Silva. Foi biografada pela grande escritora Rosarita Fleury.

De seu esforço intelectual, no princípio do século, extraímos os trechos de suas Notas de uma viagem ao Araguaia, cujos capítulos foram publicados no jornal “Goyaz”, na velha capital do Estado:

Hoje, partimos cedo. Desejávamos alcançar a praia do Gado, com tempo de assistir a passagem de uma boiada de nosso primo Vigico.

Não o conseguimos, apesar da boa vontade dos zingueiros.

Pouco abaixo dessa praia, divisamos, ao longe, uma ubá veloz, que se dirigia para a nossa igarité.

Incomodado com a nossa demora, o primo Vigico, que bem conhecia as dificuldades da subida, mandara-nos em reforço um batelão, conhecido no Araguaia pela sua força prodigiosa e grande prática do rio, em cujas margens nascera e crescera, e um outro, franzino de corpo, mas agilíssimo e que supria, com a presteza dos movimentos, a inferioridade em força em que se achava em relação ao gigante, seu companheiro.

Ao se aproximar de ubá, para ela saltaram os rapazes, tomando um bom zingueiro: mas faltava-lhes um remo, que os dias da igarité lhes xxx melhor de nosso remo. Não lograram o intento, porém, para se vingarem, dobraram de esforços e, em poucos minutos, a veloz ubá deixava atrás a nossa igarité e os rapazes nos davam estrondosa vaia, a que respondíamos com uma descarga de carabina, que não deixou assustá-los.

Às 4 horas da tarde, chegamos ao Dumbá. Fomos ao banho, e ao voltarmos, o Sr. Alexandre nos surpreendeu com esplêndido jantar. Pernoitamos ali. No dia seguinte, após duas horas de marcha, chegamos à Leopoldina.

Aguardava, no porto, à nossa chegada, anunciada pelos rapazes que nos havia precedido, a prima Ernestina, que, muito comovida, via chegarem as filhas. Era a primeira vez na vida que se tinha ausentado delas três dias. Sinhá e Nenê choravam de alegria e, ao abraçarem-se mãe e filhas, se debulharam em lágrimas.

No ano de 1904, o grande poeta Luiz Ramos de Oliveira Couto estréia na literatura com o seu livro Violetas, seguido mais tarde por Lilazes (1913) e Moema (1924). Foi além de poeta arrebatado, um grande jurista e combativo jornalista na imprensa de Goiás e do Triângulo Mineiro. Nasceu em Goiás em 1888 e faleceu na mesma cidade, em 1948, aos 60 anos de idade.

 

“Excêntrica”

 

Salve! Senhora das castanhas tranças

de ebúrneas faces e de olhar sereno!

Sois a deusa das minhas esperanças,

por quem vivo feliz e por quem peno.

 

Às vezes sois iguais às pombas mansas,

outras vezes matais com um vago aceno…

Trazei os lábios risos de crianças,

trazei nos níveos seios o veneno.

 

No vosso caminhar pela existência

dais a uns, da paixão, a rubra essência,

feris a outros com terríveis lanças!

 

No vosso caminhar pela existência

dais a uns, da paixão, a rubra essência,

feris a outros com terríveis lanças!

 

Eu gosto dessa excêntrica figura

de olhares ternos, de elegante altura…

– Salve! Senhora das castanhas tranças!

 

O escritor Gastão de Deus Vitor Rodrigues, no ano de 1905, publicou o livro Agapantos, com poema de linguagem rebuscada. Nascido em Catalão, em 1883, e falecido em Anápolis, em 1917, foi advogado e jornalista, colaborando com a imprensa do Triângulo Mineiro. Em 1907 escreveu outro livro, Páginas Goianas, quando fez um estudo crítico da poesia feita em Goiás até então. Foi biografado por Maria das Dores Campos (Mariazinha) e pelo notável escritor Geraldo Coelho Vaz em seu importante trabalho “Vultos catalanos”, escrito há quase sessenta anos.

Ave Regina

 

Quando ela passa donairosa, altiva

nas formas gregas ressumbrando a graça

meiga e formosa, quando às ruas passa,

todos murmuram num só tempo: Diva!

 

À rutilância dos seus olhos, viva

Onde ao dulçor e candidez se enlaça,

quando ela às ruas brevemente passa,

curva-se pasma a multidão cativa!

 

E se a digno na ebriez de aroma

da sua longa mediflava como

p’la mesma via em que, a sós caminha

 

ante a grandeza que em seu ar impera,

digo – vassalo da rainha austera – :

“Ave, Regina! Soberana minha!”

 

No ano de 1906, Leodegária de Jesus publicou o seu livro Coroa de Lírios, ao abrir caminho para a participação feminina na poesia em Goiás, dedicando-se ao verso nostálgico e romântico em plena época de evolução do Modernismo em todo o Brasil. Em 1928, publicou seu segundo livro, Orchídeas, com boa aceitação da crítica. Nascida em Caldas Novas, em 1891 e falecida em Belo Horizonte, Leodegária dedicou-se ao magistério e às atividades culturais. Sobre ela há excelente trabalho dos pesquisadores Rosarita Fleury, Darcy Denófrio e de Basileu Toledo França.

 

Supremo Anelo

 

Voltar a ti, ó terra estremecida,

E ver de nôvo, à doce luz de aurora,

O vale, a selva, a praia inesquecida,

Onde eu brincava, pequenina, outrora.

 

Ver uma vez ainda essa querida

Serra dourada, que minha alma obras;

e o velho rio, o Cantagalo, a ermida,

eis o que sonho unicamente agora…

 

Depois… morrer fitando o sol poente,

morrendo ouvindo ao desmaiar fagueiro

da tarde esquiva, o sabiá dolente…

 

Um leito, enfim, bordado de boninas,

onde dormisse o sono derradeiro,

sob essas verdes, plácidas colinas.

 

Arlindo Costa foi outro poeta do Pré-Modernismo em Goiás. Nascido em Piracanjuba, em 1880, e falecido em 1928 em Anápolis, dedicou-se ao jornalismo e à política e em sua produção poética extravasou sentimentos de harmonia e beleza em relação ao amor. Publicou, em 1907, o livro Lírios do Vale. Foi biografado por Haydèe Jayme Ferreira e Humberto Crispim Borges.

 

Cartão Postal

 

Eu recebi, querida, o teu cartão,

O teu cartão postal de Boas Festas…

Há desenhado nêle umas florestas,

Um lago e uns cines que nadando estão.

 

Do lago à beira, junto a um corcovão

Com silveiras em flor, sôbre as giestas,

Em bando esquivo vão fugindo lestas

As corças, filhas do brutal sertão!

 

E enquanto pelo espaço, errado atroa,

Das belas garças alvo bando voa

Em busca dos sertões dos abandonados…

 

No ano de 1907 iniciou a circulação do jornal “A Rosa”, gerenciado por Heitor de Moraes Fleury, com participações femininas de Alice Augusta de Santana Coutinho, Rosa Santarém Godinho Bello, Cora Coralina e Leodegária de Jesus, além de Illydia Maria Perillo Caiado e Judith Fleury. Esse jornal, publicado em papel cor de rosa, marcou seu tempo por dedicar-se ao público feminino, numa época também marcada por preconceitos à cultura feminina.

O poeta Augusto Rios publicou no ano de 1911 o livro de versos Bouquet, marcado por inspiração mística e traços românticos:

 

Soneto

 

Perdem-se pelo azul nuvens rosadas,

Nuvens mimosas, de mimosas flores,

Meigas irmãs dos sonhos promissores,

Aos poucos, vão fugindo, dispersadas.

 

Some-se o sol nas serras azuladas…

De crepe espesso véu com seus negrores

Já vem descendo pelos arredores:

Sombras caindo, lentas, compassadas…

 

Tudo triste… Nas dobras do passado

Vão-se envolver de um pobre condenado,

As lembranças de um ente que deplora…

 

E nessa hora em que se entristece o prado,

Em que nossa alma sente um som magoado,

– Ave-Maria pelo espaço chora…

 

Augusto Ferreira Rios nasceu em Jaraguá, em 1878, e faleceu em 1959. Foi juiz de Direito e chegou ao posto de Desembargador; sendo, ainda, professor de Inglês e Português. O escritor José Peixoto da Silveira escreveu um livro sobre sua biografia e produção literária. Foi um admirável escritor em seu tempo e em seu meio.

Iluminuras, publicado em 1913 pelo poeta Érico Curado, mostra visivelmente as influências parnasianas na obra desse introvertido escritor de Corumbá de Goiás, pai do famoso e imortal Bernardo Elis.

 

Sonêto

 

A tarde nuvens de rosa

franjem de sangue o horizonte,

um monte além outro monte,

entre sombras misteriosas.

 

As águas cantam ruidosas

luzindo à sombra da ponte

são águas frescas da fonte,

entre sombras misteriosas.

 

Em bandos passam, morcegos

as rãs coaxam nos regos

geme o vento em disparada.

 

E entre as estrêlas, no poente,

o arco-de-ouro do Crescente

é uma foice ensangüentada!

 

Érico Curado foi comerciante em Corumbá de Goiás e em 1957 publicou seu segundo livro, Poesias. Faleceu em Goiânia, em 1961, aos 81 anos de idade.

Um fato auspicioso para esse período foi a publicação do Anuário Histórico e Descritivo do Estado de Goiás pelo professor Francisco Ferreira dos Santos Azevedo, nosso grande dicionarista. Publicado em 1910, esse Anuário registrava fatos históricos, geográficos, sociais, culturais e econômicos do Estado de Goiás, com colaborações de grandes nomes da intelectualidade da época. Nesse mesmo ano, o Padre Zeferino de Abreu publicou Casos Reais, livro de contos que, por muitos anos, foi desconhecido de um modo geral, voltando à tona pela pesquisa de Vera Maria Tietzmann Silva na Antologia do Conto Goiano, publicado pela UFG.

No ano de 1917 Hugo de Carvalho Ramos publicou Tropas e Boiadas, no Rio de Janeiro, marcando decisivamente o regionalismo nacional, divulgando Goiás primorosa e um estilo renovado de contar os feitos sertanejos goianos. Mesmo festejado pela crítica, Hugo de Carvalho Ramos teve uma existência marcada pela depressão, suicidando-se em 1921. Com apenas uma obra, Hugo de Carvalho imortalizou-se na literatura, tendo, inclusive, excelente biografia feita pela magistral Nelly Alves de Almeida, quando de sua posse na Academia Goiana de Letras.

Nesse período, marcado pelo ecletismo, houve participação de grandes nomes da literatura goiana, que mais tarde viriam despontar no cenário cultural, principalmente em Goiânia, a nova capital do Estado. Iniciaram suas produções nesse período Maria Paula Fleury de Godoy (1894-1982), que participava da “Revista Feminina de São Paulo”, com circulação nacional, sendo a primeira mulher goiana premiada nacionalmente com a declamação de seu poema Velha Casa, em 1926, pela “deceuse” Eugênia Álvaro Moreyra no Teatro Municipal de São Paulo, em plena efervescência do movimento modernista. Mais tarde, Maria Paula publicou as obras: A longa vagem, Velha Casa e Suave Caminho, que foram sucesso de crítica.

Ainda merecem destaque as produções de Ricardo Paranhos, o poeta de Catalão, Oscarlina Alves Pinto, jornalista vilaboense, os artigos históricos de Sebastião Fleury Curado na imprensa do Estado, os estudos genealógicos de Jarbas Jayme na Revista Genealogia do Brasil, os estudos históricos de Gelmires Reis, que se iniciara em 1920 com Históricas de Santa Luzia; os estudos de literatura francesa do professor Alfredo de Faria Castro; além dos estudos históricos de Americano do Brasil (No convívio com as tranças, em 1922, e Pela terra goiana, em 1925), marcando o genial talento desse goiano pela investigação de nosso passado, além das crônicas e poemas de Nita Fleury, mais tarde frutificados nos livros Vida e Rua do Carmo.

No ano de 1924, o professor Pedro Gomes de Oliveira publicou o livro Na cidade e na roça, com contos regionais voltados para o folclore e costumes de Goiás. Mais tarde, em 1942, deu lume ao magistral O Pinto Aceso, mostrando as curiosidades e o modus vivendi de nossa gente.

Já em 1926, o jornal “O lar” marcou a decisiva participação feminina na imprensa goiana, ao colocar em destaque a vibrante intelectual que foi Genezy de Castro e Silva, com seus artigos vazados de sensibilidade, aliando seu talento com Ofélia Sócrates, Oscarlina Alves Pinto, Maria Paula Fleury de Godoy, Laila de Amorim, Maria Ferreira de Azevedo e tantas outras. Tal jornal estampou o pensamento feminino goiano nos estertores da República Velha em Goiás.

O ano de 1928 marcou o início do Modernismo em Goiás com a publicação do livro Ontem, de Leo Lynce, o segundo príncipe dos poetas goianos, nome magistral da poesia nas terras do Anhanguera no século XX, sempre louvado pelo seu admirador incondicional, o saudoso Dr. José Cruciano de Araújo, seu admirável neto Pedro Nolasco de Araújo e pela escritora e pesquisadora Darcy Denófrio. O livro de Leo Lynce, publicado naquele ano, marcaria decisivamente a poesia feita em Goiás e inicia uma nova fase com o verso livre e a renovação de temas e linguagem.

 

Uma noite em Pouso Alto

 

Noite de automóveis musicais,

Em pererecações inaugurais.

Arcos, galhardetes e foguetes.

As emoções da chegada…

Orquestrações.

Sala em galas.

Colo coleando

em boleios de seios,

bailando…

Como é linda a minha terra!…

 

Entro a casa paterna

que deixei tamaninho.

No pátio deserto,

o luar descendo sôbre as moitas silenciosas

de madressilvas e rosas…

Como é cheiroso o meu ninho!…

 

A volta, de madrugada,

pela mesma estrada,

sob o luar,

lembra-me a partida

(a minha primeira arremetida

de ave mal emplumada)

para a vida…

Como é doce recordar!…

 

Encerra-se, assim, o período tido por sincrético ou de preparação para a efetivação do modernismo em Goiás, tempo que foi de 1901 a 1928, com temas diversos, fluxos e refluxos de estilos, misturas de variantes na elaboração artística da palavra; marca efetiva da consolidação dos ideais de arte e intelectual em Goiás, no difícil o período da República Velha, em grande maioria na tradicional cidade, de ruas de pedras, largos e becos, outeiros e mirantes, aquela antiga “Cidade de Goyaz”, que realmente não nasceu para capital e, sim, para cartão postal!

(Bento Alves Araújo Jayme Fleury Curado, graduado em Letras e Linguística pela UFG, pós-graduado em Literatura Comparada pela UFG, mestre em Literatura pela UFG, mestre em Geografia pela UFG, doutorando em Geografia pela UFG. Escritor, professor e poeta). [email protected]

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