Brasil

Henri Des Roziers: a Pedagogia do Exemplo

Redação DM

Publicado em 30 de novembro de 2017 às 02:05 | Atualizado há 9 anos

Em um domingo quente e ensolarado, como tantos des­ses trópicos amazônicos em que vivo, recebo uma daquelas no­tícias que não queremos rece­ber jamais, faleceu em Paris, aos 87 anos, frei Henri Burin des Ro­ziers, advogado, dominicano, um dos maiores defensores dos direi­tos humanos, da reforma agrária e dos trabalhadores rurais, cam­poneses e vitimas da violência da terra na Amazônia.

Henri, como era chamado pe­los amigos, era francês, nascido em Paris em 18/02/1930, oriun­do de família aristocrática, per­tencente a uma parcela da elite francesa, formada por engenhei­ros, diplomata, militares, econo­mistas, alguns inclusive chegan­do a compor o primeiro escalão do governo de Charles de Gaule, na década de 1940. Mas Henri, apesar da origem social burguesa ao contrário do comportamento da ampla maioria dos filhos bur­gueses da medíocre e gananciosa elite brasileira, nunca deixou de ter sensibilidade, compromisso com os problemas sociais e acre­ditar que não é possível construir a democracia sem um mínimo de justiça, respeito a vida e oportuni­dade social a todos.

Esse sentimento de Henri foi reforçado em meados da déca­da de 1950, quando ele foi sub­tenente do Exercito francês, ser­vindo na Tunísia, Marrocos e na Argélia conflagrada pela luta re­volucionaria de descolonização da África. Foi essa experiência que abriu os olhos de Henri para as tragédias provocadas pelo im­perialismo, pela dominação fran­cesa, pelo racismo, pelos proble­mas sociais enfrentados pelos mais humildes e todos aqueles que vivem do trabalho e do suor de seus próprios esforços. A par­tir daí, Roziers passou acompa­nhar de perto as guerras de des­colonização dos povos da África e das lutas populares da América Latina, em especial dos cubanos, chilenos e guatemaltecos.

Em 1954 Henri des Roziers li­cenciou-se em Letras pela Univer­sidade de Sorbone, em Paris, mas a literatura e o gosto pela leitura fo­ram insuficiente para aplacar sua vontade de lutar por justiça e pela dignidade humana, o que fez ele ir cursar Direito na Universidade de Cambridge, na Inglaterra. E foi justamente lá que ele conheceu o padre Yves Congar, um teólogo dominicano, ardoroso defensor da renovação da Igreja Católica e que anos mais tarde seria um dos principais mentores do Concílio Vaticano II, que mudou a face da Igreja Católica Apostólica Roma­na no século XX.

Foi então que, aos 28 anos de idade, após defender sua tese de doutorado em Direito Compara­do, sobre a diferença entre o Di­reito Civil Comercial e a legislação inglesa, premiada com o Prêmio Levy Ullman, da Faculdade de Direito da Universidade de Paris, como a melhor do ano de 1959 e quando todos já tinham a cer­teza de que Henri seria mais um iminente jurista europeu, que ele resolveu ser religioso dominica­no, como seu amigo Congar, indo cursar Teologia na Universidade Católica de Saulchoir.

Depois de ordenado padre Henri, entre 1964 e 1969, virou ca­pelão dos estudantes no Centro Universitário de Saint Yves, onde acompanhou de perto a experiên­cia revolucionária dos estudantes franceses de 1968, o que só refor­çou seu compromisso cristão de lutar por fraternidade, justiça, fim das exclusões e por novos valores cristãos. Mas enquanto alguns re­ligiosos davam total apoio aos jo­vens de cabelos longos e roupas coloridas que queriam mudar o mundo, outros diziam que aquele movimento era “diabólico” e de­nunciavam o comportamento dos frades dominicanos.

O maio francês de 1968 foi de­cisivo para que frei Henri passas­se a ser um ardoroso defensor dos direitos humanos, indo mo­rar nas periferias de Paris, depois em Besançon, no leste da Fran­ça, trabalhando na construção civil e como operário da Rhodia, descobrindo ainda mais o mun­do da opressão do trabalho. Sen­do essa experiência decisiva para que em 15/12/1978, viesse para o Brasil, onde em um curso para missionários estrangeiros ofe­recidos pela CNBB entrou em contato com a CPT, aceitando o convite para conhecer o então norte goiano, hoje Tocantins. Ao conhecer a realidade brutal da miséria, da escravidão, das vio­lências praticadas contra a po­pulação e os trabalhadores rurais do Bico do Papagaio, da pistola­gem, dos abusos do latifúndio e das autoridades públicas nunca mais foi embora.

Henri dedicou todo o restante de sua vida aos humildes e explo­rados da Amazônia-Legal, defen­dendo o fim da corrupção, dos crimes impunes, os direitos hu­manos, a reforma agraria, o fim da escravidão, o fim das injusti­ças, da exclusão social, a falta de democracia no Brasil. Viveu basi­camente no Tocantins e no Pará, anos difíceis, enfrentando cons­tantemente ameaças de morte, as intimidações e as ações cri­minosas de grileiros, madeirei­ros, escravagistas, latifundiários, políticos e a incompetência do Estado brasileiro. Só foi embora para a França quando a saúde se agravou e onde após sucessivos acidentes vasculares cerebrais e uma miopatia congênita final­mente o derrotou.

Henri des Roziers é daquelas pessoas que não morrem jamais, por seu exemplo de dignidade, ao contrario de muitos brasileiros sem coragem de lutar, sem medo de ir para o combate contra as injusti­ças esse francês foi meu professor, e eu não esquecerei a melhor de suas aulas, o exemplo.

Paulo Henrique Costa Mattos, professor em Gurupi e assessor educacional do Centro de Direitos Humanos de Cristalândia

 


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