Brasil

Herança dos meus pais

Redação DM

Publicado em 8 de dezembro de 2016 às 02:07 | Atualizado há 10 anos

Joaquim Borges de Oliveira, meu pai, nasceu nos pagos de Jataí, margens do rio Doce, divisa com município de Rio Verde, dia 27 ou 28 de setembro de 1916. Depois de pobre infância, empregou-se como caixeiro, substantivo, na época, adotado como sinônimo de comerciário. Nesse sentido, há lustros caiu em desuso essa palavra. Teve como  último empregador seu concunhado José Maximiano Peres, o popular Zeca Maximiano, estabelecido na sua fazenda em terras hoje pertencentes ao município de Serranópolis, mas naqueles dias, de Jataí.  Meu pai se estabeleceu, por volta de 1941, na fazenda Moranga, de  propriedade dos seus sogros Philadelfo e Ana Isabel, e deu ao seu estabelecimento a fantasia Loja Tupy. Foi feliz nos negócios, agiu com lisura e edificou sua independência financeira.

A referida estância dos meus avós era vizinha da pertencente ao Zeca Maximiano e foi vendida a João Goulart Garcia, que veio a ser vice-prefeito e três vezes prefeito do município de Serranópolis, cuja sede está plantada a poucos metros, pode-se assim dizer, da fazenda em pauta. A região da Serra do Café, em 1958, elevou-se a município que se instalou no  primeiro dia de 1959, data da libertação de Cuba pela brava revolução comandada por Fidel, Guevara e outros heróis.

Em 1950, meus pais e nós, seus filhos(éramos 4), nos transferimos para Jataí, a “Cidade Abelha”. Em 1951, nasceu o quinto e último dos meus irmãos, o Ernesto. Nesse ano, na confluência das ruas Rui Barbosa  e Benjamim Constant, com o apoio da minha mãe, Maria Clara de Oliveira, fiel ajudadora, o jovem empresário abriu outra loja e lhe deu a fantasia da anterior(Tupy) , que não mais  existia.

Tupy e Casa Rezende lideravam o movimento lojista de Jataí por bom espaço de tempo. Na segunda metade desse período ele mudou o apelido da empresa para Comercial Baratém e com o passar do tempo, passou, obviamente, por  outras modificações e desapareceu, de direito em 1989,  em razão do seu óbito. De fato, porém, pouco restava de mercadorias.

Foi do comércio varejista  que meu pai sustentou, com fartura,  a família. Éramos 4 filhos e uma filha. Em 1978 ou 1979, meus genitores ampararam o neto e a neta maternos porque a mãe deles rompera com a família e foi embora na companhia de um oficial do exército. Apesar da idade e do declínio pecuniário, eles formaram os dois  netos. “Seu” Joaquim viajou dia 5 de abril de 1989; dona Maria, 4 de abril de 2008. Pequeno patrimônio econômico deixaram, rico patrimônio moral nos legaram. Freguês pedia determinada medida de plástico. Impossível cortar a peça em linha reta, pois a tesoura se desviava para fora ou para dentro. Ele cortava para dentro, ou seja, em benefício do adquirente. Observação: sem um centavo para ressarcir a loja.

Lembro-me, óh se me lembro: freguês chegava com lata vazia, que viera com soda cáustica, para comprar mais soda. Joaquim Borges a enchia tanto que para tampar ficava difícil.

Um dia ele flagrou, no depósito, um botequineiro, em carrinho de mão, a furtar-lhe duas ou três malas de aguardentes( vinham tantas garrafas em saco, comercialmente chamado de mala). O ladrão ficou sem saber o que falar e o que fazer, porém assumiu o erro dizendo que iria vender no seu botequim. Sem se irritar, papai lhe respondeu mais ou menos assim:

-Você poderia me pedir, eu lhe daria. Pode levar, mas não faça isso mais. É melhor pedir do que furtar.

Na minha opinião, ele agiu corretamente. Foi bondoso. Quem sabe aquele homem se corrigiu?  O que valiam aquelas garrafas de pinga dentro de uma loja tão expressiva? Para que prender aquele  pai de família?

Honestidade e bondade foram os maiores legados dos meus pais.

 

(Filadelfo Borges de Lima – 72 qnos, mora em  Rio Verde, auditor fiscal aposentado de Goiás, autor de vários livros, membro da “Loja Maçônica Estrella Rioverdense” , é grau 33. Sócio-fundador da “Academia Rio-Verdense de Letras, Artes e Ofícios” e do  “Instituto Histórico e Geográfico de Rio Verde”)

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