Homens e animais
Redação DM
Publicado em 15 de junho de 2016 às 02:31 | Atualizado há 10 anos
Durante a antiguidade, entre egípcios, gregos e romanos, foi difundida a crença segundo a qual pode haver a transmigração de alma de um corpo para outro. É o que chamamos, modernamente, de reencarnação. Esse fenômeno, entretanto, não se restringiria à reencarnação humana, mas, segundo os antigos, abrangeria a possibilidade de a alma humana encarnar-se em animais e vegetais.
A ideia da transmigração da alma, ou, para os gregos, a metempsicose, já existia no Orfismo, uma religião primitiva da Grécia, que existiu por volta do século V a.C., que acreditavam que a alma humana é divina e imortal e, por isso, precisa transmigrar, passando por diferentes fases da vida, experimentando a vivência em vidas humanas, animal e vegetal, até atingir a purificação. O mais expressivo desses teóricos foi Pitágoras, filósofo jônico (570-495 a.C.). Dizem que Pitágoras caminhava quando viu um cachorro sendo maltratado, recebendo chibatadas de um homem. Diante da cena, Pitágoras repreendeu-o, explicando que ele não podia agredi-lo, pois, aquele cachorro tratava-se de um amigo de vidas passadas, e que o reconheceu pelo latido.
As minhas limitações do conhecimento acerca da Existência, rodeada de tantos mistérios, incapazes de serem explicados através de minha vã filosofia, não me permite afirmar sobre ser ou não crível a teoria da metempsicose. Tenho, entretanto, experiências, lições de profunda interação e convivência com os animais que me levam a crer, intensamente, na existência de uma força da Natureza constantemente empenhada em reger a nossa existência terrena, na qual todos os seres vivos, homens, animais, vegetais, rios e mares, estão em permanente conectividade, compondo um todo uno. Quando tomei a decisão de residir em uma área rural, nas proximidades de Goiânia (GO), o fiz por sentir-me completamente saturado das intrigas, perfídias e caprichos dos humanos, mais precisamente esses vizinhos de condomínios, que, ora impelidos por vaidades, ora por sentimentos de emulação ou por absoluta empáfia e indiferentes ao próximo, tornam a convivência e a intersubjetividade, se não insuportáveis, extremamente penosas. Nesse meu novo estilo de vida, além da própria saúde física e psicológica, venho passando por experiências que antes eu sequer cogitava: a convivência com animais silvestres e domésticos. Cães e gatos. Dos animais com os quais convivo em minha casa a quase totalidade é adotada. De todos eles, a que mais marcou, a minha e minha família, foi a Rebeca, uma cadela vira-latas. Esse nome foi escolhido por minha filha, à época com seis anos de idade, em alusão a um personagem de programa infantil que ela admirava. Na verdade, a Rebeca foi abandonada por seu antigo dono. E ela, faminta, gravemente enferma – estava com toda a pele e os pêlos consumidos por algum tipo de bactéria ou fungo que a sua aparência causava pavor. Os olhos estavam sem a pele que o circunda e, além de assustador, dava a impressão de que iriam cair, pois pareciam saltar-lhes do globo ocular. Apesar disso, era possível notar um olhar de bondade, de afeto e, principalmente, de súplicas para que a acolhêssemos diante daquele estado tão deplorável. Com a ajuda de dois operários que prestavam serviço na construção de minha residência, a Rebeca foi, com muito sacrifício, demonstrando uma rápida recuperação. E nós demos a ela, além de medicamentos e alimentação, aquilo que consideramos o mais importante: acolhida e afeto. Mesmo com algumas recaídas, a Rebeca tornou-se a cadela mais querida e muito bonita. Recuperou toda a pelugem e, além de extremamente dócil comigo e meus familiares, tornou-se uma grande protetora. Extremamente ciumenta, mantinha vigilância ininterrupta sobre nossa residência e, principalmente, sobre minha filha. Com discrição, observava-a mesmo enquanto estava brincando com outras crianças. Incrivelmente, sabia os dais da semana e até os horários em que minha filha ficaria comigo e, por isso, esperava-nos no portão para quando eu descesse para abri-lo ela adentrar no veículo e beijá-la.
A Rebeca nunca acompanhava os outros cães, quando estes saiam para longe de casa. Mantinha-se firme na vigilância do lar e o que mais me comovia, em minha ausência, exercitava, resignadamente, o dom da espera. Certa vez, minha mãe demonstrou preocupação comigo por residir tão cercado de mato.
– Se tu bebes e te embriagas, aqui sozinho, quem te socorrerás, caso precises?
Respondi-lhe:
– A Rebeca, claro!
– Como assim?
– Veja!
E deitei-me ao chão fingindo-me de morto ou enfermo. A Rebeca aproximou-se, latiu e, como eu não reagi, ela iniciou um esforço para empurrar-me para dentro de casa. Como não conseguiu, deitou-se ao meu lado, encostando-se em mim para manter-me aquecido com o seu corpo.
Já com a idade muito avançada, demonstrando debilidade natural, percebi que em breve a Rebeca nos deixaria. Adverti minha filha de que isso estaria prestes a acontecer, mas que ela procurasse não sofrer, pois, é parte do processo da vida, feita com encontros e despedidas, chegadas e partidas. A Rebeca, aos poucos, foi definhando-se. Os medicamentos não revertiam os progressivos sinais de sua morte iminente. Mais uma vez, conversei com minha filha precavendo-a sobre a proximidade do momento em que nossa cadela morreria. No meu último final de semana que minha filha passou comigo pedi-lhe que fosse fazer um afago na Rebeca, que lhe passasse a mão na cabeça e que, ao dizer-lhe “tchau”, também dissesse um ‘muito obrigado, Rebeca”. E ela o fez. Eu sabia que ambas jamais voltariam a se reencontrar. O instinto de proteção persistiu até os seus últimos instantes de vida. Aproveitando-se de minha ausência, Rebeca, com apenas as duas patas dianteiras, já que as de trás não conseguia mais movimentá-las, arrastou-se para o bosque para poupar-nos do sofrimento de vê-la morrer. Eu a encontrei. Tentei levá-la de volta para casa, ela soltou um latido valendo-se de suas últimas forças, num aviso para que eu a deixasse ali. Não a atendi. Insisti em levá-la nos braços. Ela mordeu-me levemente, mas de modo que eu entendesse que ela estava resoluta. Afaguei-a. Dei-lhe um cobertor, comida e uma vasilha com água. No dia seguinte, novamente, ela mudou de lugar, tentando se esconder. Não queria que eu a visse morta. Rebeca partiu, deixando um vazio em nossa casa e em nossas vidas. Ficará, para sempre, a certeza de termos sido amados, com um amor espontâneo e incondicional. Eu não tenho elementos para contestar as teorias dos sábios sobre tantos mistérios que envolvem a vida e os fenômenos cósmicos. Porém, não acredito que a sabedoria de uma vida e que uma alma, para se chegar à grandeza divina, tenha que pertencer ao homem. Acredito que a Natureza guarda em seu seio forças antagônicas. O bem e o mal podem coexistir em diferentes manifestações e formas de vida: homens, animais, natureza. Não é a espécie quem define o conceito de “alma boa”. A maior ameaça à paz, à segurança e mesmo à existência humana é o próprio homem.
No que se refere ao amor e aos sentimentos de altruísmo e doação ao próximo, nós, os humanos, ainda temos muito o que aprender com os animais. Obrigado, Rebeca, por ter ensinado-me mais essa lição de vida que permanecerá conosco. Para sempre!
(Manoel L. Bezerra Rocha, advogado criminalista – [email protected])