Inauguração do Estádio Olímpico de Goiânia
Redação DM
Publicado em 4 de agosto de 2016 às 03:15 | Atualizado há 10 anosAnuncia o Governo do Estado que o Estádio Olímpico de Goiânia (Centro de Excelência) será inaugurado na próxima segunda-feira, dia 8. Criado pelo Goiânia Esporte Clube (O Galo) em 1941e nominado Estádio Olímpico Pedro Ludovico Teixeira. Este estádio, ao longo da Avenida Paranaíba, centro, não se sabe o porquê, ficou paralisado por muitos e longos anos. Agora, depois de uma demorada reforma, ressurge majestoso, estádio de primeiro mundo, “cartão de visita da Capital”.
E eu que joguei várias vezes naquele campo-de-terra, até não era propriamente de terra, mas de saibro. E o pior, inclinado, escorrido. Quando se tirava o par-ou-ímpar entre os capitães dos times, quem ganhava escolhia “jogar pra baixo”. Arquibancada era de madeira e só de um lado, a favor do sol da tarde. Os torcedores campineiros ficavam do lado oposto, contra o sol. Naquele tempo os clubes oficiais eram somente o Atlético e o Goiânia. Ali também disputamos partidas pelo nosso Tiro de Guerra, 323, contra os pequenos times que estavam surgindo.
Houve acontecimentos memoráveis para o futebol goiano naquele recinto esportivo. Vamos rememorar dois: “Um campeonato por um pênalti” – Corriam os anos da década de 1940. Campeonato Goiano. Na decisão, o Goiânia precisava de um gol; para o Atlético bastava um empate. Era domingo. O placar acusava 0 a 0.
O tempo já estava esgotado, a torcida aguardando o apito do juiz, quando surgiu um pênalti “- mal contado” contra nós. Os jogadores e os torcedores acharam que o pênalti não existiu, não concordaram, invadiram o campo e passaram para a briga. Bate! Não bate! Se batesse e não entrasse, o Atlético seria campeão. Se batesse e entrasse, seria o Goiânia, o campeão. Os atleticanos insistiam em comemorar a vitória por dois motivos: a falta máxima não acontecera e o tempo já havia sido esgotado.
Dentro do gabinete da Federação Goiana de Esportes ficou resolvido que o pênalti iria ser batido na quarta-feira, às 16 horas, e com os portões fechados. A primeira informação foi de que somente entraria em campo o goleiro e o batedor do pênalti. Depois, segundo os estatutos, os dois times teriam de estar completos em campo. E se a bola rebatesse e voltasse, nenhum jogador teria o direito de ataque: estaria terminada a partida.
O assunto predominante em Campinas versava em torno do pênalti. O seu João, dono da máquina de arroz, meu fã incondicional, dizia que poderiam bater quantos pênaltis quisessem que o Paulistinha pegava, não tinha problema, não!
Desde quando me levantei, até a hora de ir para o Estádio Olímpico, a minha ocupação era ingerir chá de erva-cidreira e água com açúcar, que a minha mãe preparava. Aí eu falei pra ela: “Mas assim eu vou ficar tão calmo que não terei disposição pra pegar a bola”. A micção me obrigou a afundar o caminho para o banheiro, no fundo do quintal.
O comércio teve de fechar as suas portas, pois se os donos não queriam, os funcionários exigiam.
De fato, mesmo com os portões fechados os campineiros estavam, desde após o almoço, empoleirados nos muros, nas carrocerias dos caminhões, em cima dos ônibus, muitos levaram escadas, todos na maior expectativa.
Não tinha televisão e nem existia radinho de pilha, o Cunha Júnior comandava na Rádio Clube aquele espetáculo de espera e angustia, que se resolveria em apenas numa fração de minuto: bastava um chute.
Os personagens principais da grande festa eram apenas dois: o goleiro, no caso, eu, e o batedor do pênalti, o Salsicha (Elso Rosa), o maior chutador do Goiânia; eu, empanturrado com chá e água com açúcar, tentando calma, mas também as longas pernas do Elso tremiam pra valer. Era responsabilidade demais da conta. No meu caso, se ele fulminasse, balançando as redes, como os goianienses esperavam, tudo bem. Mas, e se eu pegasse um frango? Teria até que mudar de Campinas.
De domingo à noite até terça-feira, o povo campineiro se aglomerava empelotado aqui e ali, na 24 de Outubro, na Praça Joaquim Lúcio, dentro e fora do Bar Esportivo, do técnico Orlando Ferezin, em frente ao Cine Campinas, na Banca do Biruca, no salão do Milton e do Jiló, no coreto do jardim, nos bancos da Praça, o assunto era um só: o pênalti da quarta-feira, bate não bate! A maioria já estava conformada com a cobrança máxima, pois brigava-se entre os clubes, mas ninguém ia contra às decisões da Federação Goiana de Esportes. Briga em campo, no tapetão, sim, mas no gabinete da Federação, não! O povo campineiro, em massa torcedores do Atlético, confiava nas negociações dos diretores do clube, João de Brito Guimarães, Edson Hermano, Moacyr Cícero de Sá, Calimério Machado, Reinaldo Toni… O que eles resolvessem, estaria resolvido.
Cogitou-se em buscar um goleiro de fora, como o Mozart, de Belo Horizonte, que salvara a seleção goiana de uma goleada, em Santa Catarina. Mas a Federação não permitiu, o jogo teria de continuar como parou, sem troca de jogadores.
Quarta-feira, 16 horas no Estádio Olímpico Pedro Ludovico Teixeira. O juiz colocou a bola na marca de cal. Salsicha, magricela, afastou uns 5 metros. Eu o vi como um gigante pernalta, aqueles pés enormes, ali encostado de mim. Disse ele, depois, que me via também muito longe, agigantado dentro do gol.
Silêncio absoluto. Soou o apito, compridamente… dei uns passos pra frente para eliminar os ângulos (a regra permitia). Salsicha gingou o corpo e veio pra cima da bola e foi aquela paulada! Talvez nunca tenha chutado com tamanha força, com tamanha gana, pois a bola passou uns 3 metros pra cima do travessão e foi quebrar os vidros do vitrô do banheiro e roupeiro do Dezoito, junto ao muro da Avenida Paranaíba.
O povão, eufórico, saltou pra dentro dos muros! Dada a notícia pela Rádio Clube, o restante do povo de Campinas acorreu, a pé, de bicicleta, de moto, de carro, de ônibus, de caminhão e se juntou aos do Estádio e saímos em passeata pelo centro de Goiânia, Palácio do Governo e retornamos à Praça Cel. Joaquim Lúcio. Não restou um só foguete nas lojas. O céu de Campinas se enfumaçou, virou mês de agosto.
“Atlético Campeão! Atlético Campeão! Vai ser bão, picolé de sabão!”
Segundo: “Seleção goiana versus sobrantes do Atlético” – Durante a 2ª Grande Guerra a seleção goiana enfrentou, pelo Campeonato Brasileiro, a seleção catarinense, em Florianópolis. Os jogadores convocados foram quase todos do Atlético. A viagem se deu na terça-feira e a seleção goiana fez um treino pela manhã, na véspera, segunda-feira, no Estádio Olímpico Pedro Ludovico.
A ordem do presidente da Federação, Dr. Irani, foi para pegar um time fraco para a seleção dar uma goleada, avaliando o conjunto. Optou-se pelos sobrantes do Atlético, time onde o treinador Orlando Ferezin era também o técnico da Seleção Goiana.
Na manhã de segunda-feira eu estava na sala de aula no Liceu, quando o Dr. Iron Rocha Lima (pai do Helder) mandou me chamar na diretoria. Levei o maior susto, pois meses antes acontecera a mesma coisa, sendo eu convocado para a guerra. Esperneei, aleguei arrimo de família e casquei fora. Como é que eu iria brigar contra o povo do meu sangue, neto de quatro avós italianos? Sempre, desde criança, achei a guerra a maior estupidez, o “herói” derramar o sangue para honrar políticos! Pois bem, a ordem foi para que eu me dirigisse urgente ao estádio da Avenida Paranaíba, para o treino da Seleção.
Em jogos menos importantes eu era escaldado como centroavante, sendo goleiro oficial, o Dr. Edison Hermano (o goleiro mais elegante da época, apelidado de “Viuvinha”, pois jogava todo de preto). O goleiro da seleção era o Borola, que jogava em um time de Santos. Pela regra, no treino, Barola deveria atuar no gol do quadro mais fraco, para aguentar a carga dos atacantes principais, mas o presidente da Federação exigia o conjunto.
Toda a saída de bola, àquele tempo, o centroavante passava a bola para o meia e este voltava para o center-half, que distribuía para uma das estremas (pontas). A outra saída costumeira, o centroavante se afastava e dava uma bicuda direta a um dos pontas, que se posicionava em cima da linha lateral.
Início do treino-chave – Houve um desentendimento entra a Diretoria, o time se desequilibrou, a bola sobrou pra mim e fiz o primeiro gol. O ponteiro do relógio não havia nada andado quando o Cacildo fez o segundo.
Com 8 ou 10 minutos de treino a Seleção já estava levando uma goleada de 6 a 0. O presidente da Federação, furioso, entrou em campo, arrancou o apito do técnico (cordão São Francisco) quase o degolando, houve luta, ambos de corpos avantajados, a turma apartando, seu Orlando foi deposto. Mandaram que o melhor goleiro da época, um tal Mozart, de Belo Horizonte, seguisse direto para Florianópolis. Goiás perdeu por 3 a 2, a seleção catarinense jogou, praticamente, o tempo todo dentro da área goiana, mas o goleiro “goiano” fechou o gol, evitando a maior goleada da história do futebol brasileiro em se tratando de seleções. Badala, do Atlético, marcou os dois gols, em duas escapadas de contra-ataque.
Tantas outras coisas interessantes aconteceram, mas o melhor da história mesmo é ir assistir à magna inauguração do Estádio Olímpico nesta segunda-feira, que está uma festa para os olhos dos amantes do esporte.
Macktub!
(Bariani Ortencio. [email protected])