Brasil

Inevitável Vinco

Redação DM

Publicado em 22 de dezembro de 2017 às 21:23 | Atualizado há 9 anos

As águas que se passaram moveram outra vez o velho moinho, que também já tinha passado desta para uma pior. Enquanto o vento regurgitava os res­tos mortais do pobre, a chuva enchia seu reservató­rio com as águas turvas daquela cloaca lamacenta onde os patos lavam seus pés antes do almoço.

O mesmo vento sacudiu os galhos do pau-terra e neste sofreguidão suas flores exalaram um chei­ro exótico que se misturara ao perfume das polia­nas do cerrado. Era novembro, e chovia! E a chuva não apagara o brilho dos raios solares, mas pes­soa alguma ali, usufruía desta singular imagem. Um casebre de pau-a-pique e alguns lençóis de al­godão-cru pendurados na cerca feita com arames farpados, dão ao ambiente um aspecto tenebroso.

Cenário decrépito! Cenário decrépito, embaçan­do o dia e desertificando o cerrado. No casebre, um senil tocava sua também decrépita rabeca. Seus de­dos oxidáveis arriscam tocar: Ave Maria, de Bach. Como ousa? Ganhou cordas novas, não o velho, mas a rabeca. Agora estava tinindo, e certamente Sebas­tian Bach gostaria de ouvi-la rezar suas composições. A música enche o casebre de majestade. O homem parece imune a devassidão de sua vida e demons­tra não precisar de coisa alguma além de sua rabe­ca que toca aquelas notas sem ao menos saber quem as compôs. Não importa. Isto realmente não impor­ta. Ele chora, mas não de tristeza, chora de saudade. Saudade dos sonhos que não se realizaram, mas que lhe davam motivos para acordar todos os dias.

Sobre a mesa jaz um vidro, desses de compota, cheio de sementes de girassóis. Antigamente culti­vava um canteiro destas flores no fundo do quintal. Os filhos se foram e levaram às flores, os netos se fo­ram e levaram os caules. As raízes apodreceram e a terra as digeriu.

O homem tocava sua rabeca de olhos fecha­dos, era bonito de se ver. Era a coisa mais linda que olhos podem enxergar, quando busca ver além do que está a mostra. Era a melodia mais sublime que ouvidos podem ouvir, quando estão atentos a pureza do som. Aquele rosto refletia as marcas do tempo e eram nítidas as suas rugas. Seu olhar em­baçado pela nevoa cronológica, insinuava de modo acurado sua frágil vontade de viver.

Chama a atenção… não as rugas, uma peque­na cicatriz do lado superior esquerdo de seu cenho franzido. Uma cicatriz quase imperceptível, uma cicatriz confusa, em sua ânsia de ser apenas cica­triz e não um inevitável vinco. O homem carrega em sua face um labor inconfundível, extirpado pe­las raízes enquanto toca sua rabeca e chora.

A cicatriz lamenta sua “desexistencial” impor­tância. Mas, houve um dia, em que ela vivenciara o afã de seus melhores momentos. Dias estes em que lhe davam deferência. Dias em que ela era toca­da e comentada por vezes e vezes. Dias em que ela fora mais que uma distante lembrança, era o pró­prio momento em si. Não interessa mais o porquê de sua existência. Se ela apareceu durante a lida do “pão nosso de cada dia”, ou no instante em que o homem colhia seus girassóis. Não importa as cica­trizes, uma vez que se possui rugas.

O homem parou de tocar, caminhou até a mesa e pegou o frasco de vidro e retirou-lhe a tampa, derramando sobre a mesa algumas sementes. Se­lecionou-as, reservando na mão esquerda as mais graúdas. Depois caminhou na direção de seu anti­go canteiro e atirou-as ao léu. Algumas caíram aos seus pés, outras o vento levou para algum lugar e talvez uma ou duas, caíram exatamente onde ele conjeturava que caísse.

Conquanto, o velho morrerá e suas rugas mor­rerão com ele, mas as suas cicatrizes hão de perdu­rar naquelas sementes de girassóis e tudo quanto elas representam também.

(Clara Dawn, romancista e produtora de conte­údo do Portal Raízes – portalraizes.com)


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