Injustiças contra Mineiros
Redação DM
Publicado em 18 de janeiro de 2017 às 00:53 | Atualizado há 10 anos
Em sua história, sobretudo política, a simpática cidade de Mineiros, Sudoeste Goiano, tem sofrido uma série de injustiças que, de tão frequentes, já se tornaram intoleráveis. Enumerá-las e descrevê-las, é o meu intuito. Começam contra o patrimônio histórico-religioso, arquitetônico e paisagístico. A capelinha do Divino Espírito Santo, inaugurada em finais do século XIX, nas proximidades da atual Matriz da cidade, foi derrubada não se sabe o porquê, nem para quê. Como lembrá-la e referenciá-la? Como refletir sobre ela, imponente, orgulhosa e altiva? E o seu papel pedagógico-educativo, trajetória de uma pesquisa, atração de um turista curioso? Como, portanto, fixar, reter e conservar o que existiu, mas não se viu? Como rememorar, através de relações emotivas, o que se destruiu? Como evocar sua memória visual, auditiva e afetiva?
Também os logradouros públicos iniciais de Mineiros, cheios de originalidade, emocionalidade, significado e expressividade cívica, além de quase todos terem sido destruídos, mudaram de nome, nos tornando mesmo uma comunidade sem alma, sem passado e de complicada identidade, já que estamos impedidos de revelar e reverenciar, concretamente, os vultos eminentes da nossa história, os beneméritos da cidade, que eram a marca da placa de ruas e praças.
Por quê? Como devotar o nosso carinho e amor à terra? Cadê a antiga cadeia, o Grupo Escolar Pedro Ludovico? O velho fórum? O mercadinho da Praça Coronel Manoel Francisco Vilela e a Praça da Bandeira? O que teria justificado esse desrespeito contra a história? Por que reduzir a nomenclatura das ruas e praças, como se morássemos nos Estados Unidos, presos ao egoísmo do time is money de lá? É estranho: em um país onde não se cumpre a lei, as sem civismo e valor histórico são as que se efetivam.
Em 11 de setembro de 1967, a câmara Municipal de Mineiros, num momento de lamentável carência de sensibilidade histórica, aprovou a Lei Numero 15, autorizando o Executivo a mudar o nome das ruas e outras vias públicas. Alguém, com algum senso de justiça, deixou explicito no artigo 2º da lei referida, que todas as pessoas consideradas ilustres, que “prestaram relevantes serviços à causa do desenvolvimento, do município, em particular, aquelas cujos nomes constam em ruas e avenidas da planta cadastral da cidade de então, teriam, obrigatoriamente, seus nomes gravados em importante monumento, que estaria sendo erigido na Praça Coronel Carrijo, pela municipalidade”. Ao que sei, essa exigência legal nunca foi cumprida. Cadê o monumento? Não saiu do papel.
Vejam, pois, o que fizeram com os nomes das primeiras ruas e praças, não nos restando mais nem os becos do Quintinho, de saudosa memória, nem o do Zequinha, onde os amores proibidos eram os mais frequentes. Um rabicho. Aonde era a Rua Abel Coimbra saborosamente chamara “Rua do Sapo”, onde também havia um beco de uns cuiabanos, botaram o número 1. Virou Rua 1. A Coronel José Para-Assu, primeiro intendente do Município, com a Rua Arquilino de Brito, foram convertidas em Rua 3. A Minas Gerais (pasmem!), que homenageava os primeiros habitantes vindos de Minas Gerais, transformou-se em 1ª Avenida. A Avenida Araguaia, virou Rua 7. As Ruas Joaquim Vilela de Morais e José Peixoto de Souza formaram a 3ª Avenida. Nem a Avenida Santos Dumont deixaram. É a Rua 9.
Leopoldo de Bulhões, que homenageava um goiano ilustre, que chegou a ser ministros da Republica, não passa da apática Rua 11. A Duque de Caxias, é a insensibilidade da Rua 6. A Joaquim Alves de Rezende, que também se chamou Rio Verde, é a Rua 8. A Rua 15 de Novembro foi reduzida para Rua 14. A Manoel de Souza Barbosa, embora justifique o nome do bairro “Manoel Abraão”, é a Rua 20. A Rua Goiânia, nome de um belo poema épico de Manoel de Carvalho Ramos (pai do grande Hugo de Carvalho Ramos autor de Tropas e Boiadas) e da Capital do Estado, com a Rua Brasília,Distrito Federal, são apenas a 6ª Avenida.
Notem que nem a Rua do “Vai-e-Vem”, deixaram. Lugar dos primeiros psius e dos primeiros flertes apaixonados, através dos olhares de soslaio encantados e atraídos pela velha técnica de o “querida dali”, o “amor de acolá”, partido de rapazes fogosos galanteando as meninas que, também, buscavam seus príncipes encantados. Essa rua era a esquina da Minas Gerais com a Rua Goiânia, onde o psiu só é atendido se o homem estiver motorizado. Seja como for, a cidade assiste ao empobrecimento cultural com a perda de seus referenciais.
Uma outra incrível injustiça foi à descaracterização de nossas praças, bem comum do povo, começando pela do Coronel Carrijo de Rezende, existente e definida em lei desde o primeiro código de posturas municipais, de 1909,tendo como intendente da vila e município o major Caetano Carrijo de Rezende. Além de ser reduzida, no inicio da década de 1940, o prefeito interventor Pedro Arantes construiu e instalou no seu epicentro a prefeitura e o Fórum, demolidos, tirando-lhe, assim, o seu encanto bucólico.
Como se não bastasse, décadas depois, construíram a sede da prefeitura à esquerda da antiga. Mas como se nada justificasse, com a infeliz demolição do Fórum, restou um desgracioso e desairosos buraco, oportunamente chamado “buraco da justiça” pela sabedoria popular, ora transformado em praça de esporte infanto-juvenil. A da Bandeira, é “José de Assis”. A Coronel Manoel Francisco Vilela,é um impassível prédio construído no solo mais profundo de sua alma, sob o olhar melancólico de uma gameleira quase centenária. A Cardoso, no Mineirinho, é um grupo escolar. A das Mães – imaginem – fizeram o obséquio de transformar em um Colégio (Alice). Fizeram ouvidos moucos à indignação do escriba, endereçada ao Ministério Público.
Quem se lembra da interessante agencia do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que prestou relevantes serviços a Mineiros até 1983? O que aconteceu? Foi transferida para Jataí. Quem não sabe de sua grande importância, como fonte básica de pesquisa? E a Receita Federal? Foi pra Jataí. O que fizeram os políticos? Onde estão os estudantes? Por que tanta omissão?
Conhecem Perolândia? Seria a terra das perobas na sua origem etimológica, constituída, porém, de grande parte do território tirado do Município de Mineiros, podendo ser exemplo a Fazenda Invernadinha, pertencente ao ex-prefeito José Feliciano de Morais, sem qualquer reação dos abnegados políticos de Mineiros, especialmente do PMDB à época, reduzindo a nossa área em quilômetros quadrados para menos de 9 mil.
Se a desatenção continuar, sem muita tardança, Santa Rita do Araguaia nos levará mais um pedaço. E a Caramuru? E a Nestlé? Quem as tirou de Mineiros? Onde estão? Portelândia,não raro circundada de Mineiros por todos os lados, levou mais um pedaço. E que pedaço. E a área já perdida (ou entregue?) para Mato Grosso, também por displicência de políticos, conforme o artigo “O cochilo de Iris Rezende, Machado”, publicado no jornal Gazeta Araguaia, de Mineiros, edição de maio de 2002?
Vê-se que somos escritinho o Estado de Goiás, nosso progenitor: Mato Grosso tirou-lhe uma banda, Minas Gerais, um Triângulo, Maranhão, a vetusta Carolina, formando um “bico de papagaio”, hoje no domínio do Tocantins. Mas não se regozije. Brasília, rodeada de “entorno goiano” por todos os lados, quer mais uma lasquinha. Essa é a sina de quem existe na parte mais central das coisas.
Portão oficial do Parque Nacional das Emas. Por que foi edificado do outro lado do parque, próximo ao Chapadão do Céu? De quem foi o cochilo? Seria mais uma desatenção de nossos políticos? Chegar ate lá é uma estafante viagem. Um penoso percurso, de mais ou menos 400 quilômetros de ida e volta. Que tem adiantado a presença do parque, em sua maior parte, dentro do município de Mineiros? O que adiantam as suas belezas sedutoras, o seu singular referencial ecológico, cientifico, turístico e paisagístico?
Ao certo, é mais um inditoso descuido mineirense, revelando nossa crônica omissão, favorecendo, contudo, ao ativo município de Chapadão do Céu que, com habilidade política, além de conseguir o principal portão de entrada desse excepcional Patrimônio Natural da Humanidade nas suas proximidades, o programa com veemência na TV, como se fosse de sua exclusiva jurisdição, chateando assim cá os mineirenses que, sem poder culpar o vizinho, admoestam, com justa razão, a inadvertência dos políticos locais. Fazer o que?
Seria ainda uma injustiça contra Mineiros, principalmente à sua mocidade, a hipótese de alguém impedir que a Fundação Integrada Municipal de Ensino Superior (FIMES) de Mineiros, se “estadualize” e se transforme em uma adequada e eficiente unidade de universidade publica, tendo como preceptor a Universidade do Estado de Goiás (UEG), segundo, alias, é o desejo indiscutível da população mineirense.
Trata-se de referencia acadêmico-universitária inquestionável. Patrimônio cultural indelével dos mineirenses e dos que se apaixonam por esta auspiciosa cidade. Todavia, como fundação municipal, não tem como se equiparar ao nível acadêmico-pedagógico, financeiro e operacional de uma universidade publica,tendo como objetivo essencial a produção cientifica e tecnológica, em um espaço aberto a todos. Mestrados e doutorados de aluguel e à distância, seriam evitados.
A criação, autorização, reconhecimento e credenciamento de cursos, seriam facilitados. O mineirense, em qualquer diáspora, teria o orgulho de dizer: “Moro em uma cidade onde existe universidade”.
E para arrematar tantas perdas vejo, em nota divulgada na última terça-feira (10), no Jornal Verde Vale (Mineiros-GO), a Subsecretaria Regional de Educação de Mineiros esclarecendo à comunidade sobre o fechamento de suas portas, previsto para o fim deste mês. A medida foi anunciada no dia 04 de janeiro pelo governo estadual, de forma inesperada e sem o devido aviso prévio aos servidores que prestaram serviços à subsecretaria. O Decreto n° 8.861, publicado no dia 30 de dezembro de 2016, determinou a redução de 40 para 15 o número de Subsecretarias Regionais.
Para os servidores que sempre efetuaram um trabalho com dedicação, empenho e profissionalismo, alcançando os melhores resultados e mantendo o Estado de Goiás numa posição de destaque no cenário nacional, o fechamento trará complicações e transtornos, pois todos os atendimentos foram repassados e serão prestados pela Subsecretaria Regional de Jataí (GO), há 110 km de Mineiros.
Depois de 22 anos de trabalho prestado às cidades goianas de Mineiros, Portelândia, Perolândia e Santa Rita do Araguaia, as portas da instituição se fecham. Nesse jogo de interesses, as partes mais lesadas são a comunidade escolar e a sociedade, que não poderão contar com os atendimentos.
Entendemos que educação, saúde e segurança pública necessitam é de mais investimentos e não de retirada de benefícios e conquistas.Lamentavelmente quem mais perde é a sociedade.
Assim, chega de irresponsabilidades da coisa pública. Desmandos. A hora é de indignação, coragem e ação.
(Martinano J. Silva, advogado, escritor, membro do Movimento Negro Unificado (MNU), da Academia goiana de Letras e Mineirense de Letras e Artes, IHGG, UBEGO; Mestre em História Social pela UFG. ([email protected]))justiç