Brasil

Instinto materno

Redação DM

Publicado em 16 de setembro de 2016 às 02:24 | Atualizado há 10 anos

A gata havia parido na noite anterior cinco novos filhotinhos. Lambuzados do líquido que os embalava no ventre materno, os gatinhos permaneciam com os olhinhos fechados. As patinhas nem tinham garras. A pelagem escassa parecia não lhes ser o bastante para evitar frio. Os bichinhos tremiam. Um ou outro dava um gemido às vezes.

Do alto de seus cinco anos de idade, Solange e Jéssica haviam acompanhado toda a odisseia gestacional da gata Nicole. Melhor dizendo, assim o fizeram quando chegou a notícia de que a fêmea estava grávida. O ato concepção passou batido pelas meninas, embora muito certamente seus pais tenham escutado os ruídos do amor em alguma madrugada qualquer.

– Nasceram os gatinhos?

– São tão fofinhos.

– Quantos?

– Cinco novos filhotinhos.

– Algum já tem nome?

– Ainda não. Estava esperando você acordar para a gente batiza-los.

As amiguinhas estavam ansiosas para ver o ninho embaixo da pia do barracão, num cantinho escuro e protegido de sol e gente. Haviam preparado com um pano de chão velho, doado pela mãe, um tipo de cama para receber os nascituros. Um monte de filhotinhos lindinhos, pequeninos e frágeis. Até que a dúvida veio. Quais eram garotinhas entre os bebês felinos?

– Qual bebê é fêmea?

– Não faço ideia.

– Vamos ver de perto?

– Claro. O que você notou de diferente.

– Aquele gatinho do canto tem duas cores. Deve ser macho.

– Macho? Por quê?

– Minha mãe vive dizendo que homem tem duas caras. Talvez sejam duas cores.

– Deve ser isso mesmo.

– São tão pequenos. Será que os machos miam mais grosso?

– Se for isso, são todas fêmeas. É agudinho o miado.

– O que a gente faz agora.

– Não sei. Estão miando muito agora. A mãe delas não está aqui.

– Será que temos de alimentá-los?

– Eu também acho. Elas mamam, não?

– Minha mãe sempre fala que bebês mamam no peito.

– Deve ser isso.

As meninas passaram o dia com aqueles gatinhos. Estavam encantadas com aqueles bichos pequeninos, trêmulos, mansinhos. Sabiam que não podiam apertá-los. Era coisinhas delicadas, que podiam se partir ao meio em um abraço mais forte. Era preciso jeito maternal para tratar dos bichanos. Sorte que estavam ali.

A Solange voltou para casa iluminando toda a rua com sua alegria. Queria dar as boas novas para sua mãe. Havia contado sobre cada passo daquela gestação abençoada. Cinco novos companheiros de brincadeiras. Uma empolgação que não cabia em si. Até pediria o celular emprestado para bater umas fotos do ninho de gatos. Entrou em casa esbaforida.

– Mamãe, adivinhe!

– Adivinhar o quê, menina?

– Nasceram cinco gatinhos na casa da Jéssica.

– Hoje?

– Acho que sim. São tão fofinhos.

– Que bom minha filha.

– Nós até alimentamos eles.

– Filha, não pode. Gatinhos recém-nascidos não podem comida normal. Apenas mamam no peito.

– Mas foi o que fizemos, mãe.

– Vocês colocaram a gata para dar o peito?

– Não. Eu e a Jéssica demos os nossos.

– Minha filha, você ficou doida? Não pode fazer isso não, meu Deus do céu.

– Relaxe, mãe. Eles ainda nem tem dentinhos…

 

(Victor Hugo Lopes, jornalista)

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