Jango, vice-presidente; João Goulart, vice-prefeito de Serranópolis
Redação DM
Publicado em 19 de janeiro de 2017 às 01:31 | Atualizado há 10 anos
Pelo que me consta, foi o Censo Nacional de 1960 que apontou, pela primeira vez, população urbana brasileira superior à campesina. Em julho daquele ano, dia 31, completei 16 janeiros. Da alvorada de março ao morrer de junho fora aluno interno no colégio salesiano de Alto Araguaia(MT), e agora me volvia ao lar paterno, na encantadora Jataí, para prosseguir estudos no “Ginásio Estadual Nestório Ribeiro.” Então comecei a discursar nas reuniões do “Grêmio Lítero-Teatral Bortolotti Mosconi” e adquiri fama de orador. Dia 21 de abril, como prometera no dia 4 de abril de 1955, nessa dadivosa cidade, ao Toniquinho, Kubitschek inaugurou Brasília, gigantesca obra que completou a “Marcha para o Oeste” principiada por João Alberto e Getúlio com endosso do atrevido Pedro, tão atrevido que mandara construir Goiânia e assim apressou a chegada do porvir.
1960 foi ano eleitoral. Pelo País afora se ouvia cantar “Varre, varre, varre vassosurinha” na exaltação da candidatura do Jânio Quadros à sucessão do grande Kubitschek. A robustez do seu governo não impediu o triunfo da oposição udenista representada no Jânio, que não pertencia à UDN, mas ao pequenino PTN, com o aval do partido do Carlos Lacerda, que lançou Milton Campos para vice-presidente. Cinco anos antes(3.10.1955), Milton perdera a disputa, por esse posto, para João Goulart, o Jango do PTB do saudoso Getúlio, de quem fora fiel aliado, ministro do Trabalho no seu último governo, amigo e conterrâneo, pois ambos nascidos na sul-rio-grandense São Borja. Em 1955, triunfara a coligação PSD-PTB(as duas legendas criadas por Getúlio). Juscelino representava o PSD; Jango, o PTB. Juarez Távora(PDC) e Milton(UDN) compuseram outra chapa que ficou em segundo lugar. Na terceira posição, Ademar de Barros, do PSP( sem postulante a vice-presidente), no quarto lugar, também sem suplente, o integralista Plínio Salgado. Juscelino Kubitschek não obteve maioria absoluta e o mais votado dentre todos os concorrentes não foi ele, mas o Jango.
Em 1960, como acima demonstrado, a aliança PTN-UDN se expressava no Jânio e no Milton Campos. Repetiu-se a união PSD-PTB, mas com Teixeira Lott e Jango. Havia também a chapa Ademar de Barro(PSP) – Danton Coelho( não me lembro a sigla), e a candidatura isolada de Fernando Ferrari para vice-presidente. Apurados os sufrágios, Jânio em primeiro(sem maioria absoluta), Lott em segundo e Ademar em último. Para vice, esta ordem: Jango(superou o Lott), Milton, Danton, Ferrari.
Elegeram-se governadores e vice-governdores em alguns estados, dentre eles, Goiás. Aqui também se celebrou união PSD-PTB e espelhou-se nas candidaturas Mauro Borges e Rezende Monteiro. As Oposições pelejaram, sob as legendas PSP-UDN-PDC, com José Ludovico e José Fleury. Aquele, parente do Mauro e ex-governador pelo PSD. Depois do Estado Novo, essa foi a quinta eleição, em Goiás, para governador. Elas haviam se cumprido em 1947, 1950, 1954, 1958. Juca ou Dr. Juca – como dizia o povo – concorrera e perdera, pelo PSD, em 1947 e em 1954, perdeu também essa, ou seja, de 1960. Em 1954, o candidato udenista Galeno Paranhos ganhara, mas não levara. Juca perdera, porém levara pela fraude oficialmente comprovada por volta de 1963.
Assim como o vice-presidente João Goulart postulou reeleição para período imediato, nessas mesmas eleições o vice-prefeito jataiense, Miguel Gonçalves da Silva( o primeiro que a cidade teve, escolhido nas urnas no ano de 1958) quis continuar, mas o povo preferiu Sebastião Carneiro, o popular Peteca, do PSD. Miguel rompera com o PSD e se candidatou à reeleição por pequeno partido atrelado à UDN. Na campanha, divorciou-se( de fato, não de direito) da oposição e apoiou Cyllenêo França, do PSD, para prefeito, mesmo integrando, em termos oficiais, a composição antagônica encabeçada por Eurípedes Alves Ferreira.
Além do João Belchior Marques Goulart, o Jango,havia, na cidadezinha de Serranópolis, o jovem João Goulart Garcia, pretendente vitorioso,pelo PSD, para vice-prefeito. Talvez houvesse outro João Goulart nas contendas eleitorais de 1960, mas sei somente desses dois. Jango,estancieiro e pecuarista polpudo; João Goulart Garcia, fazendeiro de bom patrimônio, porém muito pobre se comparado ao gaúcho de São Borja. O vice-presidente, da esquerda; o vice-prefeito, acredito, da direita, e deve ter sufragado o seu xará por fidelidade à coligação PSD – PTB. Jango foi o primeiro vice-presidente do Brasil a se reeleger para mandato consecutivo(Urbano Araújo se reelegera, mas não para sua própria sucessão e não exercera o segundo mandato porque, anterior à data da posse, tragara-o a morte). João Goulart foi o primeiro vice-prefeito de Serranópolis, ex-distrito de Jataí elevado a município em 1958, instalado este no dia 1º de janeiro de 1959. Nessa data, Job de Brito, ex-empregado na loja do meu pai, assumiu a Prefeitura nomeado pelo governador, e veio a ser sucedido, dia 31.1.1961, por Alcântara Alves Franco,ganhador da eleição de 3.10.1960. Alcântara, meu parente, possuía muita força eleitoral, era fazendeiro de privilegiada estrutura, professo da Igreja Presbiteriana Independente,tradicional pessedista fiel ao comando de Serafim de Carvalho, líder de maior vigor na política de Jataí( urbe e distritos). Para vice-prefeito, já sabemos, ganhou João Goulart, da mesma Igreja do Alcântara. Jango nasceu dia 1º março de 1918 e morreu em 1976; Alcântara, pelo que me consta, nascera em 1912, ano do casamento de Philadelfo e Ana Isabel, meus avós maternos. Disseram-me que João Goulart Garcia saiu do ventre em 1929, ano de muito sofrimento naquela região imposto pelo facínora Barros e seus lacaios. Azarias Caetano ou Azarias Rodrigues, na dúvida estou, representou a UDN na peleja pela chefia do Executivo. Minha memória não mais identifica o adversário direto do João Goulart. Alcântara e João exerceram seus respectivos cargos de 31.1.1961 a 31.1.1966. Alcântara não mais se candidatou, mas prosseguiu na militância do MDB( rompeu em 1972 e apoiou Hélio Carvalho,da Arena, para prefeito, derrotado por João Goulart por grande diferença. Goulart se elegeu prefeito três vezes(pelo MDB e PMDB) e foi – talvez ainda seja – o maior líder popular serranopolino.
Situa-se a pequena Serranópolis a uns dois quilômetros da fazenda Moranga, adquirida, por compra de Francisco Honório Campos e esposa, pelos meus citados avós Philadelfo e Ana Isabel, que dela se apossaram em 1925 e nela residiram até 1954, quando a venderam para João Goulart Garcia. Nessa fazenda meus pais se casaram, fixaram residência, montaram a “Loja Tupy” e geraram os 4 primeiros frutos(o quinto,em Jataí). Daí nos transferimos para Jataí em 1950..
Como vimos, as eleições de 1960 foram majoritárias e para o Executivo; em Serranópolis, contudo, pelos motivos expostos, elegeram-se também os 7 primeiros vereadores da sua história, com folgada maioria pessedista.
(Filadelfo Borges de Lima, 72 anos, natural de Jataí, morador em Rio Verde há mais de 43 anos, é autor de vários livros, sócio fundador da “Academia Rio-Verdense de Letras, Artes e Ofícios” e do “Instituto Histórico e Geográfico de Rio Verde”; auditor fiscal aposentado, foi conselheiro do Sindifisco/Goiás e da Affego. É maçom grau 33))