Jesus cura uma mulher encurvada
Redação DM
Publicado em 27 de novembro de 2016 às 00:45 | Atualizado há 10 anosJesus estava ensinando numa das sinagogas aos sábados. E eis que havia lá uma mulher possuída há dezoito anos por um espírito que a tornava enferma; andava ela tão encurvada que não podia levantar inteiramente a cabeça.
Vendo-a, Jesus chamou-a e disse-lhe: “Mulher, estás livre de tua enfermidade”.
Ele impôs-lhe as mãos, e ela no mesmo instante se endireitou e começou a glorificar a Deus.
Então o chefe da sinagoga, indignado porque Jesus curava no sábado, tomou a palavra e disse à multidão: “Há seis dias para o trabalho; vinde, portanto, nesses dias para serdes curados, e não no dia de sábado”.
Disse-lhe, porém, o Senhor: “Hipócritas! Cada um de vós não solta no sábado o seu boi ou o seu jumento do estábulo para levá-lo a beber? Portanto, porque motivo não se devia livrar deste cativeiro, em dia de sábado, esta filha de Abraão que Satanás prendeu há dezoito anos?”
A estas palavras todos os seus adversários ficaram envergonhados, enquanto a multidão inteira se alegrava com todas as ações gloriosas que ele realizava. (Evangelho de Lucas, cap. 13, vv. 10 a 17).
A compaixão de Jesus transcendia as amarras de um costume que não correspondia ao verdadeiro sentido da lei judaica que mandava reservar o sábado para o devido repouso. Tradição iniciada desde o tempo em que os hebreus sofriam a escravidão no Egito. As leis judaicas não proibiam que alguém fosse curado em dia de sábado.
O divino Rabi tinha o hábito de ensinar nas sinagogas aos sábados. É provável que esse episódio tenha ocorrido em Jerusalém.
O Evangelho de Lucas é o único a narrar esse episódio. Havia dezoito anos que a mulher curada por Jesus sofria de uma obsessão espiritual que a deixava encurvada.
A mulher encurvada, curada por Jesus, não parecia ser uma frequentadora da referida sinagoga. Conforme a tradição da época, as mulheres sentavam ao fundo do salão, ocupando os últimos lugares da sinagoga. Embora a mulher não houvesse solicitado a cura, o Mestre a viu e a convidou para frente, para a ala dos homens, a fim de curá-la. Diante da mulher enferma, Jesus disse, impondo-lhe as mãos poderosas de incomparável magnetismo curador: “Mulher, estás livre de tua enfermidade”. Naquele instante, o espírito obsessor foi afastado e a mulher “se endireitou e começou a glorificar a Deus”.
Foi o término de uma nociva influência espiritual de dezoito anos. É provável que o obsessor fosse algum espirito ligado à mulher por vínculos afetivos necessitados de perdão. O espírito obsessor consumia as energias vitais de sua vítima numa simbiose persistente. Nesse fato, não se tratava de uma incorporação, mas de uma intensa união fluídica promovida por desejo de vingança.
Para censurar o Mestre por haver curado a mulher em dia de sábado, o chefe da sinagoga recomendou que os enfermos buscassem a cura noutro dia que não fosse o sábado: “Há seis dias para o trabalho…” O homem recorreu ao texto de Êxodo (20:9): “Seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra”.
Diante da crítica velada, o Messias censurou a interpretação equivocada de não se poder curar um enfermo em dia de sábado:
“Hipócritas! Cada um de vós não solta no sábado o seu boi ou o seu jumento do estábulo para levá-lo a beber?”
Para demonstrar que a mulher vivia num cativeiro espiritual causado por um espírito impuro e vingativo e que se tratava de uma israelita digna de toda assistência, Jesus concluiu:
“Portanto, porque motivo não se devia livrar deste cativeiro, em dia de sábado, esta filha de Abraão que Satanás prendeu há dezoito anos?”
Diante desses argumentos irrefutáveis do Mestre, “os seus adversários ficaram envergonhados”, mas “a multidão inteira se alegrava com todas as ações gloriosas que ele realizava”.
Os ensinamentos e as ações de Jesus obtinham a aprovação da imensa maioria da população judaica. Os verdadeiros adversários do Rabi estavam entre os líderes religiosos que não suportavam a sua superioridade messiânica. Além disso, eles se sentiam ameaçados em seus interesses escusos de poder, de fama e de riqueza material.
Não se sabe a respeito da origem moral do sofrimento daquela mulher. No entanto, as influenciações obsessivas resultam de uma sintonia entre espíritos comprometidos em dolorosos resgastes perante as leis de Deus. Ao curar a mulher encurvada, Jesus demonstrou que a mulher não mais deveria prosseguir como vítima daquela obsessão. Provavelmente, ela havia resgatado perante a Lei de Deus os seus débitos morais vinculados a esse sofrimento. Também não se pode descartar a hipótese de haver recebido uma trégua para não mais reincidir nos erros que deram origem à tão doloroso encalço.
Não apenas as perseguições espirituais podem tirar do espírito a dignidade do otimismo e a felicidade da paz espiritual, mas também as tristezas, as amarguras e os ressentimentos contumazes sempre associados ao desrespeito aos valores imperecíveis da vida. Também os remorsos, os sentimentos de culpa, a prática do mal e as viciações perniciosas que afetam a saúde física e o equilíbrio moral são outros fatores que corroboram com o encurvamento do espírito.
Ao longo dos milênios, são raras as encarnações que não tenhamos vivido sob o peso horrendo da criminalidade moral. Nesse sentido, o que faz o espírito chafurdar no encurvamento do estacionamento evolutivo são, como disse Jesus: “os maus pensamentos, as prostituições, os furtos, os homicídios, os adultérios, as cobiças, as malícias, os falsos testemunhos, o dolo, a insolência, a inveja, a difamação, a soberba e a loucura” (Marcos, 7:21-22).
Jesus, no entanto, convida-nos, mesmo encurvados espiritualmente, para que saiamos do fundo da insignificância moral e nos apresentemos a ele numa posição de destaque, para sermos curados, sob o poder de sua autoridade e a magnitude do seu amor.
Há mais de dezoito séculos a voz do Cristo nos convida por meio das sinagogas da consciência para o momento redentor da cura tal qual fez com a mulher encurvada e também com apóstolo Paulo a caminho de Damasco, esperando de nós o sublime e corajoso posicionamento paulino: “Senhor, que queres que eu faça?” (Atos, 9:6).
(Emídio Silva Falcão Brasileiro, orador espírita, escritor, advogado, professor e doutor em Direito. Autor da obra O Direito Natural e a Justiça Quântica. Membro da Academia Espírita de Letras do Estado de Goiás.)