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Jesus lamenta e profetiza a respeito de Jerusalém

Redação DM

Publicado em 14 de janeiro de 2017 às 23:54 | Atualizado há 9 anos

“Jerusalém, Jerusalém, que mata os profetas e apedrejas os que te foram enviados, quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como uma galinha recolhe os seus pintinhos debaixo das asas, e não o quiseste! Eis que a vossa casa vos ficará deserta. Digo-vos, pois, que desde agora não me vereis, até o dia em que direis: ‘Bendito o que vem em nome do Senhor!’”

(Evangelhos de: Mateus, cap. 23, vv. 37 a 39 – Lucas, cap. 13, vv. 34 e 35).

 

Depois de responder a ameaça de Herodes, ainda da Pereia, Jesus lamenta a situação espiritual dos que viviam em Jerusalém.

Embora nenhum profeta houvesse nascido em Jerusalém e sim de pequenas cidades e aldeias, alguns sucumbiram em Jerusalém ou foram perseguidos por governantes de Jerusalém sob o peso da ignomínia e o grilhão da ignorância.

Segundo a tradição judaica, Manassés, rei de Judá, ordenou a morte de Isaías (765 a.C.), mandando serrar ao meio, em Jerusalém. Jesus informa que Zacarias (521 a.C.) foi morto entre o santuário e o altar do Templo de Jerusalém (Mateus, 23:35). Também Jesus perseguido e crucificado em Jerusalém, de onde também partiram a sentença de morte de João Batista e inúmeras perseguições aos profetas de Deus.

Ao longo dos séculos, a cidade de Jerusalém foi palco de atrocidades contra os que falavam em nome de Deus. O lugar passou a concentrar energias negativas, muitas das quais estavam vinculadas ao clamor de familiares e de amigos dos que padeceram à sombra da injustiça. Mágoas e ressentimentos, memórias fúnebres e cultura de vingança impregnaram os ambientes físico e psíquico de Jerusalém.

Em contraste com a cultura sanguinolenta, verifica-se a busca de um povo que mantinha tradições de fé, mas, não raras vezes, cultuadas por rituais e aparências.

Segundo a narrativa bíblica, Jesus chorou três vezes: quando Lázaro foi considerado morto (João 11:33-37); diante de Jerusalém porque sabia que a cidade seria devastada no ano 70 d.C. (Lucas, 19:41-42) e enquanto orava a Deus no monte das oliveiras antes de ser preso (Lucas, 22:44 e Hebreus, 5:7-9). Desse modo, o Mestre chorou diante dos homens, diante de uma cidade e, em oração, diante de Deus.

É lamentável o nível evolutivo de um lugar que foi o berço da mais pura fé em Deus; organizada como cidade há 2.600 anos a.C., mas foi fundada por Sem, filho de Noé.

O meigo Rabi busca no mais belo exemplo de proteção entre os animais para demonstrar o seu amor e o seu zelo por Jerusalém: “Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como uma galinha recolhe os seus pintinhos debaixo das asas, e não o quiseste”.

Do mesmo modo que o espírito, as cidades ou coletividades também recebem a assistência dos bons espíritos. O Mestre revela o esforço que fez ao longo dos séculos para inspirar a fraternidade aos habitantes de Jerusalém, mas sem êxito. Afinal, o livre-arbítrio é respeitado e cada coletividade sempre colhe o que semeia diante das leis soberanas de Deus.

Até os dias atuais, Jerusalém nunca gozou de plena paz. Continua sendo um ponto de conflitos, de atentados e de dissensões. Parece que não há em nosso planeta um lugar mais tenso e mais preocupante para se viver do que Jerusalém. Ainda assim, é considerada a capital mundial da fé, onde concentra os interesses das maiores religiões do mundo. É a cidade sagrada dos judeus, dos cristãos e dos mulçumanos.

Jerusalém, no entanto, resistiu e resiste aos inúmeros ataques e também sofreu duas destruições: a primeira foi em 587 a.C. por Nabucodonosor, rei da Babilônia (2Reis, 25; 2Crônicas,36 e Jeremias,52) e a segunda foi em 70 d.C por Tito, futuro imperador de Roma, quando o Templo foi destruído e até os dias atuais não mais foi reconstruído. Fato que lembra a profecia de Jesus ao falar do Templo de Jerusalém: “Não ficará pedra sobre pedra que não seja derrubada” (Lucas, 21:6).

Segundo Flávio Josefo, em sua obra Guerra dos Judeus (VI, 9.3), cerca de 1.100.000 habitantes foram assassinados durante o ataque romano a Jerusalém. Provavelmente, foi essa mais uma das razões do Mestre ter dito durante a sua via crúcis: “Filhas de Jerusalém, não choreis por mim, chorai antes por vós mesmas e por vossos filhos…” (Lucas, 23:27-31). É o resultado da Lei Natural de Justiça diante de um povo que não busca a fraternidade e a justiça como fundamentos da convivência.

Ao conhecer a realidade espiritual dos habitantes de Jerusalém, o Mestre além de lamentar também profetizou: “Ei que a vossa casa vos ficará deserta”, ou seja, Jerusalém colherá as consequências nefastas que semeou também por meio de sacrifícios e assassinatos aos mensageiros de Deus.

Jesus prossegue a sua profecia, lembrando o salmo 118, especificamente o versículo 26: “Bendito aquele que vem em nome do Senhor; nós vos bendizemos desde a casa do Senhor”. Nesse sentido, o Mestre afirma:

“Digo-vos, pois, que desde agora não me vereis, até o dia em que direis: ‘Bendito o que vem em nome do Senhor!”

Numa visão imediata, Jesus explica que até a sua entrada triunfal em Jerusalém, não mais apareceria nessa cidade. Numa visão em longo prazo, o Mestre também afirma que somente cuidará de Jerusalém quando for solicitado e compreendido, mais uma vez pondo em prática o seu ensinamento: “Não deis aos cães as coisas santas, nem dei aos porcos as vossas pérolas para que não suceda de que eles as pisem e que, voltando-se contra vós, vos dilacerem” (Mateus, 7:6).

O que confirma as explicações dos Espíritos na obra O Livro dos Espíritos (Editora FEB). Allan Kardec na pergunta 495 indaga aos espíritos superiores: “Poderá dar-se que o Espírito protetor abandone o seu protegido, por se lhe mostrar este rebelde aos conselhos?”

Os espíritos respondem:

“Afasta-se, quando vê que seus conselhos são inúteis e que mais forte é, no seu protegido, a decisão de submeter-se à influência dos Espíritos inferiores. Mas, não o abandona completamente e sempre se faz ouvir. É então o homem quem tapa os ouvidos. O protetor volta desde que este o chame”.

O ensino que se refere ao relacionamento entre um Espírito protetor e seu protegido também corresponde à relação entre os Espíritos protetores e uma coletividade.

Jesus sentiu misericórdia diante da frágil condição espiritual dos habitantes de Jerusalém, demonstrando tristeza, mas também resignação diante das poderosíssimas ações das Leis de Deus.

A Jerusalém nos dias de hoje é o orbe terrestre. O Mestre lamenta as sombras das injustiças que ainda imperam em diversas regiões do nosso planeta. De algum modo, somos responsáveis por cada sangue derramado, por cada enfermidade e por cada ser faminto e abandonado que transita em nosso derredor. É verdade que ninguém é obrigado a receber a nossa ajuda, mas somos devedores daqueles que não têm mais forças para sobreviver, viver e conviver com dignidade. Esses esperam de nós alguma providência. Cuidemos, portanto, da nossa Jerusalém consciencial para que o Mestre não mais lamente a respeito do nosso estado evolutivo e nem venha a se afastar devido a nossa má vontade. Abramos os nossos braços e corações aos aflitos deste mundo e veremos que um dia o Cristo de Deus dirá para cada um de nós: ‘Bendito o que vem em nome do Senhor!’.

 

(Emídio Silva Falcão Brasileiro, professor e educador, mestre em Educação, jurista, doutor em Direito, pesquisador, autor do livro O Livro dos Evangelhos, membro da Academia Goianiense de Letras e da Academia Espírita de Letras do Estado de Goiás)


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