Juramento de hipócritas
Redação DM
Publicado em 6 de julho de 2016 às 03:02 | Atualizado há 10 anosA operação criminal que revelou a forma como médicos, enfermeiros e paramédicos conduzem os pacientes que necessitam de socorro de emergência, direcionando-os para hospitais e UTI (unidade de terapia intensiva) obedecendo a acordos previamente ajustados, mediante o pagamento de subornos, pode ter causado estarrecimento apenas naquelas pessoas que não conhecem a rotina de quem precisa de atendimento médico e se vê obrigada a enfrentar as agruras de ter de percorrer caminhos tão penosos. Se a operação policial impressionou por trazer relatos de pessoas insensíveis sobre como os pacientes são tratados, imaginem pelo que passam os familiares e os pacientes que se veem como meros clientes ou objetos de uma expectativa de ganho financeiro de uma medicina cada vez mais corporativa e mercantilista.
A frieza e a desumanidade dos autodenominados “profissionais da saúde” são condizentes com a atual crise de humanidade e, consequentemente, de uma nefasta inversão de valores, onde o amor e o respeito ao próximo foram substituídos pela “mais-valia” na qual o ser humano não passa de uma peça com perspectivas de lucro ou de uma conveniência para a satisfação de interesses egoístas. As atitudes dos “profissionais da saúde”, comportando-se como abutres famintos e ávidos para tirarem o máximo proveito das desgraças e aflições alheias, revelam o caos teleológico e a plena indigência deontológica da classe médica já na fase de suas formações acadêmicas. A quase totalidade dos estudantes de Medicina no Brasil é oriunda de uma classe social elitizada, portanto, soberba e encrustada numa cultura segregacionista, individualista e de absoluto desprezo pelo ser humano, com maior ênfase àquelas pessoas pertencentes a classes de inferioridade financeira. Essas são vistas apenas como cobaias para seus ensaios e pretensões de enriquecimento. Essa elite, em razão de sua mentalidade que cega-lhe, limitando os horizontes – que a compele a enxergar tão somente aquilo que a sua sanha obsessiva lhe permite, o lucro – abomina qualquer política pública que possa propiciar saúde de qualidade e universal capaz de atender àqueles que precisam. Para essa classe, é preciso manter um grande contingente de miseráveis formando uma sociedade de enfermos que deve servir como azeitamento para movimentar as engrenagens sinistras de enriquecimento de médicos, donos de hospitais, indústrias de produtos hospitalares e laboratórios; além de ser uma extraordinária fonte de corrupção para políticos inescrupulosos. Não é por acaso que no Brasil nunca é implementada uma política de assistência à saúde preventiva e existe sempre uma legião de mafiosos trajando branco empenhados não apenas em vampirizar os recursos públicos destinados à saúde, mas, principalmente, em sucatear a estrutura estatal de atendimento à saúde como uma forma de assegurarem o monopólio da última palavra sobre a saúde e a vida da população.
A esse propósito, em artigo anterior deste missivista, fora abordado o seguinte: “por que o programa “Mais Médicos” do governo federal desperta discussões tão acirradas? Existe uma sanha obstinada para alijá-lo ao anátema que quase se leva a crer que os seus oponentes têm razão em abominá-lo. O que há por trás dessa implacável campanha capitaneada por um batalhão considerável de médicos que, de tanto vituperarem, conseguem aliciar um grande número de séquitos e simpatizantes incautos? Antes, convém recordar, a ira foi dirigida aos próprios médicos estrangeiros que aqui desembarcaram. Em São Paulo, uma médica brasileira referiu-se a uma cubana como “médica com cara de empregada doméstica”; Em Fortaleza, um médico cubano foi epitetado de “negro escravo”. As agressividades esbarraram na pronta reprovação da opinião pública. Por esta razão, tiveram que inventar novos pretextos para continuarem com os ataques ao programa “Mais Médicos”. Desta forma, os médicos brasileiros perdem-se em seus cipoais de incongruências: ora fingem que estão preocupados com os médicos estrangeiros que, sem garantias trabalhistas, estão sendo submetidos ao “trabalho escravo”, ora alegam estar preocupados com a saúde da população carente. Esta é, de todas, a mais bizarra.
Desde quando a saúde da população carente foi motivo de preocupação por parte da elite médica brasileira? O governo federal somente contratou médicos estrangeiros porque os médicos brasileiros não dão a mínima para a população pobre, notadamente a das regiões Norte e Nordeste. Alegam falta de estrutura e que o governo deveria investir mais na formação de profissionais de saúde. Mas há, sim, vultosos investimentos em saúde no Brasil. O problema é a corrupção. E esta se dá em todos os níveis da estrutura do Sistema Único de Saúde (SUS), inclusive (e principalmente) por parte de muitos médicos, aos prescreverem remédios e exames em demasia e desnecessariamente, em conluio tanto com os laboratórios de análises clínicas quanto com a indústria farmacêutica. Sem contar a “indústria da judicialização” do atendimento à saúde, onde médicos indicam como tratamento remédios de alto custo não disponibilizados pelo SUS e encaminhamentos para hospitais de outros países. Por isso muitos médicos são premiados com viagens, hospedagens, participação em congressos, etc, pagos por laboratórios. Recusar a prestação de serviços médicos em regiões carentes, mesmo sendo remunerado é uma perversidade e uma ingratidão. Perversidade por demonstrar absoluto desprezo à vida, conduta oposta aos juramentos de Hipócrates; Ingratidão porque, grande parte dos médicos brasileiros formou-se em universidades públicas e gratuitas, às expensas do contribuinte, inclusive do pobre cidadão a quem lhe é negado o atendimento médico básico. Argumentam que a vinda de médicos estrangeiros vai tirar o emprego do médico nacional. Mentira! Os médicos estrangeiros só são encaminhados àqueles lugares onde os médicos brasileiros se recusam a prestar seus serviços.
Por outro lado, não há nenhuma notícia de que há médicos desempregados em razão da vinda dos estrangeiros. A grande maioria dos médicos que se formam em universidades públicas rejeitam qualquer ideia de prestar, ainda que por curto período, assistência às comunidades pobres. Ao invés disso, miram seus estudos de pós-graduação no exterior, novamente às custas do Erário, com bolsas de estudos financiadas através do Conselho Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ) e CapesS (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior). Muitos desses bolsistas são classificados como “golpistas”, pois, ao concluírem suas especializações, optam por permanecer no exterior, deixando o contribuinte brasileiro, mais uma vez, sem o retorno para o qual investiu. O percentual de médicos estrangeiros no Brasil é ínfimo, chegando a 1,7%. Na Inglaterra são 37%, nos EUA, 25%. O Canadá também conta com um grande contingente de médicos estrangeiros, muitos dos quais, brasileiros que se formaram no Brasil, em universidades públicas e gratuitas. O presidente da Associação Paulista de Medicina (APM) não escondeu essa cultura de um significativo número de malandros que se vestem de branco. Segundo ele, “bons médicos querem trabalhar no primeiro mundo”. Não haveria nenhum problema nisso, se não fosse um detalhe: Vão chegar prontinhos para serem úteis às políticas de saúde de outros governos, em outros países, sem que estes tenham tido nenhum gasto na formação desses médicos. Uma pessoa para se formar em Medicina nos EUA, por exemplo, deve desembolsar em torno de uns 100 mil dólares.
Em raríssimas exceções, o governo financia os estudos de quem é comprovadamente pobre, mas este deve ressarcir o financiamento após a formatura. Em sociedades com baixíssima evolução civilizatória, sentimentos primitivos de ódio e sadismo sectários são muito recorrentes como forma de referencial social. É dizer: submeter o semelhante às mazelas, caprichos, angústias e humilhações, constitui o sinal mais convincente de sensação de ascensão e sentimento de superioridade. Talvez reside aí a explicação fenomenológica que justifica tanta execração ao programa “Mais Médicos”. É o ódio sádico diluído da bílis de muitos médicos contra a população brasileira carente. Tão miserável, mas tão útil ao ciclo vicioso que sustenta tantos interesses corporativistas, numa simbiose funesta”.
É inegável que ainda existem e, espero, sempre existirão médicos vocacionados e conscientes da importância e da grandeza da verdadeira medicina. Estes, engrandecem o ofício, preservando essa tão elevada arte em seu lugar de destaque, tendo sempre em mente os ditames de suas consciências auxiliados pelos mandamentos de Hipócrates (460 a.C. – 377 a.C.), considerado o “pai da medicina”, que um dia juraram seguir: “juro, seguindo o meu poder e a minha razão aplicar o meu entendimento para o bem do doente, nunca para causar dano. Conservarei imaculada minha vida e minha arte. Em toda casa, entrarei para o bem dos doentes, mantendo-me longe da todo o dano voluntário e de toda a sedução”.
Os que fazem da medicina uma mercancia sem escrúpulo e da pessoa do médico um mercador venal e criminoso, valendo-se da doença alheia como um abutre à espreita para agravar-lhe o estado de saúde e saciar a sua cobiça e sanha mercadológica, faz-nos imaginá-los, quando do compromisso na cerimônia de colação de grau, deixando escapar pelos escaninhos do riso as palavras vazias como sendo aqueles que fazem da vida alheia uma jogatina. Estes são os que convertem, com abominável cinismo, os mandamentos de Hipócrates em um juramento de hipócritas.
(Manoel L. Bezerra Rocha, advogado criminalista – [email protected])