Lá se foi… Quem não foi minha
Redação DM
Publicado em 29 de julho de 2016 às 02:08 | Atualizado há 10 anosE ela surgiu… Bela, vestido contornando as curvas do corpo, morena, linda, sapato de salto alto, vistosa, perfumada…
Olhava-o como se houvera dominado sua presa. Que ficou deslumbrado. Não havia percebido, ainda, o quanto era perfeita, a linda morena, que, finalmente, lhe disse, explicando sua aparição à porta de sua casa.
— Vim para dar uma volta com você, neste bairro longe do centro…
— Mas você está linda, pronta para uma festa?
— Não, disse ela, pronta para você…
Notando que ele não entendia nada, deu-lhe a graça de uma explicação.
— Estou pronta para o meu último dia de solteira… Com você!
— Você vai se casar então?
— Sim, vou. Não pude lhe esperar…
E foi mais clara:
— Você nem se deu por conta, sequer, que eu te amei a vida toda e sempre me tratou como uma colega de escola. Daquelas que você só lembra quando não tem outra ao seu lado…
— Nossa! Exclamou. Eu fui assim?
— Sempre foi.
— Oh, desculpe-me, Omaíra…
— Mas como o Rilmar vivia pedindo minha mão em casamento, desistiu de o fazer a mim, e foi pedi-la a meu pai…
— E dai? Indagou Lucas.
— Meu pai demorou um mês esperando minha decisão…
— Mas eu não sabia de nada! Explicou o rapaz.
— Foi o que notamos. Explicou Omaíra. Rilmar foi diante do meu pai e forçou a barra dizendo que “você não estava nem aí” para nós e até nos viu sair juntos do cinema…
— É verdade Omaíra. Juro que eu não sabia que estávamos namorando… Afinal, nunca nos falamos de namoro mesmo, né?
—Tive que aceitar o convite do Rilmar.
— E agora? Indagou o interlocutor, ex-pretendente dela.
— Agora, meu namorado favorito, vim despedir-me, oferecendo “meu último dia a você, com quem eu queria viver toda uma vida de casada”…
— Engraçado… Vocês pensam… Resolvem as coisas… Deliberam… Mas nunca falam nada… De repente, eis a surpresa!
— Se você, que agora sabe de tudo, estiver disposto a casar-se comigo?…
— Agora é tarde. Respondeu Lucas. Tanto o rapaz quanto a família de ambos estão, todos, comprometidos… Agora é tarde… Muito tarde…
E assim conversando o jovem casal passeava pelo jardim daquele bairro. Ela linda. Mais do que nunca. O rapaz feliz por saber-se amado por ela, mas intimamente massacrado por ter sido tão grandemente distraído…
Sentaram-se num banco do local tranquilo e, entre as folhas e borboletas, se entreolhavam mudos, pensativos e tristes.
“Meu Deus, como ela é bela! Que amorenado igual… que sorriso… por que não me disse antes que me pretendia como esposo”? Pensava Lucas…
— Mas me escolheu para sua companhia no seu último dia de solteira? Por quê?
— Nesse dia — disse ela — talvez você não saiba, tanto o noivo quanto a noiva, têm direito ao seu último dia de solteirice…
— Sim. Sabia. Só não sabia que o nosso estava tão próximo…
— É… Enquanto você se envolvia com tantas… — O tempo passou.
— Por que você me escolheu?
— Eu já lhe disse… Você foi o único…
— Não. Não fui. Havia o Rilmar!
— Porque ele me ama! Lutou. Pediu minha mão!
— Ok… Entendi… Não era para ser a minha…
E de braços abertos ao longo do encosto do banco, tendo Omaíra ao seu lado, e esta, percebendo-o calado, disse-lhe:
— Não se preocupe, Lucas. Ele foi passar seu último dia em Goiânia e eu não disse a ninguém que viria ao seu encontro… Último anseio… Último desejo…
E ali ficaram os dois até que anoiteceu. A lua os iluminava e às flores do jardim, enquanto a brisa beijava suas frontes e seus lábios trocavam o último beijo.
— Agora preciso ir… Sozinha…
— Eu sei.
Levantou-se… Ajeitou o corpete do vestido… Sorrindo soprou-lhe um último beijo levado pelo belo e sorridente adeus!
— Adeus, meu querido… Foi maravilhoso… Enquanto durou…
— E daqui para frente? Indagou Lucas.
— Só Deus o sabe.
E foi saindo de mansinho, tisnada pelo prateado beijo da lua.
Enquanto o rapaz, triste, no banco, concluía, com voz quase apagada.
— Lá se foi quem não foi minha.
(Iron Junqueira, escritor)