Lama & Fujão, no meu aquário
Redação DM
Publicado em 29 de março de 2022 às 16:03 | Atualizado há 4 anos
Chegados recentemente a minha casa, passaram por um período de adaptação em água salobra. Eles são peixes africanos, andam nas pedras molhadas e comem na minha mão.
É muito interessante ficar observando-os. Com seus olhos grandes e rotatórios, eles enxergam dentro e fora d’água. Trafegam por todo o grande recipiente, moldado e adaptado para eles. Apenas metade do vidro está cheio. Plantas e areia. Muitos esconderijos e vários participantes. Todos da mesma espécie, adoram se mostrar.
Lama é mais discreta e ao mesmo tempo ousada. Sobe no vidro com suas nadadeiras (ou patinhas?) e salta rápido na sua bacia salgada. E lá fica observando os demais em cima de uma pedra preta, a qual escala com facilidade.
Fujão é um atleta. Forte, elástico. Come a artêmia salina como se fosse a última refeição de sua vida. É um pouco maior do que Lama. E não tem medo de nada. Posso chegar com a mão e até tocá-lo. Ou mesmo filmá-lo e fotografá-lo, coisas que ele adora.
Não há como não fazer um paralelo com um programa de TV de grande audiência. É o mesmo aquário festivo. Cheio de personagens extremamente narcísicos. Uns são Lama e outros Fujões. Muito rasos em suas colocações e comportamentos, assim como meus peixinhos recém-chegados. Fica a impressão de que faltam peixes normais. Apenas as exceções seguem a regra da casa.
Há uma exagerada politização comportamental, uma tremenda necessidade de gritar. – Oi, olhem para mim, estou aqui! Nem sei mais se estou escrevendo sobre o programa ou sobre os novos moradores…
Essa capacidade de transitar em dois mundos, o aquático e o terrestre, parece ser agora uma necessidade vital. Mergulhar no mundo virtual, das redes socias e descobrir o que é ser “cancelado” e receber milhares de “likes” e ter também milhares de seguidores. Isso importa demais. O mundo terrestre, onde se vive realmente, come, ama e conversa olhando nos olhos, está em decadência. Assim como imagens espontâneas e simplesmente estar… triste. Falta autenticidade. Ou será que todo o mundo segue o mesmo padrão de vestimenta, cabelo e fala? Ou será que todo mundo está diuturnamente alegre, quiçá em êxtase?
Então resolvi filmar os peixinhos sem a minha presença. Percebi que eles mudam. Ficam mais calmos. É como se a plateia os alimentasse. Como se precisassem serem vistos para terem aquele comportamento mais exótico. Mais forçado.
Então deixei a comidinha deles num isopor. Em um outro ambiente, fazendo com que eles tivessem a premência de se deslocarem. Onde o mergulho seria apenas o estritamente necessário. E não é que deu certo? Agora interagem um com o outro. Lama e Fujão. Já não mais se sujam com palavras ao léu e nem escapam de problemas que por ventura tenham que enfrentar.
Talvez eu comece a dar livros para eles. Onde está o real conhecimento. E não a imagem falada de um clique. Talvez eles deixem de ser plantonistas de redes socais. E criem um grupo coeso de peixes e vivam num cardume bacana e próspero. Nas duas esferas. Real e imaginária. Onde possam chorar e ter prazer, sem se exporem.