Brasil

Latumia

Redação DM

Publicado em 18 de junho de 2016 às 03:51 | Atualizado há 10 anos

Latumia era uma expressão muito usada pela minha vó Clarinda, quando queria dizer que alguém estava falando além da conta e sem utilidade. Os principais dicionaristas conceituam essa expressão como “acepção de vozerio, barulheira,  lamentações de uma ou mais pessoas, choro de crianças ou também choro de pessoas em velório.”

Minha vó Clarinda era analfabeta e viveu boa parte de sua vida na zona rural da cidade de Rianápolis, interior de Goiás. No final da década de 70 mudou-se com toda a família para a cidade de Uruaçu. Conheci a palavra latumia através dela, mulher incansável nos afazeres domésticos. Criou dez filhos e enterrou dois. Acometida do mal de Alzheimer e do enfado da lida cotidiana, Deus consentiu em recolhê-la há cinco anos.

Apesar de nunca ter frequentado a escola, minha vó era sábia e se referia ao termo latumia, principalmente quando estes a visitam pela época das eleições. Nunca acreditava neles e com razão, sempre dizia: “esses políticos fazem uma latumia e não resolvem nada.”

Lembrei dessa expressão agora, quando as eleições municipais estão chegando. Já estou ouvindo muita latumia e poucas propostas dos políticos de sempre. Todos eles reclamando da crise, da corrupção, dos partidos políticos, da falta de dinheiro, mas nenhum sabe como resolver todos esses problemas; Como dizia a letra da música imortalizada na voz de Caetano Veloso “Enquanto os homens exercem seus podres poderes, motos e fuscas avançam os sinais vermelhos e perdem os verdes, somos uns boçais.”

Sim, Caetano, somos uns boçais, outra palavra não muito comum, mas que expressa a ingerência dos eleitores que elegem sempre os mesmos políticos baseados na latumia, que aproveitando da ignorância do povo, conseguem se eleger.

A moda agora é a delação premiada. Ainda bem que caguetar é uma das especialidades de muitos políticos no Brasil, principalmente quando são descobertas algumas falcatruas e para não serem presos, a saída é dedurar o colega. Entre verdades e mentiras, o caguete também pode ser uma latumia, em geral, quando os políticos corruptos tentam desqualificar o colega, forjando delações para não ficarem sujos sozinhos na enrascada.

As eleições estão chegando, o número de candidatos que frequentemente fazem promessas sem ter condições de cumpri-las é infinitamente maior do que o número daqueles que concorrem a uma vaga na câmara municipal. Infelizmente é assim e sempre será, enquanto a sociedade não perceber o poder que tem através do voto.

 

(Cleiber Fernandes dos Santos, professor universitário)

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