Lembranças dos tempos de escola – Parte XII
Redação DM
Publicado em 8 de outubro de 2015 às 22:26 | Atualizado há 11 anosNa verdade, quando eu ainda era muito pequeno, talvez tivesse oito ou nove anos, eu morava numa cidade muito longe com a minha irmã Luzi que se casara e fora embora. Seu esposo e ela tinham um bar e restaurante de beira de estrada e um dia um policial que costumava almoçar lá me flagrou tragando uma bituca de cigarro de fumo deixado por algum cliente e contou a ela. Contudo, aquilo não virou um vício. Não fui severamente reprimido, porém fui imediatamente orientado para não prosseguir com tal comportamento. O fato de anos mais tarde voltar a experimentar não foi nenhuma influência de colega, era somente curiosidade, prova disso é que ninguém do nosso grupo adotou o hábito de usar essas coisas e, olhe que nossos pais, alguns fumavam e outros bebiam. Mas nem por isso nos influenciou. Das duas ou três vezes que tentei experimentar cigarro, não soube tragá-lo e sofria engasgos com a fumaça. Hoje sou grato por não ter habituado a usar essas drogas que denigrem a saúde. Não lembro de nenhum colega que anos mais tarde viesse a fazer uso do tabaco. Nem mesmo Negão. Sei que alguns bebem até hoje, socialmente, outros chegam a exagerar um pouquinho e outros ainda que se entregaram a embriaguez.
Outro costume nosso era de nas tardes de sábados e domingos passar todo o tempo na casa de Roney, jogando cartas, dominós e palitos, com seus irmãos e amigos, apostando balas doces e sujando a casa para depois Mirtes, a irmã deles limpá-la.
Já que acabei de lembrar da Mirtes vou aproveitar o momento oportuno para apresentar a figura ao paciente leitor: entre as três irmãs de Roney, Mirtes era a caçula, uma amante da música romântica e sertaneja. Ela cantava durante vinte e quatro horas por dia. Nunca cheguei à sua casa para encontrá-la de mau humor e olhe que eu era um nato frequentador da casa de Roney. Ficava imaginando de onde ela tirava tanta energia. Era tão singela que por mais que sujássemos a casa, ela a limpava sem reclamar.
Zeno também era do tipo que não levava desaforo para casa, ou de pavio curto, se preferir. Houve uma vez em que tinha um sapeca, na verdade um rapazinho, um pouco mais velho que Zeno, creio. Esse rapaz nos provocava muito e quase sempre estava querendo nos bater e se tivéssemos dado mole ele teria nos batido realmente. Não entendíamos a razão de ele querer nos maltratar, visto que não fizemos nada de ruim para com ele. Mas o moleque insistia em nos atacar. Fôssemos para a escola ou para outro lugar qualquer ele estava lá nos hostilizando.
Chegou um momento em que Zeno resolveu pregar uma peça para o danado e começou a planejar. Aconteceu que esse cara acostumava guiar uma charrete e ir nela para todos os lugares. Todas as vezes que ele passava em nossa rua alinhava um dos pneus do veículo num esgoto fétido que ficava a céu aberto no meio da rua. Fazia isso ao bel prazer simplesmente para nos provocar. Então, Zeno preparou uma pequena tábua cheia de pregos com pontas afiadíssimas e lançou dentro do raso esgoto. Quando o rapazinho passou com o pneu da charrete dentro da vala, os pregos e a tábua saíram grudados no pneu que secou instantaneamente. Se para ele aquilo foi um desastre, para nós foi um momento de vibração. Em silêncio, espiando pela fresta da janela, sentíamos nosso ego agitar-se.
Apesar de dizer que tive muitos momentos de timidez, hoje reconheço que eu era muito traquina mesmo, admito, mas minhas traquinagens eram provocadas por atos de curiosidades. Prova disso foi um acidente que sofri quando cursava a segunda série, no ano em que minha família ficou morando na chácara do amigo do meu pai, no perímetro urbano.
Era costume, nos dias de São João, a família acender uma grande fogueira no meio do terreiro e naquele ano não foi diferente. Logo que chegou a noite de vinte e três do mês de junho, épocas de festejos juninos, uma fogueira foi acesa no meio do terreiro e ali ficou por muito tempo até o dia de São Pedro. Durante o dia ela ficava preguiçosa, semi-apagada, faminta de lenha e reduzida em cinzas, durante a noite as labaredas ressurgiam estralando de felicidade, corroendo parte da noite e clareando o mundo ao seu redor. Passado o dia de São João Batista, numa manhã em que só estava em casa minha irmã, um irmão, papai e mamãe que estava doente. Aproveitando o fato de mamãe estar enferma tive a infeliz ideia de pegar um pouquinho de pólvora, um papel e uma pequena bombinha, parecida com um palito de fósforo, chamado popularmente de traque. Confeccionei uma bomba bem maior, peguei uma brasa, uma velha gaveta plástica da máquina de costura e, tentando explodir a bomba, encostava o seu pavio que, no caso, era a cabeça do traque na brasa e, em seguida, empurrava a gaveta da máquina para me proteger de uma suposta queimadura, caso o artefato viesse a explodir realmente. Numa dada hora, depois de repetir aquele ritual por diversas vezes, estava agachado com as nádegas saudando o sol, soprei a brasa e nela encostei o pavio da bomba. Antes de empurrar a gavetinha da máquina para cobri-la, a bomba explodiu me atingido e queimando o meu rosto, pescoço e ombro esquerdo. Fiquei apavorado sem saber o que fazer. Corri em direção às caixas d’água com a intenção de dá um mergulho para diminuir o ardor. Estando o meu irmão lá nas proximidades voltei imediatamente para me esconder. Também me lembrei que eu estava muito quente, pois fiquei muito tempo, de bunda para o sol, soprando as brasas. Não poderia me arriscar entrando naquela água fria! O choque do meu corpo quente com a água fria poderia ser pior que as queimaduras? Eu não era físico, tampouco, médico! Preferir não me arriscar.
Ao passar por certo local, nas proximidades da casa, minha irmã notou que eu estava parecendo um frango no borralho, com o corpo em cinzas e muito assustado. Ela perguntou o que havia acontecido. Falei-lhe que ao passar perto do fogo, fui alvo de uma explosão. Acredito não tê-la convencida, mas foi a única desculpa que encontrei naquele momento de pavor. Estava todo queimado, porém, não tinha noção da gravidade dos fatos. Somente depois fui informado de que tive queimaduras de primeiro, segundo e terceiro graus.
Mamãe estava deitada, com a voz fraca, cansada por causa da enfermidade e perguntou apavorada para a minha irmã Talita o que estava acontecendo. De início minha irmã tentou poupar a mamãe, mas de modo cauteloso teve que contar o ocorrido. Papai que acabara de chegar do mercado voltou imediatamente para a farmácia para comprar um remédio para aliviar a ardência do meu corpo provocada pelas queimaduras, enquanto isso a minha irmã cuidava de preparar o almoço, velar por mamãe e me abanar com um leque improvisado com papelão a fim de conter a sensação de ardor que consumia a minha pele.
O remédio que papai trouxe foi uma mão na roda, pois ao usá-lo a ardência, que mais parecia um corrosivo invisível, diminuiu e dentro de poucas horas eu já não sentia mais nenhuma dor. À tarde quando mamãe ameaçou a se levantar tive que me apressar para tomar um banho, pois ela não poderia me ver com o corpo todo sujo de pólvora, cinza e remédio. Minha pressa foi em vão, mamãe acabou se levantando e me vendo imundo. As marcas das queimaduras ficaram por muito tempo no meu corpo e hoje as cicatrizes ainda estão enclausuradas em minhas lembranças. Mas o que eu não gostava mesmo era que toda vez que eu passava em frente a uma casa vizinha, dois sapecas ficavam chamando-me de pescoço queimado, tive vontade de esmagá-los, o que seria uma grande besteira, pois hoje sei que aquilo era coisa de criança. Ah, mas eu também era criança, creio ter errado em não tê-los dado uma lição.
(Gilson Vasco, escritor)