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Lembranças dos tempos de escola – Parte XXIV

Redação DM

Publicado em 12 de novembro de 2015 às 21:43 | Atualizado há 11 anos

Após o almoço sentamos embaixo do alpendre da sede. De repente, ouvimos o barulho do trotear de um animal a galope. Não demorou quase nada para um capataz da fazenda vizinha montado em seu manga-larga aparecer, chegar à cancela, abri-la, entrar para o quintal, ir onde estávamos e nos dar um recado enviado pelo vizinho chamado Roldão, tio de Vando. De acordo com Roldão seria uma falha muito grande da parte dos amigos de seu sobrinho, ou seja, de nossa parte, voltarmos para a cidade sem antes fazer-lhe uma visita. Então, para não cometermos essa falha, falamos para o cavaleiro, o qual foi muito cavalheiro, que íamos sim, atender o convite de seu patrão. O cavaleiro nos falou que não podia demorar muito e logo voltou às pressas. Após isso, alguns daqueles que estavam ali, saíram em disparada em direção ao pasto, pegaram vários cavalos, montaram-nos e aproximou da casa, novamente. Nesse instante, acabara de chegar alguém conduzindo um jipe e logo soube que ele era o proprietário da fazenda vizinha, o próprio tio de Vando que viera pessoalmente para nos levar para a sua casa. Fomos todos. Uns a cavalo e outros no jipe… O veículo que até então parecia um transporte comum, agora conosco em cima assemelhava a um umbuzeiro povoado por macacos.

Quando chegamos lá, fomos muito bem recebidos pelos proprietários da fazenda: Roldão e sua esposa, a qual nos obrigou a deliciar uma bacia grande, abarrotada de coalhada fresca e sem calda, sem soro e escorrida, com açúcar. Estava uma beeeelezura!  Ali ficamos por alguns instantes, depois nos despedimos, agradecemos tamanha cortesia e gentileza e voltamos para o lugar de antes. Se dependesse de Roldão e da tia de Vando, não teríamos voltados por tão cedo. Aquele casal foi um poço de bondade para conosco.

A partir daquela hora, a diversão agora era andar a cavalo. A fazenda dos parentes de Jota não ficava muito longe de onde estávamos e, logo, a fim de aumentar o número de montarias, ele se dirigiu para lá, arrumou uma montaria e a trouxe.

O que nenhum deles desconfiava, inclusive Maick e Edu, os quais mais me conheciam, era que eu não sabia montar, andar a cavalo, tampouco, cavalgar. Pois quando morava em fazenda não aprendi, devido a minha mãe ser muito cautelosa e não deixar que eu montasse, temendo uma queda. Bastou Jota me oferecer seu animal, uma égua, na verdade, para eu montar, para todos descobrirem que eu não dominava a montaria. Então, eles disseram que era a minha chance, senão obrigação aprender a cavalgar! Naquela tarde, eles se tornaram meus professores teóricos. Após uma imensidão de dicas, Maick se propôs a partir da teoria à prática, amarrou a égua num poste da cerca de arame farpado, ordenou que eu subisse no lombo do animal, depois o desamarrou e começou a puxá-lo, lentamente pela corda…

Quando o animal se moveu, eu tremi de medo dele sair em disparada, Maick continuou puxando-o e, à medida que ele puxava a montaria eu pedia implorando para ele parar, mas o meu pedido era em vão, de nada adiantava, ele só pedia para eu confiar nele, eu queria confiar, porém, o medo não deixava, mas ele percebeu que eu estava começando a vencer o temor e continuava puxando o animal. Ao perceber que aquela tarefa não era difícil e sim relaxante, pedi o cabresto para Maick, ele me entregou-o e, sozinho, comecei a andar, correr e a galopar… À tardinha eu já estava apostando corridas com aqueles acostumados há tempos.

Numa dada hora, peguei o animal a galope, numa estrada sem obstáculos, sem hora para retornar. Pena que logo após percorrer alguns quilômetros, notei alguém tentando me acompanhar, quando olhei para trás, notei Jota que fora me avisar de que chegara a hora de prepararmos para voltar à cidade. De início cheguei a pensar que era mais uma de suas brincadeiras, mas ao olhar em direção ao sol, apesar de não consegui visualizá-lo direito, devido à camuflagem das nuvens, notei que realmente estava ficando tarde e que se aproximava do horário combinado com Tom. Então, voltamos para a sede, Jota foi devolver o animal à fazenda de origem e, ao chegar, partimos.

Como tinha chovido muito, durante quase todo o dia, Tom não foi nos buscar, sabíamos que ele estava nos esperando como combinado e, tivemos que ir a pé, até a estrada de cascalho, onde ele nos esperaria. Durante todo o percurso fomos cantarolando, brincando e nos divertindo. Tiramos dos pés os nossos calçados e, descalços pisamos no chão frio e molhado, nossos pés penetravam na lama como um dedo buliçoso de criança mergulha num sorvete de chocolate, a areia parecia movediça; carregávamos as garotas nos nossos braços como carrega criancinha no colo, brincávamos de pega-pega, competíamos, jogávamos frutinhas, uns nos outros; pisávamos nos lírios que forravam o caminho como tapetes, sentíamos as frutinhas explodirem embaixo dos nossos pés, de repente, notamos a presença de uma ousada raposa que, em seguida, com toda a calma do mundo, atravessou a estrada e, corremos para alcançá-la, mas ela usou de sua esperteza e nos deixou ofegantes; e todas as brincadeiras era uma grande diversão a mais para nós, naquela estrada sombria, porém, alegre. Mas não era só o fato de estarmos longe de casa como a fazenda, termos aquela união ou pela diversão variada que vivíamos, era tudo aquilo, mas hoje me parece que era algo muito mais além e que todos nós sabíamos. Sabíamos, exatamente quem éramos, o que queríamos e para onde estávamos indo. Era realmente uma maravilha!

Aproximando da estrada de cascalho, notamos ao longe em nossa frente uma cor azulada que parecia ocupar todo o nosso caminho, horizonte afora.  Ao chegar mais próximo notamos o caminhão-caçamba parado, encostado. A cor azul do caminhão se misturava ao azul do céu. Era Tom nos aguardando. Subimos na carroceria do caminhão e, embaixo de pequenas e geladas lágrimas de nuvens, partimos rumo à cidade. Ainda em cima do caminhão Santo sugeriu que um dia eu escrevesse algo sobre aquele passeio e neste momento quito a minha promessa com aquele inesquecível e bondoso colega.

De volta, antes de chegar à cidade, Eleno e Gil ficaram em suas casas no povoado do Cadete. Chegado à cidade acompanhei Maick até perto de sua casa, mas como novamente eu estava meio sujo fiquei receado de trafegar pelas ruas e voltei para minha casa a fim de me higienizar.

Aquele passeio foi sem sombra de dúvidas um acontecimento contribuinte para unir a nossa turma ainda mais, até mesmo a outra sala se uniu à nossa como se já fôssemos amigos de vários anos atrás. Ámer, aluno da outra sala, amigo de Cal, que nos acompanhou ao passeio, chegou a ser confundido por alguns professores como sendo aluno de nossa sala.

 

(Gilson Vasco, escritor)

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