Lembranças dos tempos de escola – Parte XXXIX
Redação DM
Publicado em 14 de abril de 2016 às 02:16 | Atualizado há 10 anos
Depois de algum tempo o dia de eu armar uma brincadeira para Maick chegou. O pensamento é uma arma oculta até que o seu fruto surge. Pena que o indivíduo humano não conhece nem a si próprio, menos ainda a intenção do próximo. Digo isso porque num dia, Maick, inocentemente, me chamou para irmos nadar numa lagoa perto da cidade, apropósito, não sabíamos nadar! Existiam várias poças de água e cachoeiras formadas a partir de um pequeno riacho, o qual cortava a cidade ao meio. Então eu aceitei o convite, naturalmente. Naquele momento eu não estava com nenhuma intenção maléfica. Tinha decidido em ir simplesmente pelo prazer de interagir com a natureza, afinal, quem é o sujeito que não busca a natureza para se libertar das tensões do dia a dia?
Ficamos ali naquela lagoa por muito tempo, tentando aprender a nadar, brincando, gritando, balançando nos cipós que ficavam presos às árvores. Num dado instante que eu estava na parte mais profunda da lagoa Maick me empurrou para o fundo e naquele momento sentir que eu ia me afogar. Nervoso, tentei nadar para alcançar terra firme e não consegui. Não fosse ele ter agarrado no meu braço e forçado para fora acho que teria ingerido daquela água ou mesmo ter acontecido algo mais grave.
Aquilo restaurou minhas lembranças do dia em que ele me deixou com a sua bicicleta defeituosa. Lembrei que certa vez ele havia me dito que se alguém ferisse um sapo acontecia de a gente sentir a mesma dor que o animal. Um pouco antes do episódio havíamos apedrejado um animal desses e o anfíbio fora embora ferido. Não pense o leitor que éramos malvados e que saiamos atacando os bichinhos inocentes. A verdade é que eu nunca fui bom para arremessar objetos e acertá-los nos locais pretendidos, mas para azar do animal, naquele dia, a primeira pedra que lancei atingiu a sua cabeça e Maick para não levar a pior, lançou uma chuva de pedregulhos no anfíbio deixando-o muito ferido.
Então, aproveitando aquela situação comecei a gritar com a mão na cabeça fingindo sentir muita dor. Maick ficou aterrorizado, preocupado, atordoado, apavorado e mais um monte de ados que o leitor encontrar no momento, sem saber o que fazer. Quis voltar para casa para eu tomar um remédio para a minha suposta dor de cabeça, mas desesperou quando eu lhe falei que a próxima a doer seria a dele que mais apedrejou o animal.
O moleque era realmente muito traquina, estava sempre à procura de aprontar. Para se ter uma pequena noção das travessuras que o fedelho aprontava vou narrar uma situação que aconteceu conosco num dia lá em minha casa: O aparelho de som da casa dele era do mesmo modelo e marca de um que havia na casa de Vanessa, irmã de Djou. Minha família morava de fronte com a residência da família de Vanessa. Coincidentemente ambas as casas possuíam portas e janelas de vidro. Então Maick, sabido que o controle remoto do seu som era compatível com o do som daqueles vizinhos, ele o levou para a minha casa e sempre que Vanessa ligava o som na casa dela Maick o desligava lá de casa através do controle remoto. Vanessa já havia avisado para o pai dela sobre o suposto defeito no aparelho de som e por pouco o aparelho não foi parar na assistência técnica. Ele fez isso por várias vezes. Todos daquela casa já estavam abismados com o descontrole do som. O pai de Vanessa que sempre foi supersticioso andava de orelha em pé, coitado!
Aquela família não descobriu o que causara o suposto defeito daquele aparelho de som e penso que já tenha esquecido do episódio. Como creio que Maick já nem se recorda mais de muitas de suas travessuras descritas aqui.
Naquele ano os nossos passeios eram constantes, íamos para vários lugares. Além de muitas vezes acompanharmos o pessoal de nossa sala para os passeios, íamos, às vezes, em pequenos grupos para a casa de vários colegas.
(Gilson Vasco, escritor)