Maria, o Divino Pai Eterno, a criança e a estrela
Redação DM
Publicado em 6 de julho de 2017 às 01:51 | Atualizado há 9 anosHá mais de dez anos percorro a pé os 18 km da Rodovia dos Romeiros, ligando Goiânia-GO ao Santuário do Divino Pai Eterno, em Trindade-GO. É uma travessia ímpar, onde o sagrado e o profano mesclam-se num estágio além do palpável: a crença suprema do povo de Deus, e a tradição popular, com ritos sacramentados por gerações.
Normalmente faço esse Caminho da Fé tanto externamente, no esforço físico da caminhada, quanto internamente, meditando sobre a existência, e rezando o terço — segundo minha avó sempre rezava. Transcorro solitária, contemplando as pessoas entre os monumentais painéis da Via Sacra, a fim de sorver com propriedade a devoção desse povo – que caminha reluzente ao meu lado e, sem saber, me conduz esperançosa ao Pai, como a Estrela de Belém guiou os três Reis Magos até o menino Jesus, nascido da Virgem.
Assim, por esse tempo todo de peregrinação, inúmeras foram as cenas dignas de transbordar a alma. Algumas delas esvaíram da memória, miscigenaram-se à força inexplicável a me carregar quando o mundo palpável parece ruir. Outras permanecem claras, como se acontecessem agora. Revivo nesse momento o encontro outrora, em certa altura do caminho, com três idosas senhorinhas que, de pernas exauridas pelo tempo gasto na labuta dos anos idos, sobre corroídos chinelinhos havaianos, pareciam flutuar, entoando na mesma cadência o rosário. A reza fluía de forma tão simples, tão pura, tão verdadeira e tão dadivosa que a minha vontade era, em acalanto materno, rezar com elas noite afora, enquanto o milagre da força absoluta de Deus me transportasse, fraca e mortal, até o Santuário. Enfim, a passagem pelas três “rezadeiras” da Trindade Santa me fez menina, deitando no colo da Mãe de Deus.
Aliás, Maria foi homenageada na Romaria de 2017: “Maria: serva humilde e fiel ao Pai Eterno”. Justa veneração, pois, para Maria converge a Santíssima Trindade na imagem esculpida pelo artista plástico Veiga Valle – uma reprodução da figura cinzelada no Medalhão, descoberto há mais de 170 anos pelo casal que deu início à peregrinação: Pai, Filho e Espírito Santo coroando Nossa Senhora. Em suma, o maior reconhecimento, do Maior Filho, à Mãe Maior! Talvez por isso tenha encontrado desta vez tanta criança na Rodovia dos Romeiros. Bebês sendo levados nos carrinhos, ou revezando entre os colos dos pais, familiares e amigos. Pequenos caminhando de chinelos, sandálias, tênis… Ziguezagueando alegres e festivos no meio dos adultos. Encantando a vereda, nos ombros dos adultos, conforme os anjos encantam a nossa ida para os céus. Sempre de sorrisos em punho, anestesiados por Maria Santíssima, para não sentirem o sacrifício da caminhada. Provavelmente pagavam promessas feitas pelos genitores ao Divino Pai Eterno, pois Ele tem promovido grandes milagres na vida dos pequeninos. Interessante é que as crianças, devido aos cuidados extras despendidos, visivelmente fortaleciam a união entre as famílias, guiadas pela fé.
Os “romeirinhos” rompiam o passeio tão livres, oferecendo a Deus e aos transeuntes brincadeiras pueris retiradas do mais íntimo ser, ao ponto de levarem-me a recobrar no pensamento o meu sobrinho Dante… Certa feita, ao visitarmos a Matriz de Sant’Ana, na histórica Cidade de Goiás, enquanto falava às demais crianças sobre a Porta Santa lá instituída, ele olhou ao redor, certificando-se de que não havia mais ninguém além de nós, mirou o piso limpinho e brilhante, posicionou-se em frente ao altar, e, num salto fenomenal, lançou-se em “estrelinha” perfeitamente executada, parecendo estar no palco, entre os melhores ginastas do mundo. Surpreendeu-me, não a “estrelinha”, na qual é mestre, mas o desprendimento daquela atitude, num garoto contido e obediente. Ao ser advertido:
– Dante, estamos na igreja, menino! Esqueceu?
A reposta veio tímida, pura e feliz:
– Desculpa. É que eu não resisti!
Emudeci, sem argumentos, a não ser por um riso contido. Foi quando compreendi, verdadeiramente, a sutileza e profundidade de uma oferenda ao Pai. Foi preciso que um menino, montado numa “estrelinha”, se despisse da timidez e se doasse inteiro aos pés do altar, para eu entender o valor de cada oferta dos filhos de Deus. Dante ofereceu o melhor de si naquela hora, guiando a minha epifania, como a Estrela guiou os Reis. Da mesma forma, hoje compreendo, os romeiros mirins do Divino Pai Eterno seguiam a Romaria de 2017 levando oferendas em risos translúcidos de luz, tão sagrados a ponto de encobrir, por instantes, qualquer marca profana dos filhos de Adão e Eva.
Quanta riqueza Maria nos proporcionou nesta travessia terrena, ao aceitar, humildemente, a missão de ser a Mãe do Menino Deus! Afinal, não fosse por ela, jamais a humanidade-menina acolheria o chamado estelar do Pai, para, livremente, seguir o Caminho da Fé, ofertando a simplicidade do existir.
(Rúbia Garcia, advogada, discente do curso de Letras e de pós-graduação em Docência Universitária da UEG, campus Inhumas, membro do Movimento Casa da Ponte de Itauçu-GO)