Brasil

Mariana

Redação DM

Publicado em 11 de novembro de 2016 às 01:55 | Atualizado há 10 anos

Pés frios, grossos e sujos

Nos montes sagrados

Mariana das Minas Gerais.

Nome suave entre os sacros

Mensageiro da paz da alma

Foste atacada, Mariana,

Pela repulsiva lama

Vinda da voracidade

Que expressa a vil propensão

Comum da ganância.

Os filhos de Bento

Não erguerão já os pés da lama

Ainda que sobre sua infâmia

Resistam amores e virão

Netos imprevisíveis do sujo

Mundo em que se converteram

Sinceros devotos e suas procissões.

A cruz usada ficará com as bactérias

Como se estivesse a cumprir pena

Por seu peso e sua perfídia inerte.

Vão-se dois milênios da infame condenação.

Dessa terra levaram ouro

Como se fosse arroz.

Peneiravam água limpa

Separavam o metal precioso

Surrupiado pelos fiscais da colônia.

Só ficaram as igrejas magníficas

Esculpidas por um pequeno aleijado

Onde é necessário manter a fé

Como se estivessem no céu.

Ritos em latim nas missas e novenas.

Lá fora hoje a lama os espera

Mole, líquida, bruta, cruel

Como o vinagre que elevou os olhos

De Jesus a interrogar seu pai no céu.

Sua raça é resistente e forte

Sabe o que é pobreza e fé

Em Minas nascerão muitas Marianas

Que darão beijos consoladores

No pobre povo das lamas.

Resistam.

Amanhã será história

De seu filho Alphonsus:

“Jerusalém, em meio às Doze Portas,

Dorme: no luar que lhe vem beijar os flancos

Evoca ruínas de cidades mortas.”

 

(Amadeu Roberto Garrido de Paula, advogado e poeta. Autor do livro Universo Invisível e membro da Academia Latino-Americana de Ciências Humanas)

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