Martiniano: talismã do cerrado
Redação DM
Publicado em 4 de maio de 2016 às 00:48 | Atualizado há 10 anos
Desde o século XVIII, mais precisamente em 1721, na sabedoria de Houaiss, o substantivo masculino Talismã é um objeto a que é atribuído um poder mágico efetivo fora do comum (a ave uirapuru dos cerrados traz felicidade e fortuna). (o ouro é tesouro poderoso). Amuleto, figa, figura a que se atribuem virtudes sobrenaturais de defesas contra desgraças, doenças, feitiços, malefícios, podendo ser até remédio supersticioso, preservativo contra veneno, tudo cf. talismã ou efeito desse poder mágico, encantamento; ou tudo o que produz um efeito súbito e fantástico, talismânico.
Como Martiniano, em epígrafe, o mais encruado, quem sabe obstinado, para não dizer cabeçudo, retirante dos sertões baianos em terras goianas, poderia ser comparado aos emblemáticos e extraordinários significados do substantivo talismã? Quem foi esse doido ou destemido que o admitiu? Como poderia ser acolhido assim? Como comprovaria a minha inocência tão necessária aos demiurgos do universo? Não sei. Quem ousaria saber?
Urbi et urbi, confesso, de todo modo, que há os que ousaram comparar-me e até definir-me um Talismã. Antes de tudo, a jornalista literária e poeta Marta Brandão, certamente concentrada pela vida de Racismo à brasileira: raízes históricas, reimpresso em 4ª edição (2016) e de Quilombos do Brasil Central: violência e resistência escrava (2008), escreveu e publicou no livro “Entre Linhas”, belo poema assim intitulado. Recentemente, ao ajudar-me na formatação do livro “Teatro experimental do negro em Goiás”, adaptou dito poema como uma das partes deste novo livro, a ser lançado em breve.
Se não bastasse, no dia 30 de abril findo, às 10h, numa Roda de Conversa sobre o “Teatro Experimental do Negro em Goiás”, numa Sala Multiuso da Escola de Formação de Professores e Humanidades da PUC, em que participei em Goiânia, a valente ativista do MNU, Ieda Leal, decerto inspirada na comovente poesia de Marta Brandão, rogou que me chamassem “Talismã do Cerrado”. Ouvi, enternecido, a tocante sugestão, apoiada por Janira Sodré, a quem devo minha presença, professor Alex Ratts, amigo de outrora e estimada Tâmara Neiva, entusiasta outra professora, entusiasta das minhas ideias. A seguir o poema da autora citada:
TALISMÃ (Marta Brandão)
Vasculho gavetas e armários, onde se escondeu o talismã?
Mas nada é por acaso, a procura não permitiu-se vã.
Eis o marco inicial de uma fase universal!
Ergo os olhos e vejo novamente, Racismo à Brasileira;
Quilombos do Brasil Central;
estudos profundos sobre o negro abrem as cortinas
para a encenação do Teatro Experimental.
E no palco da resistência escrava gritam vozes
do nosso território e dos irmãos negros de terras longínquas,
querendo justiça, buscando a paz, denunciando atos atrozes.
Vem à lembrança tantos títulos oferecidos,
dentre eles o do Instituto do Trópico Subúmido,
O Memorial do Cerrado:
“Honra à Dignidade Humana”,
ao memorável Martiniano.
Homem forte e disciplinado que na vivência consoante,
do mais puro sertão da Bahia emergiu,
voou pelos ares vislumbrando sonhos, voou,
talvez sem perceber, a grandeza do voo sutil.
Encontrou sua cara metade, à sua amada escreveu versos,
a imensidão da vida conjugou;
pariu, dentre filhos, obras que sua vida marcou.
Na caminhada incansável, em cada passo o prêmio maior.
A sua aldeia, Mineiros, cantada ontem, hoje, amanhã,
com paciência e firmeza, revela o brilho do talismã.
(Martiniano J. Silva, advogado, escritor, membro da Academia Goiana de Letras e Mineirense de Letras e Artes, IHGGO, Ubego, mestre em história social pela UFG, professor universitário, articulista do DM -martinianojsilva@yahoo.com.br)