Brasil

Massacre na boate

Redação DM

Publicado em 22 de junho de 2016 às 03:28 | Atualizado há 10 anos

Dizer que era uma boate gay, de heteros, de brancos ou de negros; ou que era em Orlando, Santa Catarina, ou em Hong Kong fará pouca diferença diante da triste realidade de que se está noticiando uma tragédia com centenas de mortos e feridos. Muitos valorizarão estes detalhes, como sendo fator determinante, porque o fator determinante é o que nos intriga nestas tragédias, sem, contudo, querermos de fato encontrar com o verdadeiro culpado pelo ocorrido. A culpa, sepultamos com o perpetrador como se toda a causa estivesse estanque nele. E é assim que tem que ser. Quem gostaria de achar, ou apontar um culpado para além do atirador? Fingimos querer achar as causas e aí buscamos respostas fáceis. A venda de armas, por exemplo, é um adversário factivel e, ao mesmo tempo, intangível para nós. Fica fácil então eleger a venda de armas de fogo como o principal facilitador destes crimes. Mas será mesmo?

Esta semana uma revista de circulação nacional trouxe uma entrevista com a Sra Sue Klebold, autora do livro O acerto de contas de uma mãe, ela por sinal mãe de Dylan Klebold, um dos perpetradores do conhecido massacre de Columbine, uma escola secundária do Colorado, fato ocorrido em 1999 onde um professor e doze alunos foram assassinados. Este, conhecido como o primeiro dos grandes massacres da era moderna ocorrido nos Estados Unidos da América. Li com atenção a entrevista, não pelo que ela diz, mas pelo que ela deixa entrever na sua fala. Há, no meu entendimento, boas dicas do que ocorria na vida de Dylan. Comecemos pelo final da entrevista.

Lá pelas tantas, perguntada qual seria a explicação para o aumento destes crimes no país, Sue responde: “Pode ser a soma de uma tendência familiar, de traumas de infância e de exposição à internet ou a videogames violentos. A sociedade precisa encarar o problema sem preconceitos, para encontrar formas de identificar quando um conflito adolescente pode se converter em impulso doentio para a autodestruição.” A análise que faço, não é para achar culpa em Sue, mas em mim mesmo na criação de meus filhos. Não posso atribuir à sociedade, que tem um conceito muito abstrato na hora de ser confrontada com a educação de meu próprio filho. A exposição de crianças a jogos violentos é sem dúvida um problema social, se tomado em sentido amplo, mas deve ser tratado como questão meramente pessoal no trato da educação de uma familia. Se há uma tendência familiar, o meu envolvimento pode me obliterar na detecção do problema. Contudo, a simples liberalidade de jovens e crianças a nenhuma censura das redes, já evidencia o relacionamento pais e filhos de um grupo familiar. Meus filhos de há muito têm acesso à internet, mas sempre souberam que a qualquer momento eu teria liberdade de adentrar o quarto e acessar a tudo que eles haviam conectado. Isto fez deles pessoas de bem? Não. Mas certamente reduziu em muito os pontos de conflitos a que eles poderiam estar expostos. Até porque, tal acordo de acesso irrestrito, tanto deles quanto meu, ficou ajustado antes mesmo da instalação do sistema em minha casa.

Diante do fato de que Dylan estivesse realmente envovido no massacre, Sue desejou seu suicidio. Palavras dela na entrevista: “Se ele está envolvido na morte de tantas pessoas, rezo para que morra. E que morra pelas próprias mãos.” Neste momento da entrevista me perguntei se Sue queria ficar livre de ter que visitá-lo na cadeia, ou se preferia que o filho escapasse do julgamento humano, o que não ocorreria nem com sua morte. Ora, na minha visão é muito crua a realidade. Para mim, ainda que meu filho fosse um homicida, o que não vejo como o pior dos crimes dado as circunstâncias que podem envolver o fato, mas coloco na frente o estupro e até o roubo, mas ainda que meu filho praticasse tais barbaridades, não desejaria sua morte sem confrontar-se com seus próprios erros. Gostaria sim que ele tivesse a oportunidade de pagar pelo que fez e até de se redimir do que tenha feito. Não jogo a primeira pedra em Sue. Apenas não compreendo uma mãe que deseja o suicidio do filho.

Quando o repórter quiz saber se num retrospecto, Sue consegue perceber alguma pista que passara despercebida, ela diz: “Meses antes, ele (Dylan) tinha se envolvido num episódio de furto com seu amigo Eric (outro envolvido no massacre). O delito em si não era grave…” Não discuto se Dylan era ou não um criminoso contumaz, nem se a mãe pactuava com isto, nem que dali se evidenciava um assassino frio. Mas dizer que um delito qualquer que o filho cometa não seja grave, me preocupa de fato. O que seria grave para Sue? Um massacre? Com sete anos levei um jiló para casa. Apanhei e tive que devolve-lo na frutaria onde o pegara. Para meu pai, esta conduta foi gravíssima. E foi assim que eu fui educado.

Finalmente quando confrontada com a criação que teria dado ao filho, e se faria algum reparo, ela responde de pronto: “Não alteraria um milimetro de minha conduta, mas saberia que isso não é suficiente. Ouviria o que ele tinha a dizer com mais cuidado, não me conformando em pensar que eram coisas de idade. São essas pequenas atitudes que boa parte dos pais não toma.” Não entendi: ouvir mais não é uma alteração de atitude? Você confiaria numa pessoa que não te ouve? Sue aceita ou não o fato de que poderia ter feito algo mais? Ela está se incluindo entre os pais que não tomam esta atitude?

Seu filho poderá se tornar-se um criminoso queira você ou não, caro leitor. Você não poderá ser responsabilizado por ele, mas também não poderá fugir do sofrimento que isto causará. Porém, se não há confiança entre vocês; se vocês não se ouvem mutuamente; se a internete é que educa seu filho e se, diante de um fato delituoso perpetrado por ele, você fingir que nada tem ocorrido e apenas dizer que foi algo menos grave, então ficará dificil não ser condenado a carregar sua própria consciência e, eventualmente, receber uma pedrada de algum ponto da sociedade. Esta é a dolorosa realidade.

 

(Avelar Lopes de Viveiros, cel RR PMGO)

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