Meninos do Cerrado – Parte II
Redação DM
Publicado em 9 de julho de 2016 às 02:21 | Atualizado há 10 anosÀ primeira vista
Sob o estágio abrasador do sol do fim da tarde de verão, depois de tudo arrumado, objetos necessários e alimentos postos no interior da combi do pastor e todos já em suas posições no veículo para a viagem saímos da região central da metrópole com destino a periferia longínqua.
Assim que as primeiras famílias carentes mudaram para o residencial periférico, uma minicidade no oeste do gigante metropolitano, um pastor contraiu o hábito de sair da região central da cidade, onde dirigia uma igreja evangélica e, com outros fiéis, partiam rumo ao novo bairro, com diversos propósitos, inclusive o de evangelizar, expandir o número de seguidores em sua crença religiosa, cidade afora. Ao chegar ao bairro, saíam de casa em casa convidando e juntando moradores, colocando-os no interior da combi e levando-os ao local da realização do culto. O destino era a nova morada de uma senhora da mesma religião que emprestava a parte frontal de sua casa para as atividades noturnas de evangelização.
Cerca de trinta ou quarenta minutos trafegando pela rodovia estadual, encontramos um retorno, voltamos poucas centenas de metros como quem quisesse desistir da viagem e entramos por uma avenida urbana, de pista dupla, recém-construída e continuamos nos afastando ainda mais do gigante metropolitano. Nada demorou em alcançarmos às proximidades de uma gigantesca rotatória. Foi dali que avistamos a chamada minicidade, o mais novo bairro do gigante metropolitano. Ambiente novo para mim e rotineiro para os demais.
A estação, embora chuvosa, aqueles dias eram de estiagem e a poeira adormecia sem vento para incitá-la. A paisagem era desértica e surpreendente todo o tempo. A tarde evitava o calor a qualquer custo, mesmo sem nenhuma árvore para sombrear os raios solares o clima era fresco, agradável ao ponto de causar cobiça a nós visitantes e moradores das regiões mais centrais do gigante metropolitano.
Deixamos a primeira rotatória e continuamos descendo a larga avenida despovoada, sem construções comerciais… Às margens, somente gramíneas, tapete natural do Cerrado. Onde estão os comércios? Do interior da combi, em movimento, víamos através das janelas transparentes a imensidão territorial daquele lugar. Um gigante periférico dentro de um colosso metropolitano? Quanta ousadia do seu idealizador! Teria fim?
Chegados próximo à terceira rotatória e com vistas para a quarta e, aparentemente a última, observamos com bom gosto o veículo abandonar a vasta avenida asfaltada e invadir as ruas em pura terra. Adentramos chacoalhados pelo vaivém do automóvel nas vias esburacadas.
Teria o ambiente feito um pacto com o silêncio? Teria o Universo emudecido? Ouvíamos apenas o tocar dos pneus no cascalho e o ronco do motor do nosso veículo. Sentíamos somente a ação dos amortecedores do automóvel amenizando os baques da condução amortecidos pelas molas quando os buracos ameaçavam engolir os pneus.
Está desabitado ainda? Perguntei para qualquer um que respondesse primeiro e obtive a resposta do meu irmão:
– Duas etapas já estão totalmente habitadas e as outras três restam ainda poucas casas vazias, prestes a serem ocupadas. Somente os apartamentos de outro programa e deste mesmo complexo habitacional que ainda estão sendo construídos estão totalmente desabitados, sem data para ocupação.
Incrédulo, silenciei, aliás, silenciamos. Ninguém dizia nada. Apenas contemplávamos o ambiente do empreendimento habitacional.
– Pode até parecer desabitado, mas somente nas aparências, pois grande parte dos imóveis guardam famílias numerosas, todas de baixa ou nenhuma renda, vindos de todos os cantos desta cidade. Indivíduos retirados das áreas de riscos, de baixa renda e mães solteiras foram postas aqui.
Ao ouvirmos a explicação do meu irmão quebrando o silêncio dentro do carro inquietamos, em seguida, fomos ensurdecidos por um grito do motorista:
– Chegamos!
Chegamos? Onde? De repente as portas da combi se abriram, todos desceram, uns com as mãos cheias de cadeiras plásticas e outros transportando diversos objetos, posicionaram-se embaixo de uma tenda de lona e ferro armada no espaço frontal de uma das casinhas. Estava concretizado meu primeiro contato mais próximo com um daqueles milhares de imóveis populares.
Por cerca de meia hora ficamos conversando, ora entre nós, ora com a dona da casa. Tempo suficiente para eu entender um pouco mais sobre a vida daquela gente. Um misto de felicidade e gratidão por ter sido contemplada com um daqueles imóveis e o sofrimento por falta de infraestrutura da minicidade colocava em dúvida a permanência de muitos moradores ali.
Fiquei pensando nas palavras ditas pelo meu irmão quando disse que famílias retiradas das áreas de riscos, de baixa renda e mães solteiras agora moravam no novo bairro. Mães solteiras, categoria na qual, talvez, mamãe fosse inserida, embora fosse viúva.
Apesar de morar quase no centro do gigante metropolitano, fazer faculdade praticamente no quintal de casa, se comparada à distância daquele bairro, onde nós nos encontrávamos naquele instante, acho que toparia residir na minicidade. Os rumores de que mamãe ganharia uma das casas, somada a curiosidade de acompanhar de perto o desenrolar daquele trabalho voluntário desenvolvido quinzenalmente pelo pastor e sua equipe para com muitos dos recém-moradores levou-me a embarcar nessa aventura desconhecida e aparentemente prazerosa.
Dezenas, centenas, milhares de moradias visivelmente idênticas, ao ponto de confundir um indivíduo que fosse um pouco distraído ou outro qualquer que estivesse desprovido de um endereço preciso nas mãos. Somente uma faixa verticalizada e colorida, interrompida pelas janelas frontais servia de referência para individualizar uma residência da outra. Todas tinham o mesmo padrão: pouco mais de quarenta metros quadrados de construção, divididos em dois quartos, sala e cozinha conjugadas e banheiro edificadas em terrenos de aproximadamente duzentos e cinquenta a trezentos metros quadrados, ainda sem muros. Nas ruas de cascalho, nenhuma árvore plantada ou já crescida ao ponto de gerar sombras. Apenas uma pequena mureta protegia o hidrômetro, todos ainda sem uso, fios, postes de cimento e torres dos padrões de controle de energia elétrica, alguns já sendo usados para a transmissão da energia, às casas.
O bairro não possuía nenhuma estrutura física destinada à adoração divina para os fiéis reunirem-se. Somente uma pequena creche, uma escola e um postinho de saúde foram erguidos, estrategicamente, em meio às moradias, equipamentos que não atendiam às necessidades básicas de milhares de famílias de baixa renda. A própria iniciação das mudanças não foi tão planejada como aparentava ter sido a construção do empreendimento habitacional. Não que fosse culpa das autoridades, o fato é que havia ameaça concreta de invasões por indivíduos não cadastrados no sistema de defasagem habitacional e a prefeitura se viu obrigada a proceder com as ocupações imediatas aos seus verdadeiros donos: as famílias selecionadas por um processo rigoroso estavam sendo chamadas, às pressas, para ocuparem suas residências.
Enquanto o motorista recolhiam fiéis por todo o bairro, meu irmão e eu fomos fazer uma caminhada, com propósito de eu conhecer melhor o bairro, pois ele já o conhecia, mas para mim tudo era novo. Apesar de morar numa metrópole com mais de um milhão de pessoas, aquele bairro estruturado modernamente era tão intenso que aparentemente era bem maior que a cidade interiorana onde nasci e vivi por quase duas décadas. Daí, ser chamada de minicidade.
À medida que o Sol agonizava para dentro de no máximo uma ou duas horas ceder lugar aos primeiros vultos noturnos, o silêncio ia sendo quebrado, aos poucos, por dezenas, centenas ou quem sabe, milhares de meninos e meninas… Deus! De onde vinham tantos?! Não, não poderia ser um bairro! É um formigueiro. Não poderia ser pessoas! São formigas se preparando para as primeiras chuvas! A dor de um beliscão que dei em meu antebraço esquerdo lembrou-me de que eu não estava nem dormindo, imagine sonhando… Aquilo era real!
O bairro estava infestado delas! Primeiro as ruas, depois os espaços improvisados por elas mesmos para usarem como rústicos campos de futebol formigaram de meninos de todas as cores, tamanhos e fisionomias angelicais. Muitos descalços, uns trajavam shorts, outros bem mais compostos. Afogariam nos mares da incredulidade aqueles que fossem adeptos do apostolo Tomé, pois cena como aquela mais se assemelhava a uma miragem. Nunca tinha visto antes uma aglomeração mirim tão intensa, nem mesmo nos centros educativos. Eram milhares mesmo!
Pequenas, frágeis e impacientes, porém sincrônicas, as crianças corriam atrás de bolas velhas, murchas e gastas pela ação do uso, como formigas que de forma organizada buscam, no verão, folhas para todo o inverno.
Apesar de eu já ter sido horas antes advertido do sofrimento enfrentado cotidianamente por toda aquela gente e o próprio quadro fotográfico visto a olho nu já ter sido consumado pela minha massa craniana, tive dúvida, pareciam tão felizes e determinadas. Aquilo para eles não era o paraíso?!
Ora, o cenário era lindo, a inocência morava ali. Bastou uma visita para que eu me apaixonasse pelo bairro, mas, no fundo, teria eu coragem de mudar definitivamente para aquela minicidade tão longe da faculdade, tão longe do centro urbano? Sei não…
Naquele instante em que eu observava os atletas amadores, meu irmão tirou um papel do bolso e disse:
– Chega, agora vamos conhecer a casa em que, provavelmente, iremos morar…
Se ele estava tentando atingir o mais alto grau de minha perplexidade acabara de conseguir. O mano já tinha até o endereço da suposta casa de mamãe!
Ele era o sujeito mais popular que eu já havia conhecido na face da terra. Para atingirmos o percurso de onde estávamos até alcançarmos o endereço da suposta futura residência de mamãe, demoramos cerca de vinte minutos, mas poderíamos ter feito em dois, não fossem tantas abordagens dos moradores a ele por todo o trajeto. Como poderia conhecer tanta gente assim?
Ao chegar ao local, percebemos que era intenso o matagal, ao ponto de não nos permitir a total visibilidade da nossa suposta futura moradia própria. O que explicava as sucessivas tentativas de invasão, bem como a desistência da família contemplada com aquela casa, como nos explicou uma moradora e, possivelmente nossa futura vizinha. Então, retirei da bolsa a câmara filmadora e colhi umas imagens para apresentar à mamãe, mais tarde ou em outro dia.
À noite, durante o culto fiquei a observar o comportamento do povo e me certifiquei de que todos ali realmente precisavam de ajuda de alguém. A filmadora despertou a curiosidade de muitos, inclusive de um portador de necessidades especiais. Outro menino veio até a mim e solicitou que eu a emprestasse para aquele portador de necessidades especiais observá-la de perto. Acatei a proposta por alguns segundo e tomei-a de volta, para evitar danos. Por volta das dez horas, depois do culto e do lanche dos fiéis, à base de pão e sopa, voltamos para nossos lares. Por pouco, nossas vestes não ficaram encharcadas pela chuva. Chuva que me levou a entender o propósito da colocação da tenda naquela casa.
No outro dia, mamãe ficou encantada com as imagens do local e da sua suposta casa, porém incrédula da contemplação, ora bem pudera, nunca tinha recebido nenhum benefício governamental em toda a sua vida, somente gastos e mais gastos com saúde, transporte, impostos tantos… A verdade é que apesar do endereço em mãos e de ela já ter passada pela seleção, tudo ainda era um poço de incertezas.
Conhecidos e amigos chegaram até a fazer críticas em relação ao local e ao sistema de políticas públicas de habitação. Disseram que aquilo era somente um reflexo claro da falta de progresso social ou de um progresso tardio, uma vez que a necessidade social transformou parte da vegetação do bioma em moradias populares, num ousado projeto que se por um lado livrou de uma só vez milhares de famílias do aluguel, das áreas de risco e de invasões, por outro lado não houve preocupação com as questões ambientais, infraestruturais, tampouco, com cidadania.
Não demos ouvidos aos comentários, as preocupações com o distanciamento do centro urbano e o isolamento social foram camufladas pelo ensejo de viver livre de uma peste urbana, o aluguel. Verdade que, quase sempre, o progresso não se atrele com a natureza e, muitas vezes, as autoridades não dão a devida e merecida atenção aos cidadãos. Provas disso foram conversas flagradas por mim durante aquela suntuosa visita ao novo bairro:
– Já instalou sua energia?
– Ainda não, continuo aguardando…
– Isso ainda vai levar uns dias…
– Será?
– Oh… Levaram tantos para instalar aqui em minha casa! Quase uma semana inteira usando velas de cera.
– Jesus amado!
O certo mesmo é que para aqueles primeiros moradores nada foi fácil, nem mesmo água nas torneiras existia!
– Mulher, já que vai sair deixe seus baldes do lado de fora da casa para quando o caminhão-pipa passar eu enchê-los para você.
– Ninguém vai roubá-los?
– Fico de olho…
– Vou deixá-los, vizinha, muito obrigada, mesmo.
É fato que já havíamos sofrido muito ao longo de nossas vidas, mas estávamos decididos a encarar tamanho sofrimento, caso fôssemos beneficiados. Estávamos conscientes de que quem mais sofreu foram os primeiros moradores que mudaram para o bairro, privados de transporte, saúde, segurança, educação, trabalho, água, energia e estabelecimentos para adquirir produtos alimentícios ou para o uso básico, mas a independência do caríssimo aluguel nos animava. Continuamos torcendo pela aquisição da casa própria, ainda que na periferia do gigante metropolitano.
(Gilson Vasco, escritor)