Meninos do Cerrado – Parte III
Redação DM
Publicado em 12 de julho de 2016 às 02:37 | Atualizado há 10 anosAconteceu…
E se tudo realmente tivesse acontecido assim:
– Erich… Cadê o Erich… Onde se meteu esse menino?
Bradava a suposta avó quintal afora com olhares voltados para todas as direções e ruas, se é que se pode chamar de ruas espaços horizontais meramente patrolados, terraplanados e cascalhados, sem mais nenhuma forma de estruturação.
– Quê, vó?
Apareceu a figura franzina, trajando short comprido e camiseta larga, até então desconhecida por nós que acabávamos de descer a mudança do caminhão fretado naquela tarde.
– Foi nada não. Só queria saber onde estava.
Achamos que, a qualquer instante, os cães do desconhecido vizinho dos fundos quebrariam as correntes que os prendiam. O cabo de aço que se estendia em toda a dimensão do quintal e sustentavam as amarras mais finas ameaçava, ou pelo menos era a minha impressão, a se desprender do chão e, com isso, aumentava o medo de passar nas proximidades. Enquanto os vizinhos pareciam temer a nossa chegada, temíamos os ferozes.
Bestas! Como podem criar estas pestes tão selvagens! E se elas atentarem contra a própria criança! E estes latidos ensurdecedores e insuportáveis, não terão fim? E se os cães não forem tão bravos e minha ira ser por conta do trauma da mordida de anos anteriores? Não, estes diabos são mesmo umas feras! Maldita hora que ganhamos esta casa.
– Au! Au! Auuuuuuuuuuuuu! Au! Au! Auuuuuuuuuuuuu!…
– Quieto! Barão!
Barão! Por que Barão? Não poderia ser Totó, Xaveco, Mansinho ou outro nome qualquer? Por que tem quer ser logo Barão? Para dá ideia de poder?
– Você também implica com tudo. Ele só está tentando defender o território que é dele! Ele não está em nosso terreno mesmo!
Sei.
– Erich… Erich… Aonde foi o Erich… Onde se meteu esse menino novamente?
– Quê, vó?
– Foi nada não. Só queria saber onde estava.
– Au! Au! Auuuuuuuuuuuuu! Au! Au! Auuuuuuuuuuuuu!…
– Luna… Luna…
Luna, como se não bastasse um, agora são dois… Diabos! Eu os odeio!
O menino tinha transformado a fêmea numa montaria. Ela era tão grande que parecia um bode e tão forte ao ponto de parecer não sentir nenhum peso sobre o dorso. Carregava o branquelo de uma extremidade do cabo de aço à outra, enterradas nos fundos do quintal, extremado com o nosso. Povo sem juízo, como deixa a criança em contato direto com a fera!
– Meu irmão tá com inveja! Tá com inveja… O menino tem idade de ser seu filho e não tem medo dos cães!
É brincadeira… Vai dizer agora que não teme uma mordida? Perguntei seriamente ao meu mano que zombava de minha pessoa, mas fui ignorado.
A mudança estava posta do lado de fora da nossa nova moradia, em frente ao casebre, para ser mais detalhista, já que não tínhamos sido inteligentes o bastante para deduzir que a casa poderia está suja. Mas ainda que tivéssemos tentado vistoriar o interior do imóvel, não teríamos tido êxito, uma vez que o pessoal da prefeitura, encarregado pela acolhida não nos teria deixados ter acesso ao local antes de estarmos de posse da mudança, já que a ordem deixada pelas autoridades aos responsáveis pelo acolhimento dos futuros moradores era não permitir o acesso ao interior do bairro sem a mudança para evitar possíveis invasões. Nosso maior equívoco mesmo foi ter dispensado o caminhão antes de saber como estava a situação interna da moradia. Poderíamos ter deixados todos os móveis no caminhão enquanto fazíamos a faxina geral, assim, evitaria molhá-los, caso fôssemos surpreendido por uma ligeira chuva, como de fato aconteceu! Nada teria nos incomodado, nem mesmo toda a sujeira do interior e exterior da casa, não fosse a forte chuvarada nos obrigar a colocar, às pressas, todos os móveis e objetos para dentro da moradia ainda não muito limpa.
O clima do gigante metropolitano é imprevisível. Amanheceu sem suspeitas de chuvas, logo, choveu muito nas regiões centrais, inclusive no bairro em que morávamos, mas era intenso o sol no bairro para o qual tínhamos acabados de nos mudar e, minutos depois de o brilho solar sofrer uma repentina lividez, o céu denso parecia querer desabar sobre nossas cabeças. Vai entender as leis naturais.
Sob um teto apertadíssimo, cerca de dez pessoas, das quais pelo menos sete passariam a morar em definitivo naquela casa, se protegiam da chuva que além de gotículas geladas era acompanhada por clarões de relâmpagos e rajadas de trovões que nos assustavam e nos ensurdeciam. Um pouco da água das enxurradas que vinham pelos fundos, invadiam o interior da nossa nova casa, feito hóspede indesejável e, depois de nos causar desconforto, ia embora pela frente sem provocar nenhum dano material.
Quando a chuva se foi acompanhada da tarde cedendo lugar à noite, todo o recinto já se encontrava mais ou menos arrumado e, ainda sem energia elétrica, dormimos em profunda escuridão, ao som dos insetos e pequenos animais de hábitos noturnos que festejavam em meio às gramíneas, quintal afora, haja vista que naquele fim de tarde carpimos somente em volta do imóvel, para bloquear as enxurradas.
Na manhã do dia seguinte, fomos despertados pelas buzinas e cornetas de carros de vendedores, gritos de mães tentando localizar seus filhos, latidos vários de cães, cantos de seriemas vindos dos bosques das redondezas e outras manifestações derivadas das chácaras e pequenas fazendas circundantes ecoavam pela minicidade, ao ponto de criar confusão em nossas mentes: afinal, estávamos morando no campo ou na cidade?! O que mais perdurou foi o barulho de uma espécie de mercado ambulante, uma variedade de vendedores vendiam diversos produtos em veículos motorizados, muitos dos quais adaptados até com prateleiras abarrotadas de suprimentos alimentares e utensílios domésticos.
– Padeeeeeeeeeeeeeeiro… Padeeeeeeeeeeeeeeiro…
– Tem amor que vai, tem amor que vem… Ó o leite! Diretamente do produtor! Está passando aqui na sua rua… Têm leite, pão de queijo, rosca, biscoito, bolo e queijo fresco. Tudo direto do produtor. Tem amor que vai, tem amor que vem…
– Olha o pão! Tá acabando…
– Alface, couve e cebolinha!
– Pamonha! Olha a pamonha! Pamonha de sal, pamonha de doce e pamonha a moda pelo melhor preço da região. É saborosa e feita com total higiene, pode comprovar.
– Temos bacias, vasilhames de plásticos e canecas, panelas e peneiras de alumínio do jeito que você precisa e da mais alta qualidade.
– Venha vê dona de casa, está passando em sua rua o carro das verduras e frutas fresquinhas e tudo em secos e molhados pelo menor preço da região.
– Olha o doce… Olha o doce… Rapadura baiana, doce de abóbora, de pau de mamão, de beterraba…
– Carne, fresquinha.
– Peixe… Peixe… Peixe…
Após o café da manhã, nossos parentes que vieram somente para nos ajudar a organizar a nossa nova moradia e acabaram tendo que dormir, devido às fortes chuvas, se foram e ficamos sozinhos para dá início a uma nova vida. O desejo estava consumado. Depois de mais de dez anos sugados pela peste urbana, nos livramos, em definitivo, do aluguel.
(Gilson Vasco, escritor)