Brasil

Na contradição dos verbos

Redação DM

Publicado em 24 de agosto de 2016 às 02:49 | Atualizado há 10 anos

Olhares apressados impedem-nos de contemplarmos a beleza potencializada e escondida no outro.  Muitas vezes com a rotina acelerada e justificada pelas superabundâncias laborais, não tocamos o essencial. Tocar o outro exige tempo e dedicação, porém, na apressura em que vivemos, a facilidade e o comodismo não nos permitem gastar tempo como o outro.

A beleza da humanização se estabelece justamente na capacidade de apreciarmos ‘o entre’, ou seja, o ponto de encontro que intermedia o nosso Eu, com o Eu do outro. Na acomodação da agenda, criamos distâncias, ao invés de pontes. Contemplar a vida a partir do outro, nos aponta esta epígrafe: “Os olhos são a janela da alma”. Olhar o outro nem sempre é fácil, pois, incide quem somos muitas vezes. Pois bem, o que significa olhar? Reflitamo-nos: significa ver? Perceber? Direcionar? Ou o olhar é uma realidade fenomenológica do ente humano?

Em nome da pressa, de uma agenda invadida pelo cronômetro da vida, passamos pelas ruas e avenidas, sem olharmos ao redor, sem mesmo percebermos a realidade, sem menos percebermos nosso EU. O que nos tornam humanos são os vínculos interpessoais e as interações afetivas que nos aproximam do self do outro.

O olhar não fantasia a realidade interna, ele expressa de uma forma intensa o que somente olhares atenciosos são capazes de perceber o outro. Quando nosso EU, nos conduz a uma percepção de nossa existência no mundo, a tal ponto, que estreitamos relações conosco mesmo, que nos possibilitam nos conhecermos, sentirmos nossa existência como seres totalizados e hábeis; humanos doados ao outro livre de pré-conceitos e pré-julgamentos, mas, capacitados ao acolhimento integral e humanizador.

Primordialmente, a doação ao outro é um caminho de mão dupla. Se constitui também, quando há uma relação interpessoal que conduz o outro a perceber-se, ver-se como um ser total e cheio de futuro. Por isso, a necessidade de um olhar amplo, capaz de perceber o diferente integrado e inserido na totalidade do mundo. Por fim, é necessário nos percebermos para percebermos o outro.

Como profissionais da saúde, nossa vocação é sermos mestres em olhar devagar, pois, olhares apressados não combinam com a fenomenologia (Raiz) de quem somos. Nossa missão é justamente ver além da fala, traduzir com o olhar e confortar com a alma.

Somente somos capazes de cuidar do outro, se antes cuidarmos de nós mesmos, caso contrário, adoeceremos juntos. Para cuidarmos do outro, necessariamente, precisamos ter clareza do nosso lugar no mundo, e sermos conhecedores de nós mesmos. Despirmos de nossos preconceitos e estigmas que insensibilizam nossa existência em relação do outro.

O humano é um território povoado, tantas pessoas, sonhos, projetos fincados neste solo. Portanto, somente a sensibilidade de um olhar devagar é capaz de sentir e respeitar o território do outro. Não há nada mais “sagrado” que experimentar o outro por dentro. Respeitar o Tu-Eterno¹, que devolve ao Eu do diferente sua relação com uma realidade que dá sentido à sua totalidade. O que é sagrado para mim, pode não ser sagrado para o outro, portanto, o acolhimento do diferente como um ser presente no todo, é imprescindível. Olhar o outro com o coração, experimentar a dor do outro como uma realidade absoluta, ou seja, como uma verdade. Ver o outro como uma relação dialógica entre o meu EU e o EU do outro:

“A atitude com que me aproximo do outro é, também, a atitude com que me aproximo de mim mesmo. Se valorizo o outro, isso reflete minha própria auto-valorização. Se transformo o outro em objeto, também serei eu um objeto.” (Richard Hycner)

Olhar ou ver? Na contradição dos verbos me lanço. Existe um ditado mineiro que diz: “Oia pro cê vê! Ele nos garante um diferencial, entre olhar e ver. É uma premissa de verdade, que nos coloca diante de uma reflexão inquietante que nem sempre ver significa olhar. Muitas vezes vemos tantas coisas: o caminho e as pedras, as frases e versos, os atalhos e veredas, porém, elas não garantem que estamos olhando. Olhar gasta tempo, exige atenção, exige uma incomensurável cautela com o que é sagrado para mim, e para o outro.

Diante de uma peça de teatro não basta somente olhar, é preciso ver! E não basta somente ver, é preciso olhar. Uma pessoa com deficiência visual, obviamente, não é capaz de ver, porém é capaz de sentir com o coração. O olhar, talvez seja justamente isso, deixar-se ser tocado pelo o que vem de dentro do outro. Não percamos de vista aquilo que verdadeiramente nos humaniza. Não percamos de vista o que nos entrelaça com o ente do outro.

Que nossos olhares ampliem nossas relações e fortifiquem nossos horizontes. Que não vejamos a vida a partir das brechas do cotidiano, mas pela janela da contemplação existencial. Por conseguinte, estabeleço três colunas da humanização existencial que são: o olhar sem pressas, ver sem condenações e, sentir com um coração grato.

Que sejamos múltiplos e universais. Que possamos ampliar nosso coração. Não há nada mais confortante que um coração gigante e capaz de amar, essa é a condição dadivosa de quem se doou ao coração do outro. Que não percamos nossa vontade de ver, e nunca esqueçamos nosso jeito de olhar.

Tu-Eterno – é a relação do homem com o sagrado, com algo maior que ele mesmo, e essa relação se dá pela humanização do homem. O que o humano estabelece como sagrado para ele.

 

(Ricardo Moura, graduando em Psicologia)

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