Brasil

Na Terra, há núpcias

Redação DM

Publicado em 16 de julho de 2016 às 02:58 | Atualizado há 10 anos

A alma, para quem nela crê piamente, uma vez livre do corpo e seus respectivos sentidos físicos, não tem mais apetite sexual. Decorre daqui o ditado vulgar: “os anjos não tem sexo”. Que sexualidade pode ter uma alma que se despojou do corpo? In resurrectione enim neque nubent neque nubentur sed sunt sicut angeli Dei in caelo (Porque na ressurreição nem casam nem se dão em casamento; são, porém, como os anjos do Senhor no céu). Mateus 22.30. Estas são palavras de   Jesus ao saduceus, onde o Divino Mestre busca ensinar serenamente não haver núpcias no céu. As núpcias pressupõem a existência de corpos e os corpos, por sua vez, pressupõem a de órgãos sexuais.

Outra variante desse mesmo tema bíblico a gente vai se deparar em Marcos 12.25. Cum enim a mortuis resurrexerint neque nubent neque nubentur sed sunt sicut angeli in caeli (Porque quando ressuscitem dentre os mortos, não se casarão nem se darão em casamento, senão que são como os anjos que estão nos céus.)

A gente tem semelhante tema na Commedia di Dante, Canto XIX do Purgatório, através da bela tradução, em terceto rimado, de José Pedro Xavier Pinheiro (1822 – 1882):

 

Do Evangelho o sentido verdadeiro,

Que disse –  neque nubent – , se entendeste,

Verás o meu pensar quanto é certeiro.

 

Essa é aquela notável passagem do Purgatório na qual Dante encontra a alma do Papa Adriano V. O espírito de Adriano, que declama tal terceto, deseja que Dante compreenda satisfatoriamente que ele, por ter sido despojado definitivamente do corpo, não pode mais ser considerado, alegoricamente dizendo, esposo da Igreja, melhor, chefe temporal Dela e representante de Deus na terra e que, por esse motivo particular, não merece nenhuma reverência ou honraria da parte do supremo poeta da latinidade. A gente se lembra que, nos tercetos anteriores, Dante faz mesura e se posta de joelhos em respeito àquele:

De joelhos e de olhos abatidos

Quis falar-lhe; mas ele, conhecendo

Esse meu ato só pelos ouvidos,

 

“Por que te curvas?” –  me atalhou dizendo.

– “Em reverência à vossa dignidade:

Cumpro um deve desta arte procedendo.” –

 

–  “Ergue-te, irmão! Não erres! Em verdade,

Eu como tu, e o universo inteiro

A lei seguimos de uma só vontade.

 

Atentemos para o fato de que a transcrição dos tercetos da Commedia dá sentido à existência do próprio celibato, porquanto defende ser o sacedorte casado definitivamente com a Igreja e a sua missão religiosa.

A gente deve evocar o Velho Testamento, onde Deus é alegoricamente lembrado como marido e o povo de Israel, a sua mulher.

Passando eu por junto de ti, vi-te, e eis que o teu tempo era tempo de amores; estendi sobre ti as abas do meu manto e cobri a tua nudez; dei-te juramento e entrei em aliança contigo, diz o Senhor Deus; e passaste a ser minha. Então, te lavei com água, e te enxuguei do teu sangue, e te ungi com óleo. Também te vesti de roupas bordadas, e te calcei com couro da melhor qualidade, e te cingi de linho fino, e te cobri de seda. Também te adornei com enfeites e te pus braceletes nas mãos e colar à roda do teu pescoço. Coloquei-te um pendente no nariz, arrecadas nas orelhas e linda coroa na cabeça. Assim, foste ornada de ouro e prata; o teu vestido era de linho fino, de seda e de bordados; nutriste-te de flor de farinha, de mel e azeite; eras formosa em extremo e chegaste a ser rainha. Correu a tua fama entre as nações, por causa da tua formosura, pois eras perfeita, por causa da minha glória que eu pusera em ti, diz o Senhor Deus. (Ezequiel 16: 8-14)

Esse exemplo aí, de Ezequiel 16: 8-14, alude ao acasalamento alegórico de um ser divino, a Suma Potestade, com as suas criaturas. E não do acasalamento de mortais com mortais.

Quanto aos mortais, uma vez desencarnados, neque nubent! neque nubent!

Mas se, ao contrário, a alma imortal se funde em um determinado corpo mortal, vai necessariamente se sexualizando. Ou se erotizando com ele. Ou se materializando com ele. Sendo que, uma vez aprisionada à matéria, impossível não ir a alma se materializando, via da vontade sexual, para quem sente, na pele, os apelos irresistíveis da carne.

Neste sentido, a alma tem sexo, traduzida por vontade aprisionada. Eis que, com o parto, irrompe aquela obviedade: a gente é fisica ou corporalmente homem ou mulher. Mas não plenamente sexualizado ainda.

Porque essa erotização não se dá assim de uma vez só não. De supetão. Cremos que demanda uma fase de maturação, qualidade daquele que se faz amadurecido para a primeira experiência carnal. O que principia lá pelos 14 ou 16 anos.

Com efeito, para a maioria dos sexólogos, conforme já dito, a aquisição da Consciência de Sexo se dá lá aos 14 e 16 anos. Ante disso, sucede uma fase nebulosa de indefinição ou indecisão sexual. Período de afirmação erótica. De busca daquilo que melhor nos agrada ou apetece, que nem sempre concorda com o aprisionamento masculino ou feminino. Ora a vontade sexual pode inclinar para o sexo oposto ou não.

Se é caso de a alma viver enclausurada em um determinado corpo masculino, vai ela tender ao objeto oposto: o feminino. E vice-versa.

Sucede aqui a visão tradicional: a vivência heteroerótica, que não se confunde com a homoerótica, tão mal compreendida alhures. Porque há quem tenda para as pessoas do mesmo sexo, como a realidade vem demonstrando fartamente.

Em “Fetos e Afetos”, texto que publicamos nas páginas do Diário da Manhã, 2015, salientamos precisamente essas duas tendências atuais da sexualidade.

A primeira, mais conservadora, mais tradicional, vai simbolizada pelo termo “Fetos” ou “Embriões”. Aqui é que se encaixa precisamente o livro do Gênesis 1:1-29, onde o Criador faz homem e mulher a sua imagem e semelhança e lhes diz: “frutificai, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a.” Temos pois a biologização do conceito de família.

A segunda tendência, mais intimamente liberal, vai simbolizada pela expressão “Afetos” ou “Simpatias”, que sinaliza abertamente com o moderno conceito de homoafetividade.

 

(Pedro Nolasco de Araujo, mestre, pela PUC-Goiás, em Gestão do Patrimônio Cultural, advogado e membro da Associação Goiana de Imprensa – AGI)

 

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