Brasil

Não foi com outro, foi comigo que aconteceu

Redação DM

Publicado em 4 de agosto de 2015 às 21:52 | Atualizado há 11 anos

Fui à Caixa Econômica, aquela da Avenida Independência com a Rua 74, fazer uma transferência bancária.

Muito bem atendido por um funcionário, de uns quarenta e poucos anos de idade, se muito, embora aparentasse mais jovem. Sorridente, bem falante, foi logo me tratando por ministro. Deve me conhecer bem, pensei.

Na verdade, por onde ando, sempre sou distinguido pelas funções que desempenhei – e que vez por outra ameaço continuar (kkk, risada sem graça do Whatsapp). De professor, por profissão, a político, por imposição de uma época, em que me transformei num instrumento de protesto, vi coisa que só Deus não duvida.

Rapaz esclarecido, o servidor me pareceu culto. Ao tempo que resolvia meu problema, enveredou pela situação do País, sem descuidar do que fazia. Portanto, não estava roubando o tempo da Nação que o paga com o que ela arrecada dos pesados tributos arrancados do povo. Bem diferente daquele atendente que fica no balcão maldizendo o governo e produzindo nada. Quando não lixando as unhas, indiferente a tudo.

Depois de algumas análises sobre a atual conjuntura que atravessamos, me encarou, mas sem agressão, e disse: “Melhor que volte a ditadura.” De ímpeto, pedi que não pensasse assim e que não abrisse mão do Estado Democrático de Direito, único caminho para solucionar qualquer crise, mesmo que demore.

Numa fração de segundo, achei que a indignação fosse comigo, porque lutei de unhas e dentes contra o golpe militar de 1964, e ele sabe, pois conhece a minha trajetória.

Logo percebi que não era em relação a mim. O motivo é a descrença nas instituições e nos homens. Nem é para menos, mas também não é para se chegar a tanto. A democracia sempre oferece as melhores opções.

Aproveitei e joguei logo a sementinha parlamentarista naquele solo. Qual a minha surpresa: “Votei a favor do parlamentarismo no plebiscito de 1993”, disse ele, “mas o povo derrotou a ideia”, concluiu.

Mas hoje ele prefere a ditadura porque não acredita nos políticos. “Com quem construiremos o parlamentarismo?”, me sapecou. É mudando o sistema que se muda os homens, mandei de volta. Quietos é que não podemos ficar mais. Dali continuei a minha pregação.

Insisti em quatro requisitos que trarão mudanças substanciais: o voto distrital (o eleitor próximo de quem será eleito e vice-versa), o recall do voto (quem elege com o poder de deseleger), destituição do gabinete (ele é o executivo) pelo parlamento, e a dissolução do parlamento como forma de eliminar a crise. Tudo pela vontade do povo e sem nenhuma filigrana judicial.

Deu-me um gelo na barriga ver gente esclarecida preferindo a ditadura. Se a moda se alastra, e ainda mais aqui dentro da América Latina, cruz credo!

 

(Iram Saraiva, ministro emérito do Tribunal de Contas da União)

 

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