Brasil

Necessidade ou covardia

Redação DM

Publicado em 16 de fevereiro de 2016 às 22:28 | Atualizado há 10 anos

Como chuva fina no crepúsculo, molhando por insistência o chão sedento, cai em migalhas divididas ao meio, jogadas aos asnos como sobra dos ratos. Com requintes de compaixão quase “divina” e a piedade dispensada aos indigentes, o que a Casa Grande não comeu, a senzala se esbalda, num espetáculo degradante de esfomeados diplomados em grandes universidades, pós-graduados em miséria, na arte da renúncia ideológica, de joelhos diante do algoz e constrangidos pela necessidade.

É o que restou por merecimento e pelo valor dado a cada intelectual, poderosos e ameaçadores, ousados e subversivos pelas armas que empunham, o pensamento e a oratória! Embezerrados, como se estivessem no brete a caminho do matadouro, que os tornam menos que humanos, recursos humanos, coisas que o dinheiro paga quase nada!

A morte lenta faz do martírio, resistência. Mata-se a ideologia; o que restou da dignidade; do sangue; do suor e a luz do fim do túnel, que foi cortada por falta de pagamento. Ignorados pelo sistema que fomenta insistentemente a ignorância.

O relho é o reconhecimento do trabalho de cada um, o rubro suor, tem cheiro de sangue, que nas mãos do carrasco, como um grande alquimista, vira ouro, fortuna e lapida a honra e a moral impoluta de nobres cavalheiros.

Os colaboradores, são responsabilizados pelo fracasso que a incompetência gerou, socializam as desgraças e os “prejuízos”, parindo novos desgraçados! A mesa farta, os lucros e o sucesso, são privatizados, coroando a apropriação das aves de rapina. A glória dos grandes empreendedores e a pior espécie de seres da terra, os bajuladores, os jagunços e capitães do mato do século XXI. Que não é de hoje, que constroem seus nomes e patrimônios, nos ombros e no trabalho dos indispensáveis esqueléticos e famintos.

Um brinde ao farto banquete do proletariado, regado pelas migalhas do pão dos renegados, divididos ao meio, para que a senzala multiétnica se farta abundantemente, esbaldando com a caridade de quem os detestam!

No silêncio monástico da resignação, que a dignidade, resista além da covardia! Os parasitas se deleitem, com os esfomeados, que diariamente faz a diversão da diretoria, ruminando sua indignação, com um espetáculo patético de abnegação. Mãos  incessantes e ávidas, gritos por justiça social, moral e humana. O desdém do opressor, numa demonstração odiosa e explícita de indiferença aos  invisíveis, que não são, embora sejam.

O podão que não corta cana, mas, poda sonhos, vidas! O doce da cana verte na terra, com um sabor amargo do chicote que macula a alma e fomenta a dor de uma elite intelectual, que continuam a mendigar um trabalho transformador, um salário respeitador e bem mais, que um pão dividido ao meio!

 

(Marcos Manoel Ferreira, professor, pedagogo e historiador – [email protected])

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