Novidade e originalidade: palavras para pensar a educação
Redação DM
Publicado em 7 de janeiro de 2017 às 01:40 | Atualizado há 10 anos
“Amanhecer: o mais antigo sinal
de vida sobre a Terra.
Amanhecer: ainda o mais novo
sinal de vida sobre a Terra.
Amanhecer e vida humana, se
entrelaçam na mesma luz”
(Carlos Drummond de Andrade)
Sempre me agradou pensar sobre as palavras, dialogar com elas, buscar os sentidos que carregam e que impregnam de certa forma as práxis humanas. Como educadora, sempre parto desta interlocução com as palavras, para pensá-las no contexto da educação e refletir sobre as demandas e dilemas do cotidiano do trabalho docente. Hoje trago o diálogo com duas palavras que são empregadas constantemente nos discursos do campo educativo e povoam as intencionalidades de boa parte de seus atores. São elas: a novidade e a originalidade.
Mas o que é novidade? E originalidade? Têm quais sentidos? Segundo o dicionário Aurélio, novidade é aquilo que é novo, coisa nova, inovação. No senso comum, novidade é associada com avanço, mais ainda, a uma melhoria. Mas será que a novidade implica necessariamente uma melhoria? Implica transformação e benefícios? E mais, a novidade é mesmo inovadora?
Entre novidade e originalidade existe uma substancial diferença; Enquanto a novidade carrega os sentidos do inusitado e do incomum, a originalidade, por sua vez, tem um caráter próprio, que não procura seguir ou imitar ninguém. A novidade, não passa necessariamente pelo caminho das conquistas, da efetivação de projetos e do alcance de uma compreensão profunda. O original tem como viés o dialogismo com a trajetória anterior e a proposição de perspectivas possíveis. O original é o avesso do estranho e do novo, ele dialoga com as origens, com a dúvida, com a inquietude e com o espírito crítico.
Dessa forma, imagino que a educação carece pensar um novo, próximo da originalidade, da busca da origem, daquilo que é desafiador e nos estimula a seguir adiante e pensar formas alternativas de organização de nosso trabalho. Ao pensar o novo em consonância com a originalidade, alcançamos o plano das conquistas que perduram e não apenas vigoram temporariamente. Trata-se de buscar o caráter da permanência dos avanços a partir da renovação e da transformação.
A epígrafe de Drummond mostra as possibilidades desse movimento entre o novo e o original. O sol nasce de novo todas as manhãs e isso é “antigo”, mas o seu nascer é, sem dúvida, originalíssimo, sem precedentes. Um novo ano começa a cada primeiro dia de janeiro, novos alunos, novos desafios, e isso também é antigo, contudo nosso trabalho pode ser inovador se procurarmos dialogar com suas origens, com sua raiz.
Há que se olhar de maneira nova para a realidade, fazer perguntas e questionamentos buscando o novo, mas também com originalidade. São essas novas perguntas que ensejam mudanças, transformações e conquistas. Perguntas que se entrelaçam com o cotidiano docente, que renovam o antigo e buscam beber em suas origens para impregnar de sentido as práticas humanas. Como bem disse Drummond, se “amanhecer e vida humana se entrelaçam na mesma luz” e se, “o novo amanhece”, o que deve prevalecer é a afirmação da vida humana renovada e original construída todos os dias com nosso esforço coletivo.
(Marcia Carvalho, pedagoga, psicopedagoga, mestra em Sociedade, Políticas Públicas e Meio Ambiente, diretora-secretária da Fundação Ulysses Guimarães -GO)