Brasil

Nunca lambei

Redação DM

Publicado em 1 de março de 2017 às 00:49 | Atualizado há 9 anos

Não, não está escrito errado. Antes de o pensamento de quem lê abrir vazão diferente de minha intenção, corro para fornecer alivio sobre o título: não lambei, nunca consegui dançar lambada. No início dos anos noventa, na grande febre do ritmo, principiava uma das grandes frustrações de minha vida. Por mais que o tempo passe, não há jeito de me desgarrar disso. Se existem pessoas decepcionadas por não conseguirem dirigir, pintar, cantar, nadar, o meu caso é lambar. Nunca lambei. Conto como foi, ou melhor, como não foi.

Molecote, eu sempre ia aos forrós com a dona Dirce, uma bondosa vizinha que cuidava de mim quando mamãe se fazia ausente. Um filho seu, o Robertinho, tinha minha idade. Amigão do peito, companheiro fiel de peripécias e aventuras pelos quintais sem cerca da vizinhança, ele tinha um “problema grave”, consideremos inicialmente assim: sabia dançar, e muitíssimo bem, lambada. Não havia ninguém como ele. Dava espetáculo. Em meio às músicas tradicionais de forró, sempre tocavam uma ou outra lambada. Estando nós brincando perto da barraca, ao perceber a lambada tocar, ele abandonava a brincadeira e saía tropeçando para cair na graça da dança  — isso quando não vinham as meninas chamarem-no. Eu e os outros meninos ficávamos estupefatos. Ora, como podia ser tão piolho em lambada? Abandonar a brincadeira para ficar rebolando feito bobo? Certo é que não conseguíamos mais brincar e, no fundo, éramos combalidos por grande inveja. Sem haver concentração suficiente para continuar a brincar, um a um, dali a pouco, estávamos todos debaixo da barraca assistindo ao Robertinho lambar. A bem da mais pura verdade, tínhamos uma reverência enviesada pela vontade de estar no seu lugar.

O nosso amiguinho arrebentava a boca do balão. Parecia de borracha o danado, nos remelexos circulares e trepidantes. Gira para cá, para cá, rodopiava a parceira, com uma facilidade impressionante. Não era difícil acontecer de outros casais que dançavam, a maioria adultos, pararem e abrirem roda, numa forma muito interessante de reconhecer os méritos de quem estivesse chamando a atenção para si na dança. Quase todas as vezes faziam roda para o Robertinho dançar. Já vi até a ordem das músicas ser mudada por conta dele: um dia puseram cinco ou seis músicas de lambada seguidas. Saía de lá suadinho de pingar.

Nesse tempo, fizeram um concurso local de lambada no Ginásio de Esportes JK. Chico Tira-Gosto, recém-chegado de Brasília, compositor e cantor de “Eu Passei o Pé na Velha”, achou a cidade muito parada e resolveu tomar a iniciativa de fazer um evento para movimentar o lugar. E conseguiu. Todo mundo passou a falar só nisso. Gente grande e gente pequena, todos ansiosos para participar ou assistir. Coisa de louco. Os ingressos se esgotaram três dias antes.

Na véspera, Robertinho danou a ensaiar com sua parceira ou sozinho, exaustivamente, para tentar ganhar o prêmio. Não precisaria, é verdade, mas o fez.  Por um tempo, ele não punha a cara na rua facilmente. Abriu mão do bete, do carrinho de rolamento, do bate-bola, do garrafão, de ir para o córrego, tudo para se dedicar ao treino. Uma coisa inegável de Robertinho é que, além do dom de dançar, era muito persistente. Chegado o tão esperado dia, com as arquibancadas do ginásio lotadas, gente se acotovelando lá fora para entrar, um vavu de dar medo, não deu outra: sem camisa, com uma calça branca tipo capoeira, uma fita amarrada na cintura e outra na cabeça, Robertinho levou o primeiro lugar com louvores. Ganhou um troféu e uns trocados. Saiu de lá ovacionado.

Anos mais tarde,  na época de cobrador de ônibus, nos forrós agitados de Aruanã e Barra do Garças, mesmo tendo eu aprendido a gostar de outros estilos de músicas, ainda sentia profundamente a deficiência dos dotes da dança. Numa dessas ocasiões, com umas duas na cabeça, até tentei quebrar de vez esse triste e quase atormentador trauma. Ao tocar lambada, fui lá, chamei alguém para a dança, decidido a enfrentar o problema de frente. Não é assim que os livros de autoajuda nos recomendam fazer? Pois é. Mão direita na cintura da moça, a esquerda grudada em sua mão com braço semiestendido e mandei brasa. Música tocando, eu tentava acompanhar os passos e as gingas confusas do seu corpo. Movimentos complicados, compassos confusos, espirais, vertiginosos. Sem o traquejo do molejo, não tardei a pisar no pé da parceira, uma, duas, três, quatro, cinco vezes e, numa reação raivosa da coitada, ser abandonado no meio do salão, ficando com uma tremenda cara de tacho. Sosseguei o facho.

Para consolar, pois sempre há formas de diminuir, em nossa sensibilidade, os danos causados por nossa falta de aptidão diante das situações, me ocorre alguma suavidade no peito se for levada em consideração a velha máxima: “Quem sabe nasce pronto.” Grande verdade, penso e repito como se fosse um pequeno mantra. E eu não nasci para lambar.

 

(Hailton Correa é servidor público e escritor)


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