O básico da economia
Redação DM
Publicado em 13 de abril de 2016 às 02:58 | Atualizado há 10 anosA economia precisa ser destravada; seu acionamento está intrinsecamente ligado ao plano internacional ou seja, a economia mundial precisa ser liberada ou o Brasil não avança sobretudo, na velocidade que quer e denuncia o histerismo das elites nativas. Já vem de longe o debate da crise eclodida no centro do capitalismo mundial a partir de 2008 e que se alastrou por todo o mundo.
Alguns entenderam mas muita gente, no entanto, não compreendeu ou não quis compreender. Talvez um pouco de estudo sobre a formação econômica brasileira ajude a entender que, apesar dos avanços dos últimos anos, ainda somos uma economia dependente, periférica e que sente de forma direta das menores às maiores sacudidas das crises internacionais.
São várias as teorias que tratam do nosso atraso e dependência estrutural. Desde autores conservadores como Fernando Henrique Cardoso em seu modelo interpretativo de tipo weberiano que busca dar conceito para o tema da dependência até a autores do marxismo estruturalista como Ruy Mauro Marini.
A questão central é que o miúdo oligopólio de países do capitalismo central tem o hábil talento de bem mais do que aquinhoar o PIB mundial mas de gerar geopolíticas ao seu gosto e que garantam fluidez aos seus interesses sociais, políticos e econômicos. Linhas gerais, os grandes da economia mundial inventam mundos.
Este dispositivo abarca uma miríade de possibilidades que vai da instabilização de países resistentes, passando pela derrubada de governos legítimos, pela restauração de antiquários oligárquicos até o extremo de invasões militares e genocídios televisados. O fundamental é que o “laissez faire” do atual ordenamento geopolítico seja mantido e mais até, que seja atualizado, aprimorado e que finalmente, seja consolidado como meio e fim de um processo de homogeneização global a serviço daquele mesmo oligopólio de países centrais e que arrasou com o próprio sentido de estado-nação, soberania e paz mundial.
Para a contemporaneidade é importante citar que o ensaio de organização “sul-sul” capitaneado principalmente pelo condomínio dos BRICS representou importante esforço para as trocas internacionais a envolver os principais países da emergência econômica mundial.
De fato, o arranjo dos Brics demonstrou que o circuito econômico-financeiro clássico e neocolonial encabeçado por mais de um século pelos Estados Unidos-Europa mais do que o principal consolidado comercial transcontinental é também e, principalmente, uma estrutura intensamente tecnologizada, ideológica, bélica e sensível na medida em que essa ampla teia cheia de pontos neurais e espraiados em todo o globo gera reações proporcionais e pontuais ante movimentos contra-hegemônicos. Reações, inclusive, políticas.
A articulação político-militar perpetrada por fascistas e golpistas ucranianos com o apoio da Europa Ocidental e Estados Unidos contra o governo e a influência russa na região da Crimeia é expressão da inteligência econômico-militar e que se converteu o atual liberalismo euro-americano. Da mesma forma, os esforços pela derrubada do muito instabilizado governo do presidente Jacob Zuma, na África do Sul são intensos.
A China, com a crise de 2008, teve a entrada e o comércio de suas manufaturas reduzidas no “mundo mágico” da Euro-América. O caso brasileiro é emblemático. Por quase dois anos, a presidente reeleita Dilma Roussef é praticamente impedida de governar. Exatamente na quadra histórica em que vem à tona na paisagem econômica brasileira o descobrimento do Pré-Sal e que representa, para os próximos 10 anos, investimentos da ordem de 20 trilhões de reais.
São muitos os aspectos que marcam e definem o largo movimento de composição e recomposição do macro-fluxo econômico-financeiro e global, no entanto, a máquina está aquecida e a febre política que toma conta do mundo demonstra nosso dilema mundial.
(Ângelo Cavalcante, economista, cientista político, doutorando – USP e professor da Universidade Estadual de Goiás – UEG, campus Itumbiara)