O benefício da dívida
Redação DM
Publicado em 10 de agosto de 2016 às 02:38 | Atualizado há 10 anosEspecialistas em finanças pessoais são quase unânimes ao afirmarem que em tempos de crise é preferível pagar à vista. Isso vale especialmente para aquela compra que não cabe de cara no orçamento mensal e pode significar parcelamento a juros altos, calibrados pelo nocivo aumento do risco do crédito que compromete o equilíbrio das contas. Estamos falando do celular novo, da geladeira, do computador ou daquela viagem de férias. Se dá para esperar, o ideal é planejar o gasto, juntar o valor total do bem e pagar seu custo à vista. Evita o juro incômodo, exercita sua capacidade de lidar melhor com o dinheiro e no final das contas traz o melhor resultado, o bem desejado e o orçamento mantido.
A regra de manter um nível de despesas abaixo da renda familiar é um importante instrumento para viabilizar conquistas maiores. Porém, pouco se fala sobre o bem que custa muito mais do que é possível juntar por mês para comprar, como um imóvel por exemplo. O crédito imobiliário promove o adiantamento desses recursos para quem precisa financiar uma parte do valor, permitindo a realização da compra através do pagamento parcelado do empréstimo por um longo período, de modo a acomodar a despesa na realidade do orçamento doméstico. É um instrumento de benefício imediato permitindo usufruir de sua conquista desde o início, seja para quem vai morar em uma nova casa ou para quem quer investir, por contar com a rentabilidade do aluguel a partir da realização do negócio.
Aí vem a crise financeira e muita gente se preocupa com a manutenção do emprego, com o poder de compra e nível de renda da família. Caso tenha uma reserva em mãos, pensa logo em se livrar das dívidas. Isso acaba sendo vantajoso em tipos de empréstimos onde há benefício na antecipação do débito com negociação de descontos. No crédito imobiliário isso não acontece dado a forma como é calculada a prestação. Nela estão considerados, além dos juros do crédito, a amortização do saldo devedor.
No momento em que o ambiente de incertezas impacta a confiança, é natural que à primeira vista o objetivo principal seja diminuir o comprometimento da renda com dívidas. Essa iniciativa é bastante recomendável no caso das parcelas de empréstimos mais líquidos, que incorporam o risco da inadimplência nos juros e, justamente por isso, são normalmente mais caros. Quando falamos do crédito imobiliário, a conta deve considerar o fato de que se trata de uma das linhas mais baratas do mercado, o que exige uma reflexão mais detalhada sobre as vantagens de uma eventual quitação.
A decisão de amortizar o financiamento, integral ou parcialmente, não depende do momento do contrato em si, mas de uma avaliação pessoal da comparação dos benefícios de cada opção. Por um lado, não amortizar o financiamento permite investir esse dinheiro, trazendo duas grandes vantagens: rentabilidade do investimento e maior liquidez, já que é mais rápido resgatar investimentos do que vender imóvel. Por outro lado, a opção de amortizar o financiamento reduz a despesa mensal com a parcela do financiamento.
O ponto é que nem sempre se desfazer dessa despesa é a melhor opção. Em cenários de juros básicos altos, como o que estamos passando, é possível encontrar investimentos onde a rentabilidade traz uma vantagem financeira que compensa os benefícios da amortização do financiamento. Ainda que o rendimento da aplicação não supere os custos do empréstimo, uma questão muito importante é considerar também o valor da liquidez. Ter uma reserva ajuda muito na hora do imprevisto, na cobertura de eventuais necessidades e na valorização de seu poder de compra para a realização de outros sonhos. Estar líquido em um cenário de crise garante tranquilidade, pois significa mais previsibilidade e segurança, mesmo que o cenário seja de insegurança.
Além disso, em uma eventual necessidade que exija a contratação de um novo crédito para uma situação de emergência, provavelmente será de uma linha mais cara que o crédito imobiliário, o que poderia, no futuro, comprometer o orçamento de forma ainda mais significativa. Mais do que dos juros, vantagens como a redução da parcela do financiamento a cada mês na modalidade SAC e os seguros obrigatórios do financiamento que garantem coberturas importantes para a tranquilidade familiar são diferenciais que precisam ser considerados.
É diante desta avaliação sobre causas e consequências que se deve tomar a melhor decisão. Mais do que recomendações, o histórico do mercado nos mostra que o melhor a fazer em cenários de incertezas é manter a natureza do investimento para evitar que as oscilações causem perdas. Portanto, na dúvida, reavalie suas contas, avalie os riscos e, acima de tudo, considere a natureza da dívida. Ter a casa própria quitada nem sempre é a melhor decisão a ser tomada.
(Cristiane Magalhães, diretora de Crédito Imobiliário do Itaú Unibanco)